MAIS SONETOS "IN TEMPORE"

por

Carmo Vasconcelos

PÁG. 13 DE 19 PÁG.

 

 

 

 

 

 

 

O TRIÂNGULO
Carmo Vasconcelos


Em lágrimas desfeita fui ribeira
Na solidão oculta fui retiro
De desejos calados fui suspiro
Por entre altos e baixos fui ladeira

Mil vezes moribunda renasci
Nos versos, meu avesso, dor se foi
É já nódoa negra que não dói
Mancha na veste antiga que despi

Da vida a geometria ajustada
Sem compassos, esquadros, sequer réguas
Num triângulo sacro me enquadrou

Nele encontrei a paz por mim sonhada
Na Luz, Amor e Fé achei as tréguas
Das lutas com que a vida me cercou


Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal-1996

 

 

 

 

OBSESSÃO
Carmo Vasconcelos


Quem me dera ser lenho, musgo ou seixo
Impassível, sem dor, sem dependência
Do conturbado mundo ser o eixo
Erecto, sem tremor, sem turbulência

Quem me dera ser astro, chuva ou vento
Ignorante de amor, da sua ardência
Bastar-me o céu azul como alimento
Imune a esta fome sem clemência

Fosse eu um vegetal em apatia
Insensível à dor da solidão
Que decerto o amor não buscaria...

Fosse eu despida desta obsessão
Que jamais para ele eu correria
Fosse eu oca de sangue e coração!

Carmo Vasconcelos
Lisboa/Portugal - 1997


1º Prémio "Soneto"/ano 1999 - Concurso Literário do Cenáculo Marquesa de Valverde

 

 

 

 

PARTILHA
Carmo Vasconcelos


Como me faz doer esta partilha
Saber que ela te tem mais do que eu
Para que me arrancaste desta ilha
Se não posso aspirar ao mar que é teu?

Esse teu veleiro partido ao meio
Trouxe até mim apenas a metade
Dum amor que eu sedenta queria cheio
E ao nele entrar rumei à tempestade

À tormenta desta paixão doer
Meu amor por inteiro desejar
Tuas doçuras únicas beber

Perdoa amor se a ti renunciar
E nesse mar salgado o meu querer
Doce de mais... vier a naufragar


Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 2007

 

 

 

 

PERDOAR
Carmo Vasconcelos


Errar todos erramos descuidados
Palavras impensadas saem lestas
Como da pedra bruta as arestas
Ou urtigas que irrompem dos silvados

Nesta minh’alma também imperfeita
Tenho lugar pra agravos perdoados
Aos seres que dos erros impensados
Repesos se redimem da desfeita

Tal qual eu me retrato quando erro
E a uma só verdade não me aferro
O mesmo peço para perdoar

Mas se arrogantes sábios se afirmam
E néscios no orgulho se empinam
Pra esses… meu perdão não tem lugar


Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 2005

 

 

 

 

POETA – PÃO
Carmo Vasconcelos


Ainda não nasceram as palavras
Que haverei de cantar-te agradecida
Pla colheita dos versos que aqui lavras
Poeta-amigo, pão da minha vida!

Tuas letras são remédio que aduba
Tua seara – mente e coração
Tua pena o ancinho que derruba
Ervas daninhas – dor e solidão

Ervas desse teu chão e meu também
Que igual solo habitas como eu
Filho que és da mesma terra-mãe…

Ou não sejas, poeta, o meu irmão
Que o mesmo amor Divino concebeu
E que enlaçou na tua a minha mão!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 2006

 

 

 

 

 

 

LIVRO DE VISITAS

Para pág. 14