MAIS SONETOS "IN TEMPORE"

por

Carmo Vasconcelos

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LIQUEFACÇÃO
Carmo Vasconcelos



Enterro a tristeza em escombros
E do pó busco a alegria
Ao calor dum novo dia
Derreto o chumbo dos ombros

Desfeita a melancolia
Abro a porta dos segredos
Ponho a verdade nos dedos
Sem luvas de fantasia

Líquida e branca me dou
Mosto velho de vivências
Do meu cálix escorrido

Néctar dum Carma medido
Entre bênçãos e carências
Dou-vos o vinho que sou!


Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - Jan 2006

 

 

 

 

MALDITO CORAÇÃO
Carmo Vasconcelos


Mistura de ave e de potro selvagem,
Com pés de vento e asas de condor,
És de mim o esfaimado predador
Que me arrasta à sua insólita voragem!

Dos teus arroubos vãos sobra o transtorno
De uma a outra magoada recaída
Dos céus ao chão, nos becos sem saída,
E na alma nódoas negras sem retorno.

Maldito coração que vais às cegas!
Por que de vez teu sangue não sossegas
E me insuflas paixões tão inconcretas?

Teus pés jamais hão-de atingir as metas
E as asas falharão em toda viagem...
- Desiste, coração! Ganha coragem!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 5 / Maio/08

 

 

 

 

METAMORFOSE
Carmo Vasconcelos


Quando do reino eterno, inatingível,
baixar esse fatídico decreto
que levará minh’ alma indestrutível
e meus chorosos vestirá de preto...

Terá meu corpo a terra por morada,
tornado pó por mágica alquimia
da terra-madre, a poderosa fada,
que o mudará em flor um certo dia.

E enquanto plos espaços luminosos,
perdida por lonjuras que nem meço,
minh’ alma roga a Deus por curta viagem...

Vão colorindo as vestes os chorosos,
que cedo esquecerão da minha imagem,
e eu vou chegando ao pouso que mereço.

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 1996

 

 

 

 

MIL VEZES
Carmo Vasconcelos


Mil vezes nascerei ingénua, pura
Despida de memórias e de linhos
E às cegas plos abrolhos dos caminhos
De novo me farei à estrada escura

Mil vezes feita verme a impureza
Sugará de minh’alma a perfeição
Até que certo dia um clarão
Me faça vislumbrar sua torpeza

Mil vezes travarei a luta obscura
Contra a vil impureza traiçoeira
Que na carne me tenta e me tortura

Só quando vir do corpo a impostura
Alcançarei a estrada derradeira
E pousarei sem volta… na Altura


Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 2008

 

 

 

 

MOINHOS DE VENTO
Carmo Vasconcelos


Ainda não esqueci em tantos anos
As setas aguçadas de ciúme
Partindo de teus olhos arcos-lume
Feitas dardos ferinos e insanos

Em mim ainda sangram incrustadas
Palavras tuas tão incoerentes
Chagas minhas antigas mas latentes
Que de vez só na tumba são saradas

De culpas inventadas me vesti
Fiz delas a couraça e resisti
Cedendo a quixotescos desalinhos

Minha espada a palavra de Cervantes
No punho… Vês gigantes? São gigantes
No gume… Vês moinhos? São moinhos


Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 2007

 

 

 

 

 

 

LIVRO DE VISITAS

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