MAIS SONETOS "IN TEMPORE"

por

Carmo Vasconcelos

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EM CARNE VIVA
Carmo Vasconcelos


Manda a prudência que evitemos os excessos,
No centro posta-se a virtude do equilíbrio;
Na demasia, momentos bastos, há ludíbrio,
Plo que convém nos recolhermos aos anversos.

É persistência exagerada a teimosia,
Ciúme demais, descontrolada possessão,
Quando exibido o próprio mérito... ostensão,
E, dito em vão, nome de Deus, sai heresia.

Dum justo aprumo até vaidade, vai um passo,
Da sã modéstia ao servilismo, ténue linha,
Do pleno amor a obsessão, voo duma asinha...

Contudo… ainda em carne viva me embaraço,
E a contenção faz-se decreto ao rés da vida,
Ao ver-me serva da paixão não comedida!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - Setembro/2008

 

 

 

 

EM ENTRELINHAS
Carmo Vasconcelos


O verbo que não se afoita completo,
Intimidado, guarda num cadinho
Do imo resguardado e em si secreto,
O que não ousa expor qual branco linho.

Num pudor mais que inquieto mergulhada,
Uma semente fica a germinar,
Esperando uma emoção desesperada
Que venha a florescer o seu calar.

E enquanto inda é casulo o sentimento,
Só a benção dum sagrado entendimento,
Intui do verbo oculto nas bainhas...

Essa soberba alquimia do espanto,
Pelo brilho esplendoroso do encanto,
De ler-se a alma-gémea em entrelinhas!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 12/Maio/2007

 

 

 

 

ERÓTICO
Carmo Vasconcelos


Sei que no sono voa a alma a libertar
Aprisionados sonhos e ocultos desejos,
E nesse etéreo esvoaçar vão meus ensejos
Ao teu encontro para ter-te e te abraçar!

No leito jaz meu langue corpo sem sentidos,
Mas Eros, pelo mar, já minh’alma levou,
E na tua cama, enlouquecida, me deitou,
E nos possuímos, na volúpia os dois unidos!

A noite traz-te a mim, inteiro, como anseio,
Posso palpar, até, tuas veias fervescentes
Ao roçar d’ávidas mãos nesse amar sem freio...

E fervem sangue e bocas em beijos ardentes,
Vãos e membros se encaixam, loucos, sem rodeio,
E ao despertar, o sonho esfaz-se em sucos quentes!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 14/Fevº/2008

 

 

 

 

ESMOLA
Carmo Vasconcelos


Mais pobre que Job sou eu
Que o muito que quero dar
Fica interdito a hibernar
Esperando a lei do céu

Sei que agasalho seria
Pra alguém que morre de frio
Tendo inverno em vez de estio
Alma quente que se esfria

Certeza dou-lhe que basta
Que a lembrança é vivo amor
Mas sofredora se arrasta...

Por enviesados caminhos
Perde a dádiva o fulgor
Parecem esmola os carinhos

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 25/Fevº/2008

 

 

 

 

ESPERANDO
Carmo Vasconcelos


Na espera paciente e reflectiva
Tento domar a veia angustiada
Acreditar que a frase desejada
Nem sempre é a que se faz substantiva

Vou sufocar os gritos aguerridos
Por entendível ter a voz que cala
Profundos sentimentos que na fala
Se perdem por demais desinibidos

Firmar a fé na temporalidade
Sacrificar o já pela verdade
Que só no tempo coze e se incrementa

Esta ânsia amarfanhar, mesmo sedenta
Aguardar pela fonte de água benta
Suster a sede em sã serenidade

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 08/Novº/2006

 

 

 

 

 

 

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