O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 
 
I PARTE
 
Capítulo
V

                        
De novo com Carmen, dou-lhe a ler o que escrevi. 
– Céus! Pensar que cresci no meio de tudo isso! – Exclamou.  
E como se eu tivesse accionado um interruptor na sua memória, diz-me: 
– Mas tenho memórias vagas, sim. E devem ser desse tempo as lembranças que agora me ocorrem, de como minha mãe me acordava cedo, ainda de noite, para a acompanhar às bichas que se formavam para conseguir algum peixe, algum pão, alguma carne. Em troca, recordo-me bem, davam-se uns papelinhos – as senhas de racionamento. Minha mãe levava-me com ela para que eu lhe guardasse o lugar nas filas de gente ainda ensonada, enquanto voltava a casa para dar o pequeno-almoço aos meus irmãos. Lembro-me também de que havia falta de açúcar e que para obtermos uma bebida açucarada tínhamos de comprar uma mistura de “cacau com açúcar” – de que eu gostava imenso, diga-se de passagem – que eu ia buscar alegremente à leitaria do Sr. Acácio, não tendo consciência do quanto isso saía mais caro. A verdade é que essa guerra, aparentemente tão distante, não deixou de produzir os seus efeitos perniciosos entre nós. Na nossa casa, a fartura a que estávamos habituados não era mais a mesma e, por arrastamento, começaram tempos difíceis. Algumas famílias, porém, enriqueciam de repente, o que, a princípio incompreensível, foi, pouco a pouco, tornando-se claro: era o “Mercado Negro”. Eram os bens escasseados, vendidos a peso de ouro. Os honestos empobrecendo, os espertos fazendo fortunas!      
Accionado o interruptor, cada vez mais luz se foi fazendo nas submersas memórias da minha narradora.  
Uma coisa aqui, outra ali, sem datas definidas, pois a infância, tão ávida de captar e abranger tudo o que a rodeia, esquece-se de datar o que a marcou. 
Carmen fala-me então, um pouco a esmo, de várias recordações que tentarei sintetizar: 
Começarei por seu pai. Por esta altura, Carmen já o conhecia. E digo, por esta altura, porque quando seus pais se separaram, ela mal tivera tempo de o conhecer. E Vítor Manuel, agora com catorze anos, visitava o pai de quando em quando, e algumas vezes levava Carmen consigo. Carlos sempre os recebia alegremente, como era da sua natureza. Sempre afável e divertido, levava-os a jantar fora e ao cinema. E Carmen adorava o seu bom humor, as piadas a propósito de tudo e de nada, a conversa fina de homem educado. Uma lembrança viva na sua mente é a fábrica de bordados que seu pai um dia possuiu e as saias de barra bordada que ele lhe dera. Com elas – cor-de-rosa, azuis, amarelas – as blusinhas brancas com bordados da Ilha da Madeira, onde dançavam figurinhas segurando pandeiretas de fitas coloridas. Com que vaidade as exibia na escola! Nenhuma das suas colegas as tinha iguais. E Carmen não frequentava uma escola qualquer. Frequentava o que naquele tempo se chamava “a escola particular”, situada ao meio da sua rua. Aí, Dona Ermelinda, a professora, leccionava meia dúzia de meninas cujos pais ainda podiam pagar uma mensalidade. Apenas meninas, pois nessa época a mistura de sexos era impensável. Doutro modo, nem a Dona Ermelinda, senhora austera, ousaria dizer logo pela manhã quando entrava na sala de aulas, dirigindo-se às alunas que já a esperavam de pé: 
 – Bom dia, meninas! Abram-me essa janela, que me cheira aqui a cuecas mal lavadas... 
Posta no ar esta peculiar saudação, a professora dava então início às lições.
 – Quem quer vir ao quadro? 
Silêncio absoluto!
Só Carmen se oferecia. Por fim, era a professora quem recusava. 
 – Sempre tu, não! Vem a Margarida, ou a...?
Enquanto a escolhida, titubeando, se tornava cada vez mais pequena, ante o comprido ponteiro que Dona Ermelinda brandia como uma espada sobre a sua cabeça, Carmen tagarelava, ininterruptamente, à esquerda e à direita. A professora, furibunda, julgando-a completamente distraída, chamava-a de surpresa: 
– Carmen, vem resolver este problema, já que tanto conversas! 
Mas, apesar de palradora, Carmen sabia sempre tudo, roubando à professora o prazer de lhe infligir umas boas reguadas. Isto, porque seus irmãos mais velhos foram para ela como que uma “pré-primária”. E, também, porque lá em casa os jornais eram um “luxo” que seu padrinho não dispensava. Carmen entrara para a escola sabendo já ler o jornal.                  
 Porém, “pela língua morre o peixe”, e pela língua Carmen apanhou uns bons sopapos de sua mãe, quando Dona Ermelinda a mandou chamar para que ensinasse a filha – um papagaio, como a apelidara – a ser mais calada. Das lições não havia nada a dizer, mas distraía as outras meninas, que só com grande sossego aprendiam alguma coisa.  
Aos nove anos, Carmen fez o seu exame de Instrução Primária, exame que era então acrescido de um outro de admissão aos Liceus ou, opcionalmente, às Escolas Comerciais ou Industriais.  
Antes da tomada de opção, que cabia aos pais, Dona Ermelinda voltou a chamar a mãe da menina. Desta vez, não para que lhe desse uma reprimenda, mas para dar um conselho à mãe: 
– Na minha opinião, a Senhora deveria optar pelo exame de admissão aos Liceus, é o que mais tarde virá a dar acesso a um curso superior. E será uma pena se a sua garota não o puder seguir, pois tem qualidades para isso. 
Inversamente, porém, Carmen fez o exame de admissão à Escola Comercial. Fê-lo, “aprovada com distinção”, como teria feito o outro. Mas, na época, era um pouco assustador para uma família de tantos filhos, ousar um curso superior, pois, como já sabemos, os tempos corriam difíceis. 
Devo explicar que as complicações da família aumentavam de dia para dia, o que nos leva agora a falar de Carlos Alberto que, não obstante o conforto de que desfrutava em casa dos avós, nunca se conformou por ser o único filho separado dos braços da mãe. A dado momento, já rapazote, deixou aquele que sempre fora o seu lar e veio procurar junto de Diolinda o que ele achava que lhe tinha sido negado injustamente – o carinho de mãe! 
O pai, ele não procurara. Esse, ora administrava uma fábrica ou uma grande empresa, ora se encontrava sem emprego nem negócio certo. Dividia-se entre hotéis, pensões e grandes casas alugadas, profusamente adornadas de lustres (que fazia questão de manter sempre acesos) e onde dava opíparos jantares aos amigos. Com ele nada era constante nem sinónimo de segurança. Numa única mulher, também não se fixara ainda. 
A propósito, Carmen relembrou um desses jantares de que participou. Os convidados eram, na sua maioria, indianos (todos doutores) e os criados também. O menu, um caril fortíssimo e outras iguarias a gosto da tradição dos convivas, fê-la regressar a casa enjoadíssima e vomitar a noite toda, perante a indignação de sua mãe que, enquanto lhe fazia engolir uns goles de chá, ia murmurando: 
– Que irresponsabilidade! Dar essas porcarias a uma criança. Há-de ser sempre o mesmo – o berço o deu a tumba o leva! 
Carmen não alcançava o significado pleno de tal arrazoado, só sabia que não gostava de ouvir tais palavras sobre seu pai. O “brilho” de Carlos fascinava-a. Identificava-se com ele. E perguntava-se a si própria porque não teria sido possível viverem juntos. Carmen era uma criança intrinsecamente alegre, viva e curiosa. Herdara do pai a mesma vontade forte de viver superando todos os obstáculos, a mesma inquietude e irreverência, a sua natureza apaixonada.  
Provavelmente, tal como ela, seus irmãos sentiam o mesmo apelo dos genes, a força do sangue que lhes corria nas veias; talvez até mais intensamente, por serem homens. O pai era o voo mais alto, o sonho, a fantasia, a aventura; a mãe, a segurança, a estabilidade, a certeza da cama quente, da refeição a horas. Compreensivelmente, esta dicotomia produziu em todos os frutos dessa união uma instabilidade e uma insatisfação latentes que, ao longo da vida, uns conseguiram gerir melhor do que outros.      
Carlos Alberto foi, talvez, o menos hábil. Tornou-se um belo jovem. Moreno, olhos negros, como os irmãos, mas o único com uma estatura acima da média. Era o que se chamava “um galã”, em analogia com os actores de cinema da época. Porém, nunca encontrou o rumo certo. Não terminou o liceu, e profissões, teve várias e as mais estranhas. Mulheres também! Filhos, muitos, como seu pai... 
Diolinda e António abriram-lhe as portas. Mas, conter três jovens adolescentes, além de Carmen ainda menina e de Eduardo quase bebé, tornou-se insustentável. Não porque António se rebelasse, mas era necessário impor normas, regras. Uma delas, era que todos os rapazes tinham de estar em casa até à meia-noite. A partir dessa hora não entravam. Porém, regras e normas não cabiam nos seus temperamentos. Umas vezes cumpriam, outras ficavam na rua, e noites havia em que Diolinda transigia e abria-lhes a porta já de madrugada. Tinham uma natureza noctívaga, e mesmo quando entravam à hora marcada, prolongavam as conversas, os jogos, as discussões acesas, entre as quatro paredes do quarto que, claro, não era à prova de som. Os seus espíritos vivos, pujantes e rebeldes, soavam na noite como leões enjaulados. E ninguém dormia.  
Carlos Alberto foi o último a entrar e, voluntariamente, o primeiro a sair. Iria viver com o pai – não haveria normas! Mais tarde, levou Fernando José. A partir daí, foi um vai e vem entre as várias moradas paternas e a casa materna, à medida dos seus descontentamentos e das suas necessidades. O sentido era extraírem, ora do pai ora da mãe, os sucos das suas raízes diferentes...  
Diolinda era, sem dúvida, a que mais sofria com o desatino de seus filhos. Ao fim e ao cabo, os filhos eram seus, e o peso que ela trouxera a António tornava maior a sua angústia. Para ajudar a tantas despesas, fazia rendas e engomava roupas para fora. António comprara-lhe uma máquina de costura das mais modernas, que até fazia “ajour” e bordados. Nela, Diolinda costurava e consertava as roupas de casa, o vestuário da família, e confeccionava para Carmen lindos vestidos com folhos e saias rodadas que a faziam parecer uma boneca. 
Dos rapazes, Vítor Manuel foi o que permaneceu mais tempo em casa. Era o mais ajuizado e, aparentemente, o mais sereno. Era muito inteligente e, embora não tivesse ido além da Instrução Primária, tornou-se um autodidacta. Lia muito e passou também a escrever “coisas”. Era um sonhador e um poeta. O tempo veio incrementar e confirmar essas suas tendências. Tornou-se o ídolo de Carmen que, às escondidas, bisbilhotava tudo o que ele lia e escrevia.   
Vítor Manuel tinha um amigo inseparável, o Toy. Durante anos viveram grudados um no outro, partilhando “intelectualidades”. Um escrevia, o outro desenhava. Diolinda fazia café para os dois, enquanto Carmen rodopiava em redor deles, escutando, bebendo as suas conversas. E com que gosto lhes fazia recados! Ia comprar-lhes cigarros a tostão, entregar-lhes as missivas apaixonadas às jovens que moravam em frente. Como recompensa, autorizavam-na a ficar sentada junto deles, cientes de que ela não entendia nada dos seus “elevados” sonhos e debates. 
O Toy é hoje um pintor internacionalmente conhecido. Ainda vos tornarei a falar dele quando chegarmos à adolescência de Carmen...     
À medida que fala, as memórias de infância da minha amiga vão aflorando à sua mente, um pouco desordenadas, por vezes turvas, tal como o depósito de um poço que, remexido, sobe anarquicamente à superfície. E sendo as memórias caprichosas, pois afloram como e quando querem, forçoso se torna captá-las rapidamente, aprisioná-las ao papel, antes que fujam mais depressa do que vieram. 
Foi o que Carmen e eu tentámos fazer nesta longa tarde iniciada sob um Sol radioso que, sem darmos conta, vimos substituídos por uma não menos radiosa Lua. 
Penso que todos nós temos agora direito a um merecido descanso... 


Descanso breve, desta vez. Carmen telefonou-me logo no dia seguinte a marcar novo encontro. Rejubilei! Mal tinha ainda digerido a última conversa, mas não hesitei em aceitar de imediato. 
Encontrámo-nos no lugar por ela marcado – uma esplanada à beira-mar. O sítio não me desagradou. Já percebi que temos muitos gostos parecidos. Carmen confessou-me ter horror a espaços fechados. Para ela tudo tem de ser amplo, rasgado, luminoso. Há nela uma ânsia de liberdade, de espaço, por vezes, de Infinito! 
Tenho cogitado de quando em vez o que será a sua vida fora dos nossos encontros. Parece-me uma mulher de espírito muito prático, vivendo constantemente apressada, como se tenha sempre alguém esperando por ela, mil e um assuntos para resolver, tarefas por terminar. Por outro lado, quando se fala de ideias, de sonhos, de livros, de viagens, noto que se esquece do tempo, assemelhando-se a uma bailarina que dança o bailado da existência com um pé na terra e o outro nas alturas. 
Curiosa, não pude deixar de perguntar-lhe qual o motivo de tanta pressa em me reencontrar. Respondeu-me: 
– Tive receio que encerrasse o capítulo da minha infância. Aconteceu que depois de a deixar, não consegui fechar a torneira da memória, e um caudal de outras lembranças inundou-me. Não quis deixar de a convidar a banhar-se nele, pois sei do entusiasmo que tem posto no seu romance, ao qual, perdoe-me dizê-lo, começo também a afeiçoar-me como se fosse meu. Tenho grande admiração pelos prosadores, especialmente pelos romancistas, já que eu, tirando meia dúzia de pequenas prosas, não consegui ainda aventurar-me para além da poesia.
Acho que abri a boca de espanto. Estava então, perante alguém que também escrevia. E poesia, em cujas malhas sempre adorei enredar-me.       
– Mas, Carmen... nunca me disse que escrevia! 
– Como há muitas outras coisas que ainda não lhe disse... Não é para isso que estamos aqui? 
De súbito, entendi aquela minha sensação estranha de que havia em Carmen alguma coisa que vibrava em uníssono comigo, de que algo nela, como em mim, pairava mais alto. Era o seu “pé nas estrelas”.  
– Quer dizer que é poetisa?  
– Escrevo versos, sim! Já ganhei até alguns prémios em Jogos Florais e tenho um livro publicado. Apenas um livro... Contudo, não tenho pressa. Aprendi ao longo da vida que há um momento certo para tudo. E acredito que ele vem a caminho. Lentamente, para um tempo inventado pelos homens; na medida certa, para o meu tempo real.                     
– Confesso que agora não entendi muito bem. Pode explicar-me melhor: “Tempo inventado pelos homens/ Tempo real”…?         
– O que quero dizer, minha amiga, é que eu – como todos nós – terei ainda muitas vidas para concretizar sonhos e aspirações. Não adianta colher as uvas antes de estarem maduras... 
– Se bem percebi está a falar-me de Vidas Sucessivas, de Reencarnação!? 
– Porque não? No entanto, não foi com esse objectivo que vim ao seu encontro. Num outro dia poderemos falar sobre esse assunto...  
Ainda um pouco perplexa, apressei-me a retirar da pasta o meu bloco de notas. 
Passámos rapidamente e de novo à infância de Carmen. 
Findo o seu exame de admissão com vista a ingressar na Escola Comercial, não o pôde fazer de imediato. Ao tempo, a lei só lhe permitia esse ingresso aos onze anos. Carmen tinha apenas nove para 10 anos. 
Sua mãe não perdeu tempo. A filha não ficaria em casa dois anos lendo tudo o que apanhava. Seria perigoso! “Uma menina tem de aprender outras coisas que, no futuro, façam dela uma boa esposa” – justificava Diolinda. E decidiu colocá-la num “atelier” de modista para que aprendesse a arte. Porém, Carmen detestava a agulha. A monotonia dos pontos, cuidados, medidos, desmanchados vezes sem conta até ficarem certos, a falta de movimento sentada horas seguidas sem poder levantar os olhos das bainhas, tudo isso lhe era insuportável. Breve, arranjou maneira de fugir àquele suplício. Preferia ir fazer as entregas das peças feitas a casa das freguesas. Era o procedimento usual na época. A “mestra” a princípio recusou – Carmen era muito pequena (de idade e de tamanho) – mas, perante a sua ineficiência para a costura, acabou por anuir, não sem antes lhe recomendar: 
– Toma cuidado, as sedas escorregam, não vás perder as saias, os vestidos! 
Carmen ficou contentíssima. Arejava, andava de eléctrico, via as montras, tudo a distraía. E ainda por cima, as clientes achavam-lhe graça, davam-lhe sempre uma gorjeta, dez tostões, quinze tostões, as mais pródigas, vinte e cinco tostões! No regresso, comprava um bolo ou um chupa-chupa, e voltava para casa, feliz. 
Diolinda começou a estranhar tanto contentamento. Quando soube a que se devia, ficou indignada:  
– Onde já se viu? A minha filha a servir de moça de recados, todo o dia na rua?  
Escusado será dizer que se acabaram os passeios e com eles a “aprendiza de modista”. 
Contudo, Diolinda não desistiu. Na sua ideia fixa de preparar a filha para vir a ser uma esposa “prendada”, no ano seguinte pô-la num “atelier” de bordados para que aprendesse a bordar à máquina. Tentativa igualmente gorada. Passados poucos dias, Carmen lutando com um ponto de “cordonnet”, trespassou unha e dedo com a agulha da máquina que, dolorosamente, teve de lhe ser retirada. Foi o fim dos bordados!
Sua mãe decidiu então distribuir-lhe tarefas caseiras. Carmen não retorquiu (nem podia!). Todavia, na hora das arrumações, Carmen escondia um livro por debaixo das roupas e trancava-se por dentro. Em dois terços do tempo devorava as páginas; no terço restante, cumpria a tarefa à pressa. E assim, ia iludindo as “boas intenções” de sua mãe. 
– Pobre mãe! – Interrompe a minha narradora. Devo ter-lhe dado muito trabalho. Era uma mãe difícil, é certo! Mas também não se pode dizer que eu fosse uma filha fácil! De notar que a minha mãe era “Capricorniana”. Nasceu no Dia de Reis, a 6 de Janeiro de 1903, sob o signo astrológico de Capricórnio, que é um signo de “Terra”. Os signos de terra conferem aos que nascem sob a sua influência uma combinação de frio e seco. Se, por um lado, a secura conduz à rigidez e à tensão, por outro, o frio confere concentração, coesão, objectividade, duração. A terra é o elemento mais positivo e materialista que existe. Sob os pontos de vista físico e psicológico, proporciona paciência e resistência perante o fracasso, além de um carácter firme, íntegro, tenaz, perseverante, de grande sentido prático. No que se refere ao destino, prognostica estabilidade e permanência.  
– Eu, contraditoriamente, era, aliás, sou “Geminiana”, isto é, nasci sob o signo astrológico de Gémeos, que é um signo de “Ar” – Os signos de ar proporcionam uma combinação de húmido e quente – com predominância do primeiro, que tende a conferir fluidez e elasticidade. O quente confere expansão e mobilidade. Sob os aspectos físicos e psicológicos, induz ao movimento, à adaptabilidade, às reacções cerebrais vivas; também à flexibilidade, à inteligência, à intuição, à diplomacia, ao sentido artístico, ao talento inventivo, à subtileza e à sociabilidade. Sob o ponto de vista de destino, prediz mudanças e instabilidade. 
– Quer dizer que a Carmen também entende de Astrologia? 
– Apenas um pouco, minha amiga. A verdade é que ao longo da vida fui-me munindo de várias sabedorias, estudando algumas ciências e filosofias menos comuns, que me têm ajudado a compreender melhor os outros e, principalmente, a mim própria. Os retratos astrológicos que acabei de fazer-lhe, explicam em parte e com toda a clareza, as divergências natas que existiam entre mim e minha mãe; entre os seus objectivos e os meus. Apesar disso, fazendo o balanço da minha infância, os pesos sempre pendem para o lado positivo! 
– Ainda não lhe falei, por exemplo, dos passeios semanais que fazíamos a Sintra, no dia da folga do meu padrinho. Vou contar-lhe, ou melhor, vou mostrar-lhe um pequeno texto que fiz há tempos, e que incluía a descrição desses dias felizes. Se quiser, pode transcrevê-lo.
– Já que mo permite, vou partilhá-lo com os nossos leitores: 
 “Recordo o tempo da minha infância e o meu padrasto, santo homem, muito digno nos seus fatos escuros e camisas brancas de colarinhos engomados, alto e imponente, em quem, somente uns olhos azuis sob grossas lentes, denunciavam a suavidade da sua alma. Tal porte e usual indumentária levaram a vizinhança a, durante algum tempo, julgá-lo padre. Como nos rimos, quando o soubemos! O meu padrinho tinha uma predilecção especial por Sintra e era lá que nos levava, invariavelmente, todas as semanas, de comboio. A variante era a Praia das Maçãs ou Colares, que fazíamos a partir de Sintra, no velho eléctrico. 
Com ele e minha mãe, eu e Eduardo, empreendíamos longas caminhadas pela subida que conduzia da Vila ao Palácio da Pena, que o meu padrinho fez questão de nos mostrar por dentro e por fora. A meio da caminhada deliciávamo-nos com o farnel preparado pela minha mãe, a que não faltava a toalha de quadrados que estendíamos sobre uma das velhas mesas de pedra do Parque das Merendas. Eu parava a cada passo para contemplar as hortênsias coloridas que ladeavam o caminho, para admirar as casinhas minúsculas que se avistavam nos vales e, imagem que nunca esqueci: os tanques cobertos de colchas de limos verdes aos quais eu e meu irmão lançávamos pedras para confirmarmos se tinham água. Algumas vezes, fazíamos a subida nas tradicionais “charrettes” puxadas a cavalos, ainda hoje existentes, e eu sentia-me como uma princesa a caminho do seu palácio.” 
– Eram uns belos passeios! – Recorda Carmen, saudosa. 
Porém, as suas lembranças não ficam por aqui. E continua falando, falando... 
Apesar de já não serem deste mundo, dentro dela não morreram ainda a “mamã Hilda” e o “papá Bastos”. Era o casal que morava, porta com porta, no lado esquerdo do seu andar. Ele, contabilista, trabalhava no Sindicato dos Jornalistas e em vários Jornais. Ela, senhora de casa, filha de Oficial do Exército, tinha estudado como interna no Convento de Odivelas. Não tinham filhos e, talvez por isso, não eram muito felizes.  
Adoravam a pequena Carmen e ensinaram-lhe a chamar-lhes “mamã” e “papá”, desde pequenina. A casa deles, paredes-meias com a sua, era quase o seu segundo lar. Artur Bastos, quando chegava para almoçar e jantar, tocava em simultâneo a campainha da casa dele e a de Carmen. Ela corria para ele, que logo a pegava ao colo exigindo o beijo habitual e, muitas vezes, Carmen acompanhava-os na refeição. Artur tinha sempre bilhetes de ingresso para os mais variados espectáculos. Cedo, muito cedo, Carmen passou a fazer parte das saídas daquele casal, como se fosse a filha que eles não tinham tido. Diolinda, ciumenta, reclamava, mas acabava por ceder. Eram tão amigos, tão dedicados, não tinha coragem de lhes negar aquela felicidade emprestada. E Carmen gostava daquela atenção e ternura que sua mãe, tão dividida, se esquecia de lhe prodigalizar. Por outro lado, eles davam-lhe a possibilidade de alargar os seus voos, saciando-lhe a curiosidade por novos horizontes.  
Hilda, aborrecendo-se de passar os dias sozinha, levava Carmen a passear. Iam às compras à Baixa, lanchar ao Chiado e, frequentemente, ao Jardim Zoológico. Curiosamente, aí, o que Carmen mais apreciava não era propriamente admirar os animais nos seus gestos rotineiros: o elefante tocando a sineta em troca de um molho de cenouras ou os macacos brigando pelos amendoins e bananas cujas cascas devolviam aos espectadores. Nada disso! O que a deliciava mesmo, era percorrer os Jardins do Conde de Farrobo, anexos ao Zoo, deter os olhos nos imensos roseirais ladeados de tufos verdejantes, sentar-se no meio daquele paraíso, conversando com Hilda, que falava com ela como se ela fosse uma senhorinha mais velha. E depois da merenda, ficarem em silêncio, lendo o livro que tinham levado.  
– Como era sereno e repousante aquele lugar! – Rememora Carmen. 
No Inverno, nas longas tardes em que não saíam, enquanto Hilda repousava das dores de cabeça habituais, Carmen enfiava-se no escritório dos Bastos, o seu refúgio predilecto. Aí, percorria, extasiada, uma biblioteca que fazia os seus encantos, e foi lá que devorou a eito os volumes mais tentadores: Veríssimo, Zweig, Zola, Hemingway, Moravia, Dostoievsky, Tolstoi, Balzac, etc.   
Hilda não lhe fazia restrições às leituras. Achava má política proibir, pois bem sabia, pela educação austera que tivera, como o fruto proibido era o mais apetecido. 
Como variante a estas tardes, havia as empolgantes “matinées” de cinema: os filmes para crianças, e os outros, pois nessa altura não existia ainda a classificação por idades. Inesquecíveis, também, o maravilhoso espectáculo “Holidays on Ice”, a temporada de Circo, e os espectáculos de Carnaval nos Teatros São Luís e Ginásio.  
Contudo, a recordação que Carmen mantém, talvez mais viva, talvez mais emocionante, é a das noites de “première” nos teatros de “Revista”. “Première” que, como todos sabem, é a noite de estreia; não para o público, apenas e estritamente para convidados especiais, para a Imprensa e, lamentavelmente, para a Censura. Nessa noite, o espectáculo era apresentado na íntegra, conforme tinha sido concebido por autores e realizadores. Na noite seguinte, seria a estreia para o público em geral que, depois de a Censura ter feito os inevitáveis “cortes”, obviamente perdia o melhor. A preocupação maior dos censores era cortar as piadas alusivas ao regime político vigente, que, em jeito de rábulas jocosas, traziam a lume as inúmeras injustiças e revoltas caladas. De preocupação menor eram as piadas picantes, pois essas faziam o povo rir e esquecer momentaneamente o seu descontentamento e as suas necessidades frustradas. 
Para Carmen, resumia-se a uma noite de festa. Tudo a empolgava: a saída nocturna – o espectáculo só começava depois da meia-noite – a entrada na sala repleta de gente faiscante nas indumentárias e adereços. E ela, muito senhora de si, nos seus vestidos de xadrez ou veludo com golas bordadas, meias e luvas de renda branca, sapatinhos de verniz, toaletes que lhe eram oferecidas pela “mamã Hilda”, sempre acompanhadas da seguinte recomendação: “Não são para levar para a escola, guarda para quando fores connosco ao teatro!”    
Depois de subido o pano, seguiam-se cerca de quatro horas de sonho: a música, os bailados, o jogo de luzes, o fascínio dos cenários, o brilho das lantejoulas, as plumas esvoaçantes, o cantar do refrão acompanhando os actores, os aplausos, o esplendor da apoteose. Era um encantamento! Carmen nunca adormecia, sequer pestanejava. No regresso, lá pelas cinco da manhã, um ritual que os Bastos não dispensavam: a passagem pela padaria, trazendo o pão quente que comiam já em casa, coberto de manteiga e acompanhado com chá. Enquanto saboreavam aquela refeição tão matutina, iam comentando o espectáculo, rindo de um ou outro chiste mais engraçado. E, apesar da hora avançada, os Bastos não deixavam de responder de bom grado às mil e uma perguntas que Carmen sempre tinha para fazer. Depois, Carmen pernoitava em casa deles, num quarto previamente arranjado para si, onde dormia e sonhava até o Sol ir bem alto. 
E já o Sol tinha desaparecido no horizonte, quando a minha narradora deu por findas as suas reminiscências de infância. 
– Gratas lembranças, Carmen! – Deixei escapar, enquanto nos despedíamos afectuosamente.  
O que me atrevo a constatar é que Carmen atravessou a meninice como um pássaro que fortaleceu as asas saltando de ninho em ninho, escolhendo e alimentando-se do melhor que em cada um encontrava... Arriscaria dizer que, tão bem alimentada, difícil seria que as agruras da vida lhe quebrassem as asas...

 

 

 
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