O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 
 
I PARTE
 
Capítulo III


Corria o ano de 1940. Em curso, a Segunda Guerra Mundial.
A consolidação do poder nazi na Alemanha permitiu a Hitler passar a uma política agressiva em relação aos países vizinhos, num desafio manifesto às potências aliadas. Aliás, já em 1935, Hitler desafiara as democracias ocidentais quando, desrespeitando o Tratado de Versalhes, entrou na Renânia. Três anos mais tarde, a anexação da Áustria não depara com qualquer reacção internacional vigorosa. Mas quando em 1939 forças alemãs invadem a Polónia, tem início uma das maiores guerras da História. 
Portugal, além do peso da ditadura de Salazar, vivia o reflexo de um mundo conturbado. Não obstante, em 1940 vê inaugurada em Lisboa a “Exposição do Mundo Português”, evento a que não posso deixar de referir-me, pois ele foi um marco importante na vida de Diolinda que, a braços com três filhos, decide enfrentar o mundo e seus preconceitos.  
Vítor Manuel, Fernando José e Carmen têm então, respectivamente, nove, sete, e dois anos. Carlos Alberto continuava com os avós. A madrinha de Carmen, a tal que a baptizou com o nome da santa da sua devoção, ajudou Diolinda nos primeiros tempos. Tinha duas filhas e duas criadas que ficavam com as crianças enquanto Diolinda procurava emprego. Com trinta e sete anos mantinha ainda uma beleza que nem os filhos nem as amarguras tinham roubado. Tomavam-na, uma timidez reforçada pelo medo de dar mais passos em falso, uma magreza que lhe acentuava a silhueta elegante nas roupas sóbrias, uma tristeza pronunciada, uma negrura intensificada nos olhos. A negrura do seu amor perdido, do seu sonho desfeito!  
Na sua alma, a mesma pureza, a mesma seriedade e integridade, gravadas nela a ferro e fogo pela “mão-de-ferro” da sua raiz. 
Mais do que empregos lhe apareciam pretendentes. Mulher bonita, separada, quantas vezes medida por uma bitola injusta! A todos os pretendentes dizia “não”. A madrinha da sua menina, a quem devia o favor da hospitalidade, aconselhava:  
– Tens de pensar no teu futuro, Diolinda, no futuro dos teus filhos! Os anos passam...  
Todavia, em Diolinda, ainda cheia do seu amor por Carlos, não cabia tal ideia. Entretanto, a situação de favor em que se encontrava ia dilacerando o seu orgulho. Era mais um espinho que se juntava aos já existentes naquela rosa! 
Um dia, apresentaram-lhe António. Homem solteiro, boa figura, pela mesma idade de Diolinda. Tinha uns olhos azuis que eram, de facto, o reflexo de uma alma pura e sã. A sua descendência de pai espanhol dava-lhe um sotaque interessante. Vivia com a mãe e dois irmãos, eternamente solteiros, em plena Baixa lisboeta. O pai tinha regressado a Pontevedra, sua terra natal, e aí ficara, tomando conta das propriedades da família. A mãe ficou em Portugal com os filhos, não vocacionados para a vida rural. Oriundo de uma família de sólidos princípios morais, António não degenerou. Como dominava o espanhol, empregou-se ainda jovem num hotel da capital. Estudou outras línguas, foi melhorando de situação e era, à data, recepcionista conceituado num Hotel do Rossio.  
Apesar de solteiro, não cortejou Diolinda. Ofereceu-se para lhe arranjar um emprego, um emprego à medida daquela cuja delicadeza e seriedade, tinham cavado fundo nele. Estendeu-lhe uma mão amiga, desinteressada. E o emprego surgiu: uma colocação na “Exposição do Mundo Português”.  
Pela primeira vez, Deolinda sentiu-se “gente”. Recobrou ânimo, a pouco e pouco a auto-estima. Alguém se preocupava com ela, a aconselhava, lhe oferecia palavras de conforto e de esperança. E o seu primeiro ordenado…? Diolinda lembrava-se bem! Comprou roupas novas para os meninos, levou-lhes chocolates. E com que ansiedade eles a esperavam! Como os olhitos negros da pequenina Carmen brilharam quando a mãe lhe colocou nos cabelos escuros o primeiro laçarote cor-de-rosa!    
Entre Diolinda e António foi nascendo uma amizade. Nela, sobretudo um sentimento de gratidão, pela ajuda, pelo respeito, pela protecção, pelos conselhos quase de pai – apesar de António ser da mesma idade. Nele, uma admiração profunda pela mulher sofrida mas incorruptível, pela mãe extremosa. 
António não se poupava a pequenos mimos que ajudassem Diolinda a esquecer os dias negros, a colmatar as suas desilusões: um ramo de flores, uma lembrança singela, um passeio a Sintra, um almoço à beira-rio... Diolinda começou por recusar, especialmente os passeios.  
– Não quero deixar os pequenos, já basta quando vou para o emprego – dizia.  
– Mas, por que não levá-los? O ar puro fará bem às crianças, sempre tão fechadas em casa – lembrava ele.  
Pensando nisso, Diolinda acabou por aceitar. Há quanto tempo não davam um passeio? E lá iam todos, respirando leves, um “ar de família” até aí nunca experimentado; Carmen usufruindo do colo, ora de um ora de outro; os rapazitos, alegres e saltitantes, descobrindo maravilhas à sua volta. 
Carmen interrompe-se:  
– Sabe, minha amiga? Poderá parecer que esta imagem de António era uma imagem forjada para servir futuros intentos. Mas eu lhe digo que não. Ele era um homem raro, íntegro, puro e límpido como os seus olhos azuis. Recordo-o com muita saudade... Eu que cresci junto dele... 
– Cresceu junto dele? Conte-me, por favor! – Peço-lhe, ansiosa.
– Lá iremos  – responde-me Carmen, carinhosamente.  
O tal “ar de família” – esposa, filhos – começou a invadir António, e foi crescendo dentro dele, crescendo tanto que se tornou impossível de conter... Quando se deu conta, o coração já não lhe pertencia. Ele, um solteirão inveterado, a quem, até aí, tinham bastado como família, a sua amada mãe e os dois irmãos... No entanto, percebeu que naquela mulher ainda não havia espaço para o Amor. Mas nele, essa lacuna, que sempre se mantivera calada, começava agora a reclamar preenchimento...  
Compreensivo e paciente, António soube esperar. E o tempo, o grande mestre que sempre com grande sabedoria, ora aviva saudades e lembranças ora contribui para as sepultar, ajudou a fazer o que era justo!

Um ano se passou. 
António decide-se. Com directrizes bem definidas, rectas como o seu carácter, oferece o seu amor a Diolinda. Não só o seu amor; propõe-lhe casamento, um lar, um pai para os seus filhos. 
Ela, para quem a gratidão não era palavra vã, amizade cimentada, olhos postos no futuro, seu e das crianças, aceita a proposta, enternecida.  
E assim, Diolinda encetou uma nova etapa da sua vida. Uma longa etapa, não florida pela paixão nem pelo amor cantado pelos poetas, mas assente numa amizade sólida – talvez por isso, menos efémera.
Esqueço-me das horas, empolgada pela narrativa de Carmen. As lembranças afloram à sua mente com tal rapidez, que tenho dificuldade em acompanhá-la. Os seus olhos, porém, começam a traír o seu cansaço. Sinto-me igualmente fatigada, como se eu própria tivesse feito parte desta longa jornada.
Mais uma vez lhe peço que descansemos. 
– Tem razão, minha querida; desta fonte, há ainda muita água para brotar. Não devemos bebê-la de um só trago!
E com estas palavras acertadas, Carmen se despediu.     
Já em casa, releio e organizo o que escrevi. Verifico, então, que a minha narradora, além de uma memória de elefante, tem um “sótão” tão bem arrumado que faria inveja a qualquer dona-de-casa escrupulosa. Tudo sai como novo daquelas gavetas!


Tencionava continuar a descrever-vos a rota apaixonante desta família. Apaixonante, pelo menos para mim, que aguardava ansiosamente o precioso material que Carmen me traria hoje. Mas, a minha amiga, enredada nos seus múltiplos afazeres, adiou o nosso programado encontro.
Entretanto, aproveitarei esta pausa para lhes dar a conhecer um pouco da nossa Carmen actual. 
Penso que terá à volta de uns sessenta anos. Isto, pela ligação de datas da sua narrativa. Eu, não lhe daria tantos! Os seus cabelos quase totalmente brancos, que usa lisos e apanhados na nuca, fazem um contraste interessante com os olhos escuros e brilhantes e emolduram um rosto liso que deixa transparecer ainda uma certa juventude. Não porque o pinte – é muito parca nas pinturas – mas porque espelha um optimismo nato, uma força intrínseca, um amor intenso pela vida que, segundo me disse, considera uma dádiva Divina. Pequena de estatura, é, todavia, ágil de movimentos e de raciocínio. Veste com uma elegância simples, feita menos de roupas caras, mais de harmonia de tons. Fugindo ao estilo totalmente clássico, há nela, sempre um pequeno toque de originalidade, não descurando a elegância. “O equilíbrio das cores é imprescindível ao nosso próprio equilíbrio” – disse-me um dia. 
Não se acha bonita e quando lhe dizem que o é, fica até um pouco intimidada. Sua opinião é que “À revelia das feições, a verdadeira beleza ressalta de dentro para fora; uma harmonia entre o corpo e a alma, uma tranquilidade interior, uma serenidade perante as vicissitudes, uma consciência limpa – podem dar essa aparência de beleza, sim! "
Um tanto filósofa, Carmen torna-se por vezes um pouco estranha ou, melhor dizendo, invulgar. 
A mim, a impressão que me dá é que a vida lhe tem corrido sempre muito bem. Nunca vi nela um gesto de revolta, uma palavra mais rude, um laivo de impaciência. Senhora de uma mente organizada, tem sempre um jeito amável, um sorriso nos lábios, um ar sereno e confiante. 
Deve ser – deve ter sido toda a vida – muito feliz!? 
Aguardemos então que chegue o momento de ela nos levantar o véu da sua trajectória até aos dias de hoje! 

 

 

 
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