O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos


 
I PARTE
 
Capítulo VII

Sentada à mesa do Café Caleidoscópio, aguardo Carmen, que prometeu transportar-me hoje de volta aos anos 50/52, ou talvez mais, se tivermos tempo. Olho em redor do local, como sempre por ela escolhido. Não é um café vulgar. Um salão enorme, à altura de um segundo andar, forma um espaço completamente envidraçado. Lá fora, flores, árvores, e lagos onde esvoaçam patos, deslizam barquitos movidos a pedais. Basta-me olhar em redor para ter a sensação de estar pairando sobre a paisagem. O ar condicionado completa a sensação de frescura, imprescindível num dia de calor como este. Como a minha amiga tarda em chegar, vou tentando situar-me na época prometida, envolver-me na atmosfera que a rodeava então.   
Se a memória não me falha, o poder e a ambição continuavam a gerar guerras pelo mundo. Os homens, esquecidos de que a Criação formou um Universo sem fronteiras, pertença de toda a Humanidade, querem a todo o custo delimitar possessões, demarcar territórios, alargar poderes, fazer alarde do seu egoísmo. E, para isso, não hesitam em continuar a derramar o sangue dos inocentes.  
É o início da Guerra da Coreia, tão vivamente pintada por Picasso no seu quadro: “Massacres na Coreia”. 
A origem desta guerra centrou-se na ocupação da península coreana, em 1945, por tropas russas a norte e tropas norte-americanas a sul. A rivalidade entre as duas superpotências impedia uma solução comum, fazendo nascer daí duas repúblicas de sinal político diferente. Em 1950, as tropas norte-coreanas invadem a Coreia do Sul. A política de Truman levou à intervenção da China e a guerra internacionalizou-se.  
Só passados três anos, as partes beligerantes chegaram a um acordo de cessar-fogo que determinou o paralelo 38 como fronteira entre as duas Coreias. Entretanto, quantos massacres, quantas vidas ceifadas (algumas ainda no ventre prenhe de suas mães), quanta juventude dizimada, quantas viúvas e filhos órfãos! 
Em Portugal, Salazar orgulhava-se de manter a “paz”; as “guerras internas” dominadas, refreadas – todos sabemos a que preço! – Contudo, na sombra, a oposição vai crescendo, engrossando as suas fileiras, atrevendo-se a mostrar o rosto.



Tenho que deixar a História por aqui! Carmen chegou! Como é seu hábito, atrasadíssima em relação ao combinado.  
Para se redimir, e antes que eu pudesse abrir a boca, coloca-me na mão um rolo de papel, atado com uma fita dourada. 
– É para si, minha amiga!  
– Como assim? – Não faço anos!  
O seu ar misterioso e ao mesmo tempo gentil, aguçou a minha curiosidade. Apressei-me a desatar a fita cor de ouro e o rolo de papel abriu-se para mim. Comecei a lê-lo. Era um poema. Demorei algum tempo a saboreá-lo. Por fim, só consegui dizer:  
– Obrigada, Carmen! É muito bonito!
– Que é isso, minha amiga? Foi apenas uma brincadeira. Uma recompensa pelos meus atrasos.
– Posso mostrá-lo aos nossos leitores? – Perguntei.
– Se faz questão...
– Será um bom início para o nosso trabalho de hoje...
 

UTOPIA


Ai de quem não alberga um ideal
E não sabe atear do sonho a chama,
De quem da vida nada mais reclama
Do que a mera verdade temporal!
 
Ai de quem escorraça a utopia
Esvaziando-se de vida aos poucos,
Dos que nunca foram chamados loucos
Porque não deram azo à fantasia!
 
Ai de quem não consegue ver estrelas
E em redor tudo o que vê é lama,
De quem por baixo seu olhar derrama
E não aponta ao alto para vê-las!
 
Ai de quem não consegue vislumbrar
A comédia escondida sob o drama,
De quem nessa cegueira chora e brama
Sofrendo as suas penas a dobrar!
 
Bendito o que com sonho e utopia
Ousar distribuir a sua luz,
Pois desse se dirá um certo dia
Que mais leve tornou a nossa cruz!


– Agora que já divagámos, voltemos ao mais importante – o seu romance, diz-me Carmen! 
– Será que vale a pena, Carmen…? Será que chegarei a vê-lo impresso? – Murmuro. 
– Coragem, amiga, ajudá-la-ei! Continuemos! 
E, de novo, Carmen abre as suas memórias.
Carmen ronda então os treze anos. Começam a vislumbrar-se nela os contornos de uma mulher muito feminina. Seios precocemente desenvolvidos, pernas bem torneadas, cintura fina. E cresceu, embora não muito. 
Findos com sucesso os dois anos preparatórios, Carmen é obrigada a mudar de escola. Também longe de casa, situava-se esta junto à Igreja de São Vicente, nas imediações do Castelo de São Jorge e da Feira da Ladra. O percurso era obrigatoriamente feito a pé – cerca de três quartos de hora para lá e outros tantos para o regresso – pois não havia transportes compatíveis. Lembremo-nos de que nessa altura ter pais que levassem os meninos à escola, de automóvel, era um luxo raro.    
Escusado será dizer que Carmen e Conceição continuavam companheiras inseparáveis. Conceição ainda mantinha a sua figura frágil, formas dissimuladas, os olhos talvez mais azuis, realçados por fundas olheiras negras que tentava a todo o custo disfarçar. Cada vez mais forte, porém, a sua louvável vontade de vencer, movida pela certeza de que estava no estudo a sua felicidade futura. Carmen não tinha tempo para pensar nisso. Deixava-se levar ao sabor da maré. Tinha outras coisas na cabeça... Ler, viajar, conhecer o mundo, eram os seus sonhos. 
Mas deixemos Carmen com os seus sonhos e deitemos um olhar à sua realidade de então – ao seu lar e à sua família. 
Estamos já em 1952. Carlos Alberto tinha partido para fazer o serviço militar em Macau. Carmen recorda-se bem dos navios cheios de tropas junto ao Cais de Alcântara, onde foi com sua mãe despedir-se dele. Muitos gritos, muitas lágrimas; abraços e beijos sôfregos, como se fossem os últimos; depois, nuvens de lenços brancos acenando e os navios afastando-se lentamente, implacáveis, tornando-se cada vez mais pequenos na distância, até desaparecerem na linha do horizonte, como se fossem barquitos de papel. Neles partiam centenas e centenas de “pedaços da própria carne” dos seres que, despedaçados, ficavam imóveis no cais, de olhar estupidificado colado ao rio. 
Diolinda, apesar de endurecida pela vida, chorava copiosamente, dizendo entre soluços: “Meu querido filho, já não volto a ver-te...” Nesse momento, varriam-se-lhe do coração todos os dissabores, todas as arrelias, todas as palavras e acusações amargas que já tinham brotado daquele filho – acções e palavras que não eram senão o fruto da sua desajustada existência.
Carmen teve saudades desse irmão. Era de todos o que lhe demonstrava mais carinho, mais ternura, como se depositasse nela todas as suas carências afectivas. Carlos Alberto tinha um coração enorme, daqueles que despem a própria camisa para dar a um necessitado. Carmen não pode esquecer o dia em que ele, aflito, levou para casa um gato, embrulhando-o na sua camisa branca que, de imediato, ficou tingida de sangue. O pobre bicho tinha sido atropelado. Seu irmão limpou-o, tratou-lhe as feridas, deu-lhe leite, e o animal recompôs-se. Em breve, ronronava em volta das pernas do seu salvador. Para além da faceta altruísta, Carlos Alberto era bem-falante, alegre e divertido; contava histórias mirabolantes e cantava com uma bela voz de tenor.  
– Gostava muito dele! Era um palhaço que ria para não chorar! – Deixa escapar Carmen. 
– Disse: “gostava”? Quer dizer que…? 
– Isso mesmo, minha amiga! Já não se encontra entre nós! 
Nesta altura, a minha narradora sente-se incapaz de continuar. Vejo lágrimas nos seus olhos, lágrimas que ela tenta disfarçar puxando de um lenço e limpando os óculos. 
– Desculpe, foi mais forte do que eu. Apossou-se de mim uma saudade imensa que arrastou com ela recordações terríveis, não dessa época, mas posteriores. Recordações de assassínio e morte... Duma grande dor, também.
– Carlos Alberto? Assassinado…? 
– Apenas com quarenta e seis anos... Perdoe-me se não posso falar disso agora, minha amiga. 
– Mas? A Carmen, sempre tão alegre… – titubeei, incrédula. 
– Nem sempre, minha amiga, nem sempre! Ainda verá rolar muitas lágrimas! 
Carmen recompôs-se rapidamente – mais rapidamente do que eu, confesso! 
 – E, recomeçou, rapidamente, como se quisesse atropelar sem dó aquela dor revivida. 
As cartas de Carlos Alberto iam chegando regularmente de Macau. Nelas, a par dos episódios divertidos que contava, podia sentir-se a sua grande solidão interior, a carência de mãe que ele nunca conseguiu ultrapassar. Acompanhando as cartas, sempre enviava “santinhos” (estampas de papel) com ternas dedicatórias para a sua irmãzinha querida. O que o tinha levado a ser tão religioso, Carmen não sabe explicar. 
– Ainda conservo essas estampas – diz-me Carmen, visivelmente comovida. Trouxe até algumas para lhe mostrar. Veja! 
– Incrível! Nem parece que passou por elas quase meio século! – Exclamo, emocionada, ao ler as dedicatórias.     
Carmen prossegue: 
– Em correio separado, Carlos Alberto enviava-me sedas chinesas, brocados berrantes – para fazer vestidos, dizia ele. – Sabe que ainda guardo numa mala, como relíquia, um corte de brocado “rosa-shocking”, do qual nunca me atrevi a fazer fosse o que fosse? Em compensação, as sapatilhas de veludo verde com bordados chineses, usei-as até não terem conserto. Com elas fazia as delícias das minhas colegas de escola, dançando em pontas sobre as secretárias reservadas aos professores. Um dia, fui mesmo apanhada por um deles que resolveu entrar na sala mais cedo. Mas, porque era benévolo, desculpou-me.   
Do que Carmen me contou depois, se bem entendi, quem não desculpou a Carlos Alberto foi o Exército. Fez tais tropelias em Macau que foi deportado para Cabo Verde, de castigo. Era o pular do muro depois do recolher obrigatório, as saídas do quartel sem dispensa, o regresso a cair de sono e de bebida depois das noites de estúrdia, etc. Constou na família, embora à boca pequena, que se tinha apaixonado por uma chinesa e que, obrigado a deixar Macau, teria por lá deixado o coração e um filho. Foi coisa que Carmen nunca soube ao certo. O que sabe é que ele regressou de Cabo Verde, são e salvo, talvez por volta de 54/55.  
Vítor Manuel e Fernando José tinham-se tornado também uns belos jovens. Porém, de temperamentos e gostos diferentes. 
Vítor Manuel vivia para os livros e para a escrita. As faces um tanto pálidas, uma certa tristeza no olhar escuro e profundo, uma timidez mal disfarçada, davam-lhe um ar de artista incompreendido. O cabelo negro, um pouco comprido na nuca (à poeta, como se dizia então) usava-o sempre impecavelmente penteado, à custa da “brilhantina” muito em uso na época; uma camisola branca de gola alta, um sobretudo azul-escuro pelos tornozelos (que tinha a vantagem de encobrir as calças puídas) e uma pasta debaixo do braço completavam o figurino. E não se julgue que esse era o traje de Inverno... Era a sua indumentária, mesmo em pleno Agosto... A sua imagem de marca!    
Todos os seus amigos, entre eles, o Toy, o pintor de que já falámos, professavam gostos e aspectos semelhantes. Havia alguns que trajavam capa e batina pretas. As tertúlias em casa deste e daquele ou no Café Martinho – ponto de encontro de intelectuais – eram o seu passatempo preferido. Um café e água para toda a tarde, livros diversos e jornais aos montes, enchiam as duas ou três mesas que juntavam. Trocavam prosas e versos, desenhos e caricaturas, falavam dos escritores e pintores que estavam na berra e comentavam, entre dentes, a actualidade política. Muitas vezes, Vítor Manuel deixava que Carmen, já uma senhorinha de catorze anos, fizesse parte do grupo. Metia-lhe na mão um livro para ler ou um jornal para que se entretivesse a fazer “palavras cruzadas”. Carmen achava-se importante no meio deles e absorvia como uma esponja tudo o que ouvia. O sentimento que a ligava a este irmão era, para além duma grande ternura, uma profunda admiração. No seu íntimo, albergava uma afinidade com os seus gostos literários, com a sua alma de poeta, até mesmo com a sua faceta mística. 
De mão em mão, passavam os livros: “Na Outra Margem entre as Árvores”, de Hemingway (que viria a ganhar o Prémio Nobel em 54); “A Rosa Tatuada”, de Tennessee Williams; “A Noite e a Madrugada”, de Fernando Namora; “A Curva da Estrada”, de Ferreira de Castro; “O Diabo e o Bom Deus”, de Sartre; “A Leste do Paraíso”, de Steinbeck. 
De boca em boca, corria a fama de pintores como: Júlio Pomar com os seus “Meninos no Jardim” e “Vendedeiras de Estrelas”; Picasso com “Massacres na Coreia”; Miró com “Convergência”; Dali com a sua “Madona de Port Lligat”; Vieira da Silva e a sua “Capela Gótica”.  
Mas Carmen nunca esqueceu uns livros estranhos que seu irmão recebia pelo correio. Ele não deixava que ela os lesse. “Não são para a tua idade!” – dizia. Mas, curiosa, ela sempre arranjava maneira de lhes dar uma espreitadela. Era literatura que naquela época se lia em segredo – esoterismo, misticismo, ciências ocultas. Talvez Carmen não entendesse completamente o que lia, mas gostava, como se as ideias transmitidas não lhe fossem de todo estranhas... E, passados mais de vinte anos, essas e outras “sabedorias”, como Carmen ligeiramente lhes chama, vieram de novo ao seu encontro, quem sabe se escolhendo elas próprias a hora certa...      
Mas voltando a Vítor Manuel: 
Com vinte e um anos, sem emprego, viu-se obrigado a protelar os apelos do espírito – quase sempre incompatíveis com as necessidades da sobrevivência – e a deitar a mão a várias profissões que, obviamente, não se coadunavam com o seu temperamento sensível e idealista. Adiando até à última o ingresso na vida militar, refugiou-se algum tempo no Alentejo, em casa da tia Augusta, trabalhando como empregado de mesa no Café que a ela pertencia.  
Um retrato que mandou para a família, atestava bem o ar enfiado com que suportava a “fatiota” da praxe: fato preto, camisa branca e laço no pescoço. Carmen está em dizer que lhe veio daí um certo tique engraçado que ainda hoje conserva em certas ocasiões, quando com um dedo enfiado no colarinho, repuxa o queixo para cima, como que para aliviar uma sensação de aperto.  
Fernando José, mais novo, era irrequieto, alegre e despreocupado; preferia os cinemas e os bailes. Embora estivesse a viver com o pai, raro era o dia em que não passava lá por casa para que a mãe ou a irmã lhe passassem a ferro uma camisa, umas calças, para ir a uma festa, a um baile. Carmen, que tinha um leque de interesses muito alargado, logo se pendurava nele para o acompanhar. 
Bem frescos na sua memória esses bailes dos anos cinquenta, em que três os quatro elementos formavam um conjunto musical, tocando banjo e bandolim. Fernando José advertia: “Só danças comigo, ouviste? Fica aqui sentada enquanto eu vou dançar, já venho buscar-te!” Carmen fingia acatar, mas quando ele voltava, já ela rodopiava na pista de dança. Seu irmão zangava-se, mas no regresso a casa, riam ambos, felizes, e da desobediência de Carmen ele guardava segredo à mãe.            
Nessa altura, Fernando José trabalhava com o pai – que tinha sempre uma firma própria, um escritório, fosse do que fosse. Era uma espécie de secretário do pai, para todo o serviço, fazendo de tudo um pouco. Ia aos Bancos, aos Correios, buscar-lhe um café, comprar-lhe cigarros; atendia telefonemas, marcava entrevistas, etc. Em troca, seu pai dava-lhe diariamente uma pequena quantia, para o tabaco e pouco mais. 
– Foi numa dessas funções de “ todo o serviço”, pegando numa mala pesadíssima, que Fernando José deu o primeiro passo para a morte – revelou-me Carmen, com a voz embargada. 
– Meus Deus! Tão jovem!?... – Exclamei, sem me conter. 
– É verdade, o primeiro passo para o último caminho – respondeu Carmen. E fazendo menção de continuar:   
– O que se passou a seguir... 
Carmen parecia desligada das horas, de tal modo se tinha enredado no passado. Fui eu que, reparando no seu ar cansado, no seu olhar húmido e distante, puxei do relógio e fingi estar atrasada. Por minha vontade não teria arredado pé, mas senti que continuar a remexer nas cinzas só faria avivar as brasas dolorosas que um dia queimaram, e voltariam a queimar agora, a “nossa” Carmen. E, para uma única tarde, a fogueira já tinha ardido bastante...  
Por isso, dando um tom natural às minhas palavras, sugeri:
– Não acha melhor terminarmos por hoje, Carmen? É que... daqui a pouco tenho um compromisso – menti – e quase me tinha esquecido dele.   
– Claro, minha amiga! Fez bem trazer-me de volta ao presente. Na realidade, só agora reparo como também eu estou atrasadíssima.   
– Então, até mais ver! – Lancei apressadamente, receosa de deixar transparecer a minha mentira improvisada.  
– Até mais ver! – Respondeu Carmen, com um sorriso estranho, como se tivesse compreendido tudo...


 

Durante duas semanas não voltei a ver a minha interlocutora. Tínhamos ficado num ponto quente, prestes a saltar do lado “esquerdo” das suas memórias. “Esquerdo”, pois segundo antigas crenças era o lado do corpo e da mente que armazenava as coisas más.
Uma outra Carmen começava a abrir-se para mim, revelando-me facetas impensáveis da vida de uma jovem que, julgava eu, fora sempre alegre e despreocupada. Mas, como dizia Proust: “A nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio.”  
Uma ligeira gripe serviu-me de desculpa para protelar a reunião seguinte. O relato que se avizinhava não me entusiasmava nem um pouco. Embora o adivinhasse rico de emoções, pesava-me desenterrar tristezas duma amiga tão querida. 
Todavia, um romance não é um conto de fadas! Devo por isso aceitar todo o material que me é oferecido e que é, afinal, o único de que disponho no momento!            
E foi com este pensamento encorajador que caminhei para o encontro seguinte que, finalmente, eu própria me decidi a marcar. 
Para meu espanto, Carmen já me esperava. Sorridente, como de costume.  
Após as saudações habituais, acrescidas do meu “Bravo!” à sua pontualidade, pedimos um café (um café sempre nos animava) e decidimos encetar rapidamente a continuação do nosso trabalho. 
Eu, simulando não me lembrar do ponto triste onde tínhamos ficado, atirei: 
– Então, Carmen, o que me traz hoje? 
Lúcida e objectiva, Carmen respondeu: 
– Antes de lhe transmitir algo de novo, gostaria de concluir o assunto interrompido da última vez por causa do seu “compromisso urgente”, lembra-se? Nessa altura, deixei em suspenso uma frase: “O que se passou a seguir...” 
– Ah, sim! É verdade, agora me recordo! Partamos então daí, se prefere. 
Carmen estava muito serena e pegou na deixa, calmamente.   
– O que se passou a seguir foi terrível! Ver desaparecer um jovem que vendia saúde e alegria, em cerca de uns escassos três meses, é-me difícil descrever. Todas as palavras me parecem escassas. Mas, “ver desaparecer” é o termo certo, pois Fernando José ia desaparecendo todos os dias um pouco, perante os nossos olhos sofridos e os nossos esforços vãos. Depois de ter pegado naquela mala fatídica, algo que residia nele, quieto, adormecido, acordou de repente com uma fúria assassina e não teve contemplações. Começou por cercá-lo com dores nos rins e nas costas. A princípio, atribuiu-se a causa a um mau jeito ou a uma crise lombar. Experimentaram-se pomadas, fricções; tudo inútil, não havia melhoras. Consultados médicos e hospitais, fizeram-se os exames de diagnóstico possíveis à data. Não foram precisos muitos, nem muito tempo, para o “cancro” mostrar a sua face hedionda, localizada no baixo-ventre. A opinião médica foi unânime: “É preciso operar com urgência!” E com urgência Fernando José foi operado; num Hospital, onde, dizia-se, estavam os melhores especialistas. Porém, todos foram impotentes. Alegaram não haver nada a fazer, devido ao estado adiantado da doença, e mandaram-no para casa. Para casa, para morrer! Não só para morrer... Também para sofrer!  
Um sofrimento atroz e indescritível que jamais se apagará da minha mente... 
Tentando dissimular a minha perturbação, interrompo Carmen: 
– Descansemos um pouco! Quer uma água, outro café?           
– Talvez uma água, sim! A minha garganta está um tanto seca.
– Não admira, Carmen, além de ter falado ininterruptamente, já fumou quase um maço de cigarros! 
– Ah! Os meus cigarros! São perniciosos, eu sei! Mas fazem-me tanta companhia... Os cigarros são comparáveis a certas pessoas; agridem-nos, fazem-nos mal, intoxicam-nos, e mesmo assim teimamos em não dispensá-las, tomando-as como imprescindíveis, no receio pueril de ficarmos sós... A propósito, vou tentar dizer para si um poema que fiz há tempos, exactamente sobre o cigarro. Quer ouvir? 
– Claro! Um pouco de poesia só poderá fazer-nos bem. Nesta altura, será como um bálsamo! 
– Então, lá vai! Se quiser, pode escrever!
 

NUM CIGARRO


Dia após dia, eu queimo num cigarro
Essa imagem que tento dissipar
De um amor fugidio que nunca agarro
E que mora não sei em que lugar.
 
E queimando apago essa voz que teima
Em reclamar, sem tréguas, esse amor,
Num crepitar constante que me queima,
Fogo manso, porém devastador!
 
Dia após dia, queimar somente almejo,
Essa imagem, longínqua e desfocada,
De um amor que imagino mas não vejo,
Para torná-la cinzas, pó e nada!
 
Mas a cada cigarro que inda acendo,
No ensejo de queimar, desiludida,
Essa miragem – dor que não pretendo –  
Vorazmente, vou só queimando a vida!


 
– Cuidado, Carmen! Está desafiando o Cupido! – Brinquei. 
– Ah, não! – Eu e o Cupido acabámos por nos tornar velhos amigos. 
– Amigos…?  
– Digamos que aprendemos a brincar um com o outro... 
Soltei uma gargalhada. 
– Bem, agora que já nos refrescámos com água e poesia, posso continuar a minha narrativa?
– Vamos a isso! – Respondi, ainda rindo.
Carmen recomeçou. O seu rosto expressivo, que por momentos se desanuviara, retomou o ar grave.
– Depois de Fernando José ter sido mandado para casa, pôs-se a questão: qual casa? A da mãe ou a do pai? Claro que foi para nossa casa! Ninguém melhor do que a mãe para o acompanhar naquele momento angustiante! Ele era o único que ignorava a realidade. E até mesmo nós que conhecíamos a gravidade do seu estado, não deixávamos de albergar esperanças.
“Os médicos às vezes enganam-se…” – diziam uns. “É tão moço ainda, há-de recuperar-se” – diziam outros. Como se perante um facto tão terrível e inesperado, todos duvidassem da sua veracidade.
Estranhamente, o meu jovem irmão era o mais esperançado na convalescença. Convalescer da operação, fora o motivo que os médicos, enganosamente, lhe haviam dado ao mandá-lo para casa. Crente nisso, a sua vontade de viver debatia-se ferozmente com essa força estranha que parecia querer arrancá-lo à vida. E nem por um só momento, ele mostrou suspeitar do mal que o atingira.      
Todos nos unimos como pudemos. Apesar de o padrinho providenciar as despesas elementares, Vítor Manuel recorria ao nosso pai que, solidário naquela hora amarga, mandava algum dinheiro e medicamentos. A minha mãe tentava a todo o custo manter as forças do filho doente, fazendo-o engolir um caldo, um copo de leite, tudo o que ele dizia apetecer-lhe e que acabava por não ingerir. As dores foram-se tornando cada vez mais atrozes, os medicamentos menos eficazes. A morfina foi o último recurso. Porém, uma vez aplicada, todos sabemos como a habituação ao produto se instala rapidamente, dando origem à sua consequente ineficácia. Um mês, dois meses, e tudo cada vez mais difícil, mais doloroso... Fernando José era já uma sombra do que fora; apenas dois olhos negros, desorbitados, sobressaíam na sua magreza esquelética. As injecções que começaram por ser diárias, eram já necessárias de hora a hora, quer de dia quer de noite. Quantas vezes a minha mãe me levantou da cama, de madrugada, para ir com ela tocar às portas dos enfermeiros mais próximos, a fim de lhes implorar que fossem ministrar uma injecção. Por fim, perante incómodo tão assíduo e fora de horas, as respostas negativas intensificaram-se: “O Sr. Enfermeiro não está, só amanhã!”; “A Sra. Enfermeira está de serviço ao Banco esta noite!”; “O Sr. Enfermeiro foi atender um doente!”...
Voltávamos para casa em pânico, lágrimas nos olhos, o coração apertado por tanta insensibilidade, e por termos de enfrentar tamanha dor sem lhe levar apaziguamento.
Já na fase terminal da doença, minha mãe, arrancando forças não sei de onde, enche-se de coragem e, sem nunca ter aprendido, passa ela própria a injectar o filho, quando, perante os seus gritos, já não suportava vê-lo sofrer.     
Ao fim de três meses, simultaneamente tão curtos e tão longos, cessou a batalha, a corda quebrou pelo lado mais fraco – a impotência humana perante a invencível lei da morte!
Carmen calou-se. Respirou fundo, acendeu mais um cigarro... Imitei-a.
Tentando romper o súbito silêncio, exclamei:
– Que tragédia! Não deve ter sido nada fácil para uma jovem presenciar tudo isso. Por outro lado, que mãe corajosa a vossa! Como a vida não parava de pô-la à prova, de a castigar...   
– Foi mesmo, minha amiga! Uma grande mulher, a minha heróica mãe! Só depois de eu própria ter sentido na pele as queimaduras da vida, pude compreendê-la melhor. Quanto à jovem que eu era e que presenciou todo aquele drama, hoje eu sei que transportava dentro de si “uma alma bem mais velha”. Só muitos anos mais tarde entendi porque tinha ficado quase insensível aquando do funeral do meu querido irmão. Toda a gente chorava! Eu olhava-o, indiferente, como se ele já não estivesse naquele lugar... Julgo que, tal como um caminheiro que conhece bem a estrada, à força de tantas vezes a percorrer, eu já era sabedora, embora inconsciente, de que a morte não é o fim da caminhada. Apenas o final de uma etapa, o culminar de uma série de experiências, o “despir” de um corpo gasto ou precocemente deteriorado; uma pausa para a alma se “revestir” de um novo invólucro e continuar a jornada. 
Carmen falava rápida e naturalmente, como se falasse de um assunto vulgar. No entanto, as suas palavras soavam-me confusas, dificilmente faziam sentido, o que me levou a interrompê-la:
– Mais devagar, Carmen, se não se importa... Não consigo acompanhá-la. Falou de “uma alma bem mais velha”, de “uma sabedoria inconsciente”, do “despir um corpo gasto”, de “uma pausa...”? Está novamente a falar-me de Reencarnação?
Carmen pareceu acordar do que, para mim, era um monólogo.
– Desculpe, minha amiga! Por vezes, falo involuntariamente do que me apaixona...
– Não! Continue, Carmen, por favor! É uma matéria que até me parece interessante mas que conheço apenas superficialmente. Ainda me suscita dúvidas, interrogações...         
– Compreendo! A mim, porém, afigura-se-me bastante clara. Mas foi preciso estudá-la a fundo... Só depois, Vida e Morte passaram a ter significados compreensíveis. Na doutrina da Reencarnação encontrei respostas para quase tudo o que não entendia. Hoje, acredito que a morte não existe, não obstante o desaparecimento do corpo físico, e que ela é apenas a transição para um plano de consciência diferente, do qual havemos de retornar várias vezes para cumprir a Lei Cósmica da Evolução. Quanto à vida, aliás, “vidas”, sei que cada uma delas é apenas uma etapa da pirâmide que escalamos, enfrentando lutas e dificuldades, até que o tempo certo nos mostre O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE.
– Mas, Carmen...
– Voltaremos a falar sobre isso, minha amiga. Verá que é uma doutrina apaixonante.  
Dizendo isto, Carmen começou a arrumar maquinalmente as suas coisas. Percebi que estava a dar por findo o nosso encontro.
Apressei-me a despedir-me, não resistindo ao impulso de a beijar ternamente nas faces, enquanto lhe dizia:
– Mais uma vez, muito obrigada!  
– Não me agradeça, por favor! Eu é que me sinto grata por poder contar com uma ouvinte tão atenta; simbolicamente, uma fada que nesta retrospectiva me tem ajudado a expulsar demónios e a reaver deuses. Retrospectivas de vida são como visitarmos um sótão há muito fechado à chave, onde largámos as “coisas velhas”. Se apurarmos o ouvido, perceberemos que essas velharias têm voz própria, e que todas elas nos dizem terem cumprido uma finalidade no tempo apropriado, tornando-se depois testemunhos das nossas etapas vencidas.
– Nunca tinha pensado nisso! Mas sendo assim, acompanhá-la-ei na próxima “visita ao sótão”! – Respondi-lhe, em ar de graça.
– Tudo bem, conto consigo! – Retornou Carmen, deixando regressar o seu sorriso.
 

 

 

 
Livro de Visitas