MAIS SONETOS "IN TEMPORE"

por

Carmo Vasconcelos

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CLARO-ESCURO
Carmo Vasconcelos


Ouço-te voz oculta que procuro
Vejo-te volúpia em dor que encorpo
Sinto-te dentro e fora do meu corpo
Perco-te na bruma em claro-escuro

Ouço-te nas aves, voo e canto
Ouço-te na sonata compassada
Ouço-te nos sons cavos da calçada
Ouço-te na chuva, água em pranto

Vejo-te na filmagem riso ou drama
Vejo-te no bailado que embriaga
Vejo-te no incêndio que inflama

Sinto-te no desejo que me chama
Sinto-te mão carente que me afaga
Perco-te na algidez da minha cama

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 2006

 

 

 

 

COMUNHÃO
Carmo Vasconcelos


Abençoada musa que me inspiras
Quando a mim vens em riso ou em pranto
E amarga ou doce em meu colo suspiras
Vertendo em minha pena o teu encanto

E eu te afago como mãe extremosa
Que uma filha leviana acarinha
De seu voltar carente e sequiosa
Avara das surpresas que adivinha

Da nossa comunhão explodem gritos
De raiva, amor, ciúme, até desprezo
Onde sou fera ou piamente rezo

Da pena escorrem soluços aflitos
Gáudios ou queixumes de agonia
Que a ti tudo confesso… Poesia!


Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 2006

 

 

 

 

CONSPIRAÇÃO
Carmo Vasconcelos


Me inundo de prazer a vagar no matiz
Do meu poeta quando cisma de escrever
E espraia o seu olhar no horizonte a ler
Fundos mistérios de recôndita raiz

E é divina a hora porque em nós acontece
Nessa magia do intocável a excelência
Do fio doirado da almejada inconfidência
Que a aguda agulha do desejo enleia e tece

E num fogo invisível ardo de emoção
Nessa ansiedade do tocar da sua mão
Do seu beijo aceso a queimar a minha pele

Secreta é essa força que ao seu amor me impele
Tal se o Universo no seu todo conspirasse
E em surdo vórtice aos seus braços me levasse

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 08/01/2007

 

 

 

 

CREIO
Carmo Vasconcelos


Apaguei com lágrimas tudo o que escreveste
Rasguei, dorido gesto, tudo o que escrevi
Mas não valeu para esquecer tudo o que leste
E nada pôde desgravar tudo o que li

Não há mais pranto ou gesto insano que inda apague
Da pele e mente os sentimentos incrustados
Nem dura seca ou aridez que desagarre
As raízes fundas desses frutos semeados

Foi desígnio de Deus... ELE os lançou à terra
Em hora que presumo de Divino amor
Me escape, embora, seu propósito e valor...

Mas creio... frutos castos não hão-de extinguir-se
Hão-de renascer e em nosso colo remir-se
Que a sábia Mater-Natureza jamais erra!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 24/Julho/2008

 

 

 

 

DEPOIS…
Carmo Vasconcelos


Repousem no mar alto os vossos tristes olhos!
Por lá esvoaçará minha alma embalada
No verde-azul e branco, na luz da alvorada,
Liberta da senda terrena dos escolhos.

Serei a amante das marés que em seu langor,
Cálidas vão por minha sombra deslizando,
Nua e etérea sem desejos palpitando,
Já livre dos tormentos da carne e do amor.

Então... Serei pura, o que não fui nesta vida,
A nívea onda, a espuma, a estrela reflectida,
Airada nuvem sem destino pelo espaço…

Sal, água e peixe, o elanguescer da suave bruma,
A rósea tela do sol-posto quando esfuma,
Num raio de luar, o abandono lasso!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 19/Novº/2006

 

 

 

 

 

 

LIVRO DE VISITAS

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