O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 

I PARTE
 
Capítulo IV


Estamos agora em 1941. O mundo continua em guerra.
Os bombardeamentos aéreos são notícia de primeira página em todos os jornais. Via rádio, chega até nós a canção “Lili Marlene”, muito popular entre o exército alemão.
Entramos na viragem decisiva da Segunda Guerra Mundial. A estrela bélica de Hitler encontra-se no auge. A Alemanha invade a Rússia. Porém, a abertura de uma nova frente de guerra torna-se fatal para a Alemanha. Após as primeiras vitórias e um avanço inicial rápido no território russo, no final do ano as tropas são detidas às portas de Moscovo. Daí em diante, os exércitos alemães passam à defensiva.
Paralelamente, é iniciado em Chicago e Los Angeles o Projecto Manhattan de investigação atómica. A ele se seguiria, já em 1942, a primeira experiência de obtenção de energia nuclear levada a cabo por um cientista italiano – Enrico Fermi – que tinha emigrado para os EUA, fugido ao fascismo de Mussolini. É o início da Era Atómica. A Humanidade abria assim uma nova “Caixa de Pandora”.
Portugal enche-se de refugiados. Os hotéis estão repletos. São tempos prósperos para a indústria hoteleira e seus empregados, como era o caso de António. Este, que sempre fora de fazer economias, sem ser avarento, dispõe do seu pé-de-meia a favor da felicidade da sua nova família e aluga uma bela casa que mobila primorosamente. Era a “casa” que Diolinda sempre desejara.  
E foi neste soprar de ventos de guerra que ela encontrou a sua paz, e Carmen o seu primeiro lar. O seu primeiro lar e o seu verdadeiro pai, embora lhe tivesse chamado sempre “o padrinho”.  
António desejou então ter um filho seu, um filho da sua carne, do seu sangue, do seu amor. E dois anos depois nasce Eduardo, um lindo bebé loiro, de olhos azuis como o pai – mais um irmão para Carmen, que tinha na altura quatro anos.        
– Desse tempo e dos tenros anos que se seguiram, conservo muitas lembranças... – adverte-me Carmen. 
– Fale-me delas!
– Foram tempos felizes. Tínhamos uma bela casa onde nada faltava. O meu padrinho enchia a despensa como um celeiro. Eram os presuntos, os queijos e os doces, que não parava de comprar. Por vezes, tínhamos de dar parte deles para que não se estragassem. À minha mãe, que ele adorava e que lhe dera o desejado filho, não se poupava a presentes: eram luvas, lenços, chapéus, e jóias dos melhores joalheiros. Ainda conservo algumas que me couberam por sua morte e que guardo como relíquias. Como relíquia, guardo também um guarda-jóias em pau-santo com incrustações de prata, que ele lhe ofereceu, cheio de amêndoas, numa Páscoa. Por falar em Páscoa, vieram-me à memória umas amêndoas com que nos brindava. Tinham a forma de bonequinhos recheados de licor. Era uma guerra entre mim e os meus irmãos a disputa dos bonecos... Ah! E os Natais…? Esses, não esqueci nunca! Havia o presépio que nós próprios armávamos: uma montanha feita de cartão amolgado e forrado de papel de seda, onde colávamos erva e areia e onde não faltava o rio onde bebiam as ovelhinhas, imitado por um velho caco de espelho; e na gruta (uma caixa de sapatos bem disfarçada), o burro, a vaquinha, e os três reis magos, majestosos nos seus camelos de barro. Tudo se nos afigurava tão real, que até o Menino Jesus nas palhinhas, entre o S. José e a Virgem Maria, parecia sorrir para nós...
Depois, o grande pinheiro natural colocado a um canto da sala, que enfeitávamos de bolas e fitas multicor e de pequeninas lâmpadas que ora acendiam ora apagavam, num piscar ininterrupto. E na hora das prendas, as bonecas, umas de celulóide, outras de pano com cabecinhas de porcelana; os miniaturais serviços de chá, os pianos, os xilofones – brinquedos que o meu padrinho escolhia pessoalmente na “Quermesse de Paris”, hoje desaparecida, trucidada pelos grandes Centros Comerciais. Ainda me recordo do meu primeiro desgosto, quando Eduardo arrancou as pernas e os braços à minha boneca preferida. Sabe que ainda a tenho…? Mandei consertá-la no “Hospital das Bonecas”. Mais tarde, vieram os livros de histórias de fadas e princesas, os puzzles, as ardósias com giz de cores... Era uma festa! Ainda retenho no nariz o cheiro que vinha da cozinha, uma mistura de bacalhau cozido com grelos, peru assado, filhoses e rabanadas. E que dizer da ingenuidade com que colocávamos o sapatinho na chaminé, duvidando, infantilmente, se o Menino Jesus se lembraria de nós? Só o saberíamos depois da ceia que se iniciava, impreterivelmente, à meia-noite! Entretanto, preparávamos pequenas trouxas de roupas usadas, embrulhos com doces acabados de fazer e alguns brinquedos já postos de lado, e descíamos à rua, onde, fazendo nós próprios de “meninos-Jesus”, os ofertávamos às crianças menos afortunadas. Mas, mais do que a ceia e todas as guloseimas que ela implicava, mais do que os brinquedos, o pinheiro e o presépio, o que ficou gravado em mim até hoje, foi a alegria, o calor humano, o espírito de família e de solidariedade, a campainha que não parava de tocar, trazendo sempre mais um. E para que ninguém ficasse sem a sua surpresa, nós, crianças que não tínhamos mesada como os meninos de hoje, recolhíamos os tostões dos nossos mealheiros e corríamos à rua para comprar à pressa mais um cartão de Natal, uma caixinha, uma caneta, uma bugiganga qualquer, que atávamos e embrulhávamos com papéis e laços coloridos, como se fosse a prenda mais valiosa do mundo. Não era o valor do conteúdo que contava, mas a alegria de dar, distribuir... Isso nos fora ensinado pelo exemplo!    
– Ainda não lhe disse, que ao longo dos anos da minha infância, a minha mãe foi recuperando a pouco e pouco e reunindo na nossa casa, especialmente nas alturas festivas, os entes queridos dispersos. Carlos Alberto; as tias: Augusta, Celeste e Isaura; a prima Lurdes. Enquanto isso, o meu padrinho ia adoptando como sua, e sempre com agrado, essa numerosa família.
A certa altura, por graça, dizia ele, que a nossa casa deveria chamar-se “O Asilo de Santo António”.            
– Na verdade, Carmen, são memórias preciosas de um tempo feliz – digo, emocionada.  
– Só que... os tempos felizes não duram sempre – responde Carmen. – Mas também não se extinguem. Digamos que se alternam, cumprindo a lei da alternância existente em toda a natureza: o dia e a noite, o Verão e o Inverno, a maré-alta e a maré-baixa... E, como tal... 
Olhamos o relógio.
– Meu Deus! Como se passaram as horas! – Dizemos em simultâneo. 
E como eu e Carmen temos, como alternância a estas memórias, um tempo presente que espera por nós, temos de vos dizer: “Até breve!”


Não tendo a pretensão nem conhecimentos para fazer deste romance uma narrativa histórica – longe disso – não posso, no entanto, deixar de aproveitar esta pausa que me separa do novo encontro com Carmen, para relembrar alguns factos importantes que ocorreram a par da sua infância.  
De entre as grandes atrocidades que o regime nazi cometeu, um dos crimes mais hediondos foi a exterminação cruel e sistemática de cerca de seis milhões de judeus. O anti-semitismo constituía parte fundamental da ideologia nazi e a discriminação dos judeus na Alemanha começou logo que Hitler subiu ao poder. Iniciada a guerra, os dirigentes do regime decidiram pôr em prática a “solução final” para o seu extermínio, não só na Alemanha como em todos os territórios ocupados. Os campos de concentração de Auschwitz, Treblinka, Dachau, entre muitos outros, foram testemunhos trágicos de esse grande holocausto da História. 
E é em 1945 que a Alemanha capitula com a tomada de Berlim pelo Exército Vermelho e com a destruição atómica de Hiroxima e Nagasáqui, levada a cabo pelos Estados Unidos da América, cujas terríveis consequências em termos de vidas humanas, levou à rendição do Japão e ao término da Segunda Guerra Mundial. É a “paz” assente no poder nuclear. 
Em Portugal, vive-se uma “paz” assente no medo. A ditadura de Salazar, escudada pela PIDE, não admitia descontentamentos. Abrir a boca representava prisão ou morte. Éramos pois, um povo “satisfeito”, porque calado à força. Bem sabíamos o que acontecia aos mais ousados, aos mais irreverentes. Eram os lares devassados fora de horas, os suspeitos arrancados às famílias deixadas sem pão, a tortura, o apodrecer das vítimas no forte de Peniche, a “fritura” nas frigideiras do Tarrafal. E quantas vezes, injustamente. Quantos inocentes! Quantas denúncias falsas por vinganças mesquinhas! Não admira que ainda hoje nos considerem um povo manso, de brandos costumes.  
Foram quarenta e dois anos de repressão, de vontade política amordaçada, de liberdade de expressão cerceada, imprensa censurada, evolução intelectual e artística, truncadas... 
Carmen tem por essa altura sete anos. Muito poucos para ter uma memória clara do clima que se vivia. 

 

 

 
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