MAIS SONETOS "IN TEMPORE"

por

Carmo Vasconcelos

PÁG. 14 DE 19 PÁG.

 

 

 

 

 

 

 

POR ONDE ANDAS?
Carmo Vasconcelos


Que chão ou mar, areias ou silvado
Que mato verde ou ocre se permeia
Entre ti e minh’alma que te anseia
Como um deus do Olimpo desterrado?

Quanto de chuva negra, lava, vento
Há no gelo e fogo que me imola
E no rubro desejo que me assola
Quant’ alta-maré, vaga de tormento…

Por onde andas amor tão desejado
Amante e puro como imaginado
Por mim, no descompasso da ausência?

Se toda me terás em fogo-ardência
Por que não me procuras desvairado
Por que não te encontro em qualquer lado?


Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 2007

 

 

 

 

PRIMAVERA
Carmo Vasconcelos


Desabrochadas, minhas rosas amarelas
São doce imagem de formosa alegoria,
A me lembrar noites banhadas de euforia
E de extasiados sonhos, rútilos de estrelas!

Ao despertar, pintam-me cor n’alvas manhãs
Em que, de longe, chegam rufos de tambores
A convidar à floração castos amores
De similares seivas, prístinas irmãs!

Porém se as toca a brisa, imploram-me água perto;
O marginar de um rio que afoito corra certo
A acarinhar a terra madre que o venera!

E mais segredam minhas rosas amarelas:
Que uma Divina inspiração se serviu delas
Pra consagrar, maravilhosa, a Primavera!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 25/Março/2007

 

 

 

 

PROJECÇÃO
Carmo Vasconcelos


Quando a minh’alma em noites se elevar
À etérea dimensão, em astrais viagens,
Buscará de entre todas as paragens
Esse leito onde insone é o teu penar.

Hora em que, exausto, o sono te vencer,
Crendo tu nem já saberes sonhar,
Minh’alma em projecção irá buscar
A tua, pra suavizar teu padecer.

E aos corpos confinada a sã consciência,
Gozaremos no Cosmos de una essência;
Alma etérea liberta de tormento.

Querubins de amor, de encantamento,
Por leito tomaremos o Universo,
Duo amante nas asas dum só verso!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal23/Fevº/2008

 

 

 

 

QUE AMOR É ESTE?...
Carmo Vasconcelos


Que amor é este meu que não se abala
Com interregnos, fugas e pendências?
Que embora solitário nas ausências,
Nada o faz soçobrar, nem o avassala?

Estranho sortilégio que me amarra
E bastas vezes dói, como um castigo;
Fado fatal do qual não me desligo
Como fadista escrava da guitarra!

Também ela lhe dá canto ou lamento,
Dor pungente ou alegria em desgarrada,
E cala ou desafina se em tormento...

E a fadista, sem ela, perde a garra,
E os seus trinados soam sem alento,
Mas ainda assim... bendiz fado e guitarra!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal15/ Agosto/2008

 

 

 

 

RECOLHIMENTO
Carmo Vasconcelos


Hoje sou aquela… a que sepulta
Palmas, louvores, risos, ironias
Quero santos ofícios, elegias
Abrir a sacra catedral oculta

Quero sinos tocando a rebate
Eco de meus lamuriosos ais
Quero beber as mágoas dos mortais
Alimentar a dor que em mim se abate

Ser surda a qualquer hino de alegria
Ajoelhar em réquiem de finados
Dar campa aos meus amantes desamados

Carpir a vida breve e fugidia
Pôr luto pela morta felicidade
E recolher-me em ti… nesta saudade


Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 2005

 

 

 

 

 

 

LIVRO DE VISITAS

Para pág. 15