MAIS SONETOS "IN TEMPORE"

por

Carmo Vasconcelos

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BALDES VAZIOS
Carmo Vasconcelos


Tão agreste é a paisagem do Sertão
Que molda p’la dureza o sertanejo,
Amaciado sob a lua e o seu beijo,
Em noites de luar e sedução.

Mandacarus erguem-se magistrais,
Orgulhosos da suprema realeza,
Espelhando desse povo a nobreza
Da força e da coragem sem iguais!

É árdua a luta e é madrasta a seca!
Na mão, baldes vazios... Olhar sedento...
Mas não por frouxo, o sertanejo peca!

E mesmo quando a lama vira pedra,
No São Francisco a esperança é sustento,
E é mais à míngua d’água que a fé medra!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 17/Abril/08

 

 

 

 

BICHO-AMOR
Carmo Vasconcelos


Há uma dor perfurante no meu peito,
urze que fere mas não deita sangue,
verme oculto o bebe e me deixa exangue,
ao nutrir-se de insónias no meu leito.

Bicho-amor, insistente na porfia,
mói-me as entranhas quando desatina,
meus nervos dana, minhas forças mina,
e ao mesmo tempo é bem que acaricia.

Tento acalmá-lo com a voz de quem
de longe rasga versos escarlates,
mimos d’enlace em rendas de açafates...
Mas pede mais... Voraz, não se contém!

Devora-me alma e sangue e não fraqueja,
na gula desse par-amor que almeja!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 17/Dezº/2008

 

 

 

 

CADEIAS
Carmo Vasconcelos


Há cadeias ocultas que mais prendem
Do que correntes de aço em sua dureza,
Finos liames, grampos que não fendem
Nossa alma... Tal dos elos a leveza.

São subtis laços sem nós prepotentes,
Atados suaves sem linhas amargas,
Embrulhos de amor e paz oferentes,
Soltos enlaces sem pesadas cargas.

Que sejam as amarras cordas de oiro,
Filigrana co’a força do marfim,
Consútil de um amor até ao fim...

E que o seu peso não seja o desdoiro,
Que leve um ser amado à insanidade,
Na angústia pela luz da liberdade!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 14/Abril/2009

 

 

 

 

CARÊNCIA
Carmo Vasconcelos


É uma tristeza ambígua, sutil, imprecisa
Este não sei quê que me dói aprofundar
Nesta incerteza... uma lacuna, um vaguear
Sem asa, meu voo malogrado que o chão pisa

Pena de escrava acorrentada a mil degredos
Rodeiam-me águas turvas onde não me espelho
Deuses de barro frente aos quais não me ajoelho
Visões fugazes como areia entre os dedos

Tão parco e breve me é o colo de acalento
Dum êxtase sublime tão raro o momento
Que só de lembranças se veste a noite escura

E em carência se vai esvaindo a formosura
De mãos e lábios sequiosos de prazer
Neste meu corpo ainda vibrante de mulher!

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 24/Abril/2007

 

 

 

 

CHAMAMENTO
Carmo Vasconcelos


Se dois vates numa hora de penumbra
Se enleiam como as algas sobre o mar
Sua palavra rendada a navegar
Chama-nos para o abraço que deslumbra

E nessa maré forte nos arrastam
Sem que haja vela ou remo a suspender
A espuma do seu verso a engrandecer
Poéticas que as ondas já desgastam

E é desse chamamento de nobreza
Que emerge essa atracção que nos arrasta
A seguir-lhes a verve em correnteza

Imitação dos mestres nos impele
A depurar nossa palavra gasta
E a vestirmos com arrojo a sua pele

Carmo Vasconcelos
Lisboa-Portugal - 25/Abril/2009

 

 

 

 

 

 

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