O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 
 
I PARTE
 
Capítulo II

 
              
Corre o ano de 1928. Lisboa fervilha. O Maxime e o Fontória, cabarés da Praça da Alegria, são a “coqueluche” do momento para os amantes da vida nocturna. São os bailes de máscaras povoados de dominós, columbinas e arlequins; as mascarilhas de cetim bordadas a lantejoulas, salpicadas de purpurinas, cheias de mistério. Por vezes, mascarilha arrancada, quantas desilusões para os apaixonados... 
É a música, o champanhe, as bailarinas, o “striptease”! 
Quantas fortunas desbaratadas, quantos casamentos desfeitos, quantos lares destruídos! Quantos jovens dizimados pela tísica, contaminados pela sífilis! 
Providencialmente, 1928 é o ano em que Fleming descobre a penicilina, marcando o início da era dos antibióticos.  
Mais tarde, os cabarés foram substituídos pelas “bôites”; hoje, pelos “pub’s” e discotecas. E a Tísica e a Sífilis deram lugar à SIDA, o novo e terrível mal da actualidade. 
Ainda em 1928: É a moda do “charleston” na Europa. Correm filmes como: “A Quimera do Ouro”, de Chaplin; “Os Miseráveis”, de Fescourt; “A Viúva-Alegre”, de Von Stroheim. E o Teatro de Revista está no auge. 
E é aqui que voltamos a encontrar Carlos. Lembram-se? O menino da Rua do Século... Tem agora dezanove anos, os olhos mais negros, a boca mais sensual e, galante como nunca! Com ele encontramos Rui, “menino-bem”, filho de família rica, residência no Bairro Azul. Alto, elegante, louro, bigodinho cuidado a realçar os lábios finos e irónicos.  
Amigos inseparáveis, colegas de curso, companheiros de esbórnia e de estúrdia, bem-falantes, a mesma paixão pelas mulheres.  
Rui, um futuro tio para Carmen, como virão a saber.
 

 
Noite de estreia num Teatro do Parque Mayer!  
Azáfama nos bastidores... Papéis relidos à pressa no medo de falhar... Costureiras apressadas pregam lantejoulas, colam “aigrettes”, engomam tafetás, sacodem plumas; caracterizadores terminam as máscaras, quais pintores dando a última pincelada; cenógrafos dão os retoques finais... E as luzes, as luzes que não funcionam! Berros do ensaiador, gritos do empresário:
– Será que a casa vai encher? Será que vamos poder pagar a toda esta gente…? 
Mensageiros trazem flores e bombons para as actrizes preferidas, cartões perfumados a convidar para a ceia depois do espectáculo (para a ceia e, se possível, para a cama). 
No meio desta Babilónia, Augusta e Diolinda, dois rostos de anjo, duas almas ainda não perdidas, dois corpos de donzela. Ambas começavam já a desiludir-se com aquele mundo de faz-de-conta, aquela exploração de corpos, aquele paraíso fictício. Mas era preciso pagar o quarto todas as semanas, comer, vestir... Contudo, elas não se vendiam, embora compradores não faltassem. No seu íntimo, a “mão-de-ferro” da sua infância não as abandonara, continuava a segurá-las. E ainda sonhavam com o príncipe encantado! 
Breve as notaram Carlos e Rui. Havia nelas, escondido sob os mantos de fantasia, qualquer coisa de diferente, um “não sei quê” que não escapou ao olhar experiente dos dois jovens. Que, de mulheres percebiam eles... 
E, com eles, as belas-adormecidas desencantaram. Diolinda tomada de amores por Carlos; Augusta apaixonada por Rui. E os dois jovens conhecendo finalmente o verdadeiro amor. Amor que daria início a uma nova etapa das suas vidas. 
Rapidamente tiraram as jovens do Teatro. Seriam as suas esposas, as mães dos seus filhos! Porém, impreparados para assumirem responsabilidades, cursos nunca postos em prática, bolsas devastadas, iniciaram vidas bem difíceis. Os pais não acreditaram na sua intenção de assentarem. Para mais, com duas coristas...  
– Nem dinheiro nem casa! – Disseram, implacáveis. 
Aqui, as duas irmãs voltam a separar-se. Cada uma lutando à sua maneira para salvar o seu amor, que era afinal o único tesouro que possuíam. Tesouro bem pobre quando não existe pão...    
Carmen esforça-se por ressuscitar mais lembranças das memórias de sua mãe. Digo-lhe que descansemos, que façamos uma pausa, pois deve estar esgotada. 
– Ainda não – responde-me. – Há muito que eu queria testar as minhas lembranças, desenterrar velhos fantasmas, libertar, talvez, alguns remorsos pela incompreensão juvenil com que afrontei várias vezes minha mãe. E para isso preciso de si, minha amiga, para me ajudar a coordenar as minhas lembranças desordenadas. 
– Prossigamos então, sou toda ouvidos!
Carmen, a minha preciosa confidente, continua a desenrolar para mim os seus novelos. Tento descodificar as suas palavras, pois chegam-me, por vezes, um tanto embargadas pela comoção. 
Começa, então, para Diolinda e Carlos a rota pelos quartos alugados, as partes-de-casa, o credo na boca quando chegava o último dia de pagar o aluguer. E Diolinda já grávida do seu primeiro filho que, para não fugir à tradição da época, se viria a chamar Carlos como o pai. Mas não apenas Carlos, e sim, Carlos Alberto, o que nos vai ajudar, a mim e a vós, leitores, a não os confundirmos. 
Foram tempos duros. Carlos fazia escritas para várias firmas, arranjava empregos com facilidade. Além do curso que seus pais lhe haviam legado, era inteligente, inventivo, senhor de um expediente a toda a prova. Porém, os vícios da juventude ainda persistiam nele. Noitadas, mulheres, jogo, e amigos com quem dissipava tudo o que ganhava, deixando Diolinda e o filho já nascido, à espera do sustento. As esperas da companheira, não raro por vários dias e noites, eram pacientes. A paixão ainda era grande.  
– Estive no Porto, querida, trabalho importante que me fez ganhar bom dinheiro! – Explicava Carlos quando voltava.  
O certo era que enquanto esse dinheiro durava Carlos não aparecia. Mas à chegada, cobria Diolinda de beijos, saudoso e apaixonado. E, curioso, sempre com um presente para ela – flores, bombons, meias de seda.  
– Não é disto que preciso, nem eu nem o nosso filho! – Insurgia-se Diolinda, mais madura, brigando por uma vida estável.  
– Temos de alugar uma casa! Tens de aceitar um emprego fixo, um ordenado certo todos os meses! – Dizia-lhe, meio sufocada entre os seus braços.
Recordo-vos que Diolinda tinha então vinte e seis anos e Carlos apenas vinte. Própria da sua imaturidade e do seu espírito sonhador, era a resposta que ele lhe dava:  
– Não te preocupes, querida, eu ganho o dinheiro que quiser, hei-de cobrir-te de jóias, e não é uma casa que quero para nós, há-de ser um palacete!  
E Carlos afogava-lhe as frustrações com beijos, com devaneios, com a sua eterna sedução! E nessa confusão de sentimentos, mais filhos iam sendo gerados. 
Porém, emprego fixo, ordenado certo, horários a cumprir, nada mais abominável para Carlos. Tudo isso era demasiado vulgar para ele. Era um ser livre, o risco e a aventura corriam-lhe no sangue. Vivia no limite, mas era um prazer sentir que a sua inteligência, a sua argúcia para tornear situações, a capacidade que possuía para arranjar colocações vantajosas, eram inexcedíveis. E assim foram decorrendo os anos... Carlos fazia esforços para dominar a sua natureza. Aceitava o tal emprego fixo, o tal ordenado certo. Mas breve se libertava dos grilhões e das “casas burguesas” que montava para agradar à mulher que amava. A casa dele era o mundo! Queria ser empresário, montar o seu próprio negócio, trabalhar por conta própria, sem donos, sem grilhetas. 
Contudo, Diolinda continuava a ser o seu grande amor. Creio que o único, tal como ele foi o dela! Além disso, Carlos adorava filhos, queria todos, todos os que o “destino” lhes enviasse. A seguir a Carlos Alberto veio Vítor Manuel, depois, Fernando José e, por último, Carmen. Irão saber mais tarde como não ficou por aqui a descendência de Carlos... 
Sobre esta já numerosa família, pesavam, como um desígnio cruel, dia a dia, mais revezes. Como é fácil de adivinhar, sendo Carlos um espírito livre e inconformista, não pactuava com o vigente regime de Salazar. Várias vezes suspeito de acalentar ideias subversivas, não escapou a diversas detenções levadas a cabo pela então PVDE (mais tarde denominada PIDE).   
Diolinda tudo suportava, dividindo-se entre as crianças e as visitas prisionais. Mas, seus filhos passavam necessidades. Quantas vezes Diolinda se deitou sem comer para os alimentar frugalmente. E, para os adormecer, cantava-lhes, à mistura com lágrimas, velhas canções, reminiscências da sua fugaz passagem pelo mundo do Teatro:
 
Maria,
são teus olhos azeitonas,
Cachopa,
os teus lábios  quais cerejas...
          ...
As rosas
são as flores
que aos amores
tecem ninhos
de desejos...
 
Adormeciam os pequenos, e as mágoas de Diolinda, também.  
A dada altura, já Carlos Alberto, o primogénito, tinha sido entregue aos cuidados dos avós paternos. Melhor dizendo, aos cuidados do avô, que a avó Clotilde nunca tivera jeito nem tempo para crianças. Diolinda vira-se obrigada a pedir-lhe ajuda. Alma nobre, o avô oferece-lhe a casa. Porém, só a ela e ao neto! A Carlos não perdoara ainda. Diolinda não aceitou. Ainda não estava preparada para abandonar o amor da sua vida. Ficaria somente o menino.  
Sensata, embora com grande desgosto, lá deixou o seu primeiro filho. Sabia que nada lhe faltaria e essa certeza consolava-a.  
O avô Manuel adorava o neto. E como não pactuava com a vida mundana de que a mulher gostava, era com o pequeno que dava grandes passeios. Vestia-o como a um príncipe, todos os mimos eram poucos para Carlos Alberto. E pô-lo a estudar até frequentar o liceu. Até que...
Voltaremos mais tarde a Carlos Alberto – o mais mimado, o mais bem-criado de todos os irmãos, pelo menos na primeira infância. Contudo, não obstante os bons princípios, um trágico fim... 
A vida de Augusta também não corria bem. Rui, trajectória idêntica à de Carlos, perde-se entre o jogo e as amantes. O filho varão morre de tifo, ainda criança. Lurdes, a filha, sobrevive para experimentar a dureza da vida. 
Augusta, filho morto, mas sempre corajosa e lutadora, abandona Rui e parte com a filha, fixando-se no Alentejo. Aluga uma casa enorme e subaluga quartos, desenvolvendo um negócio próprio como dona de uma pensão. Mais tarde, também de um café. Aí, conhece um pintor, homem extravagante, espírito de artista, que adorava Augusta e que soube decerto fazê-la feliz, pois juntos viveram até ele falecer. Entretanto, Lurdes...   
Carmen interrompe-se para me mostrar um quadro do dito pintor que apenas conheceu por fotografia.  
– Pedi-o à minha prima Lurdes para lho mostrar, faz parte das recordações que a tia Augusta deixou ao abandonar este mundo.   
Admiro, então, as belas cores de uma paisagem alentejana. 
– Nunca ouvi que chegasse a ser famoso – diz-me Carmen.  
– Mas, Carmen, quantos artistas conseguem ser famosos neste país? Menos ainda há sessenta anos! – Não pude deixar de exclamar. 
Mas, continuemos: 
Diolinda continua a lutar pela união da família. Como lhe doía ainda o deslaçamento dos seus elos de menina! Todavia, como uma maldição que tivesse sido lançada sobre várias gerações, a história teimava em repetir-se.          
Diolinda, desgastada, doída e sem forças, após doze anos de luta, renuncia ao seu amor e separa-se de Carlos, levando os filhos consigo. Como já se disse: “Amor… Tesouro bem pobre quando não existe pão!” 
E pão, pão era o que ela, mãe por excelência, queria para os seus filhos. Acima da sua suposta felicidade, do seu sonho de amor!  

 

 

 
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