MAIS SONETOS "IN TEMPORE"

por

Carmo Vasconcelos

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NA MARÉ VAZIA
Carmo Vasconcelos


Do que entre nós passou ficou o gosto
Do clímax só sentido a meia haste
Do fruto esverdeado sem o mosto
Da tela inacabada feita traste

Após o estimulante aperitivo
Ficou na fome o banquete adiado
E o céu esperado dum amor cativo
Acinzentou no êxtase gorado

Vulcão que breve a medo se calou
Fogo que a gota de água sufocou
Tempestade abortada em calmaria…

Foi bom o que tivemos… Muito louco!
Para o nosso desejo… Muito pouco
Onda desfeita na maré vazia


Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - Jan 2008

 

 

 

 

NATAL
Carmo Vasconcelos


Todo Natal eu tento me conter
Enterrar fundo as vãs recordações...
Saudosas lágrimas em mim suster,
Velar da mente antigas emoções.

Para ofuscar um tempo que não volta,
Espalho cores, sons, cintilações,
Visto o pinheiro e, fantasia à solta,
Invento as mais subtis combinações.

E nada falta na alegre aparência
Dos risos e canções em convivência
Nesse cenário da infância imitado...

E é de lá... Do presépio iluminado,
Que o almo olhar do Menino, em complacência,
Me aveluda as saudades do passado!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-PortugaL - Natal/2008

 

 

 

 

NOITES
Carmo Vasconcelos


Há noites em que dói esta ansiedade!
No peito, emaranhado nó derrama
Meu sangue que em fervor plo teu reclama
E grita plo pulsar em unidade!

Foi um sonho tão nítido e plausível,
Que dentro em mim plasmou segura crença,
Viva, ainda, apesar da indiferença
Deste hoje que me nego a crer possível!

Era no doce e manso anoitecer
Que a medo o nosso amor, a se esconder,
Brilhava à luz da rima desnublada...

E enquanto a Lua gerava uma alvorada,
Estrelado era o “nós” desse tu e eu,
Desfeito, após, nos braços de Morpheu!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 12/Julho/2008

 

 

 

 

NUM CIGARRO
Carmo Vasconcelos


Dia após dia queimo num cigarro
Essa imagem que tento dissipar
De um amor fugidio que não agarro
E que mora não sei em que lugar

E queimo ainda essa voz que teima
Em reclamar furtiva esse amor
Num crepitar constante que me queima
Braseiro manso mas devastador

Dia a dia queimar é o meu desejo
Essa imagem longínqua e desfocada
Dum amor que imagino mas não vejo

E em cada minha triste madrugada
Cada cigarro rubro é como um beijo
Dessa imagem por mim imaginada


Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 2007

 

 

 

 

O MISTÉRIO DA VIDA
Carmo Vasconcelos


É misterioso este mar que navegamos
Numa rota predestinada e definida
Pilotos numa barca a esmo sacudida
Onde sobrevivemos ou nos afundamos

É misterioso este chão onde plantamos
As sementes herdadas dum passado extinto
Agricultores numa terra em labirinto
Onde colhemos ouro ou só pedra achamos

É misterioso todo este ar que respiramos
Viajantes oriundos de ignoto mundo
Fazendo escala pra um destino que ignoramos

E nuvem assaz misteriosa é esta vida
Filha do misterioso Deus que não tocamos
Só desvendada quando o Pai nos der guarida

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 1997

 

 

 

 

 

 

LIVRO DE VISITAS

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