O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 
 
"O homem de acção raramente escreve o seu diário;
é quase sempre mais tarde,
do fundo de um período de inactividade,
que ele recorda, anota e,
na maior parte dos casos, se espanta."

(Marguerite Yourcenar)
 
 
 
I PARTE
 
Capítulo I

 
 
Chamar-lhe-ei Carmen, pois era esse o desejo de seu pai. Porém, na hora do registo, aproveitando a ausência do progenitor, a madrinha, religiosa convicta, dera-lhe o nome da santa da sua devoção (Nossa Senhora do Carmo). E com esse nome santificado vem atravessando a vida. Quem sabe se também com a sua protecção...
Seu pai escolhera-lhe o nome em memória da irmã Carmen, cedo falecida. Esta, por sua vez, fora assim baptizada em homenagem à célebre ópera de Bizet. A família, de raiz aristocrática pelo lado de sua avó, fixou residência na Rua do Século, em Lisboa. O avô Manuel, linotipista no Jornal “O Século”; a avó Clotilde e a tia Carmen que dividiam o seu tempo entre as modistas, as óperas no Teatro São Carlos e os chás na Pastelaria Bénard; e Carlos, o benjamim da família, cujo nome lhe fora dado em honra do teatro de que elas tanto gostavam. Carlos, que viria a ser o pai da nossa protagonista.  
O menino crescera, a bem-dizer, aos cuidados de uma criada velha, entre as ausências do pai, que trabalhava de noite no Jornal, e as da mãe e da irmã, que se pavoneavam pelo Chiado. Família de meios, deram-lhe um curso de Guarda-Livros (hoje, Contabilista) que mais tarde lhe valeu para sobreviver. Não na juventude, que essa era pouca para gozar a vida! Jovem da sociedade, foi desbaratando a fortuna da família entre o Casino do Estoril, o Parque Mayer e os cabarés da Praça da Alegria.
Vejo lágrimas nos olhos da minha amiga quando me fala do pai.
Baixa estatura, moreno, grandes olhos negros, lábios cheios e sensuais, uma inteligência muito acima da média, um humor subtil, quase britânico, uma ironia fina, um desprezo exagerado pelos bens materiais; um conversador nato, uma alegria transbordante, um amante inveterado, um sedutor. Um “gentleman” e um “play-boy”. Não obstante, um coração do tamanho do mundo!
De Carmen ainda não posso falar-vos, pois ainda não nasceu.
Mas falarei de sua mãe.
Chamava-se Diolinda. E era linda, segundo consta. Duma beleza serena, quase envergonhada, pele morena, feições de “biscuit” traídas apenas pelos olhos grandes e negros, longas pestanas, cabelos da mesma cor. Altura média, silhueta elegante. Alma tímida e recatada. Um receoso respeito, para não dizer medo, pelo pai a quem devotava uma cega obediência. Augusto, assim se chamava o progenitor, era funcionário público num Ministério do Terreiro do Paço, em Lisboa. Senhor de grandes bigodes encaracolados, fazia tremer a vizinhança da Rua das Janelas Verdes, onde morava, que o apelidara de “O Mão-de-Ferro”. Isso, pelo rigor com que tratava a mulher, Maria do Rosário, e as filhas.
Diolinda não era filha única. Lucrécia Augusta, a mais velha, Prazeres e Diolinda, as do meio, Celeste, a mais nova. Porém, como eram diferentes! E a “mão-de-ferro” de Augusto, ao contrário de manter firme a família, é a alavanca que a faz desmoronar.
Carmen relata-me como sua mãe Diolinda contava, dando como exemplo o avô Augusto: – Se eu e as minhas irmãs, distraídas, nos esquecíamos de lhe beijar a mão quando chegava a casa, ele nada dizia, mas à mesa do jantar encontrávamos o prato voltado. Sinal de que sem beija-mão não teriam direito à refeição. Rápido se lhes avivava a memória. Trocavam afagos por comida, não havia carícias gratuitas! Estávamos em 1900...
Só hoje, Carmen percebe como o berço é delineador do carácter. E porque sua mãe, tão humilde e doce na juventude, se tornou tão dura, tão dominadora, tão avara de beijos.
Maria do Rosário, a esposa, vítima submissa da prepotência de Augusto, um dia revoltou-se. Afrontando os preconceitos da época, que não perdoavam a Mulher rebelar-se, abandonou o marido e procurou nos braços de outro a compreensão e o carinho que lhe faltavam. Augusto foi duro e intransigente. As filhas ficariam com ele! Maria do Rosário proibida de tentar sequer vê-las. 
Se a mãe alcançou ou não a felicidade sonhada, Diolinda nunca o soube. Era muito pequena. Mas guardou na lembrança os doces e os mimos que a mãe lhes levava às escondidas de Augusto. Se Maria do Rosário conseguiu ser feliz, a sua ventura foi de curta duração. Morreu pouco depois, com apenas trinta e nove anos, tinha Diolinda somente nove. Da nova relação deixou outra filha – Isaura – que veio aumentar o número de tias de Carmen.
Carmen interrompe-me a escrita. Mostra-me retratos dos avós, da mãe e das tias quando meninas. Vestidos compridos, rendas alvas, grandes babados, chapéus com plumas, maiores do que os seus pequeninos rostos, rostos de meninas tristes e infelizes a quem não deixaram ser crianças.
Depois, sorrindo, relembra uma das muitas travessuras que sua tia Augusta – a única que se atreveria a tal – costumava fazer quando moça. Impedida até de assomar a uma janela, tinha o hábito de subir aos telhados, tal a ânsia de ver o mundo lá fora.
Um dia, seu pai regressou mais cedo do Ministério. Talvez para apanhar as filhas de surpresa... Augusta quase é surpreendida. Valeu-lhe uma vizinha que avistando Augusto ao fundo da rua a avisou: “Augusta, vem aí o teu pai!” Veloz, a menina abandona o telhado, entra por uma clarabóia, daí para o sótão da vizinha, esgueirando-se para casa mesmo a tempo de dar o beija-mão ao pai. Tão pronta que Augusto franziu o sobrolho, desconfiado.
Sem o esteio da mãe, Lucrécia Augusta, a mais viva e rebelde, a mais avessa a preconceitos, foi a primeira a abandonar o pai e a sua tirania. Que fazer porém, sozinha num mundo a descobrir, mundo do qual seu pai a isolara?
Mas Augusta só sabe que se sente finalmente livre. Livre para admirar o mundo no seu plano horizontal. Todavia, como ele era diferente de quando o tinha a seus pés, saltitando pelos telhados como uma corça, sonhos mais perto do céu...
Estudos, não tinha. Só de piano, a pouca instrução a que tivera acesso, e mesmo essa sob a vigilância do pai que a ia levar e buscar à professora que lhe dava as lições, o mesmo acontecendo com a irmã Prazeres.
– Pobre tia Prazeres! – Deixa escapar Carmen, que não chegou a conhecê-la. Ceifada pela morte, tão nova, vítima de febres mal explicadas na época. Foi sepultada vestida de noiva, no dia em que deveria casar-se.
Mas, voltando a Augusta. Já devem ter reparado que eliminei o “Lucrécia”, nome que ela abominava. Tão cedo foi senhora de si, logo ela mesma o eliminou. E foi simplesmente com o nome de Augusta que entrou para o teatro de Revista. Tendo como única moeda de troca a sua beleza e o espírito alegre e ávido de movimento, foi o primeiro caminho que a liberdade lhe ofereceu.
De Celeste, a mais nova das filhas de Augusto, Carmen pouco sabe da sua juventude. Separada das irmãs e entregue aos cuidados duma madrinha logo após a morte da mãe, só muito mais tarde apareceu. Talvez ainda possa falar-lhes dela, se Carmen tiver coragem para o fazer. Por enquanto, só posso dizer-lhes que a vida não lhe sorriu.  
E assim, desmembrada a família, só restava Augusto e a filha Diolinda, menina assustada e submissa, a única que acompanhou o pai durante mais tempo. Levada com ele para um novo casamento, foi acabada de criar por uma madrasta, senhora requintada, mas que nunca foi capaz de a amar como mãe, pois também ela já possuía uma filha – Carlota – que era a luz dos seus olhos. Para essas duas mulheres, Augusto abriu a sua “mão-de-ferro”. Diolinda e Carlota foram amigas enquanto crianças, amizade que se perdeu no tempo, pois a madrasta, subtilmente, foi marcando as diferenças. Nunca os privilégios foram iguais. Enquanto Carlota ia prosseguindo os estudos, inclusivamente de música, Diolinda ajudava na costura e nos bordados, para os quais, diga-se de passagem, tinha umas mãos de ouro. Até que Augusto, instado pela nova esposa, concorda com a ideia de Diolinda se empregar como balconista nos Grandes Armazéns do Chiado. Era, segundo ela, um emprego decente e honesto, próprio para uma rapariga séria. E sempre podia ajudar ao seu sustento...
Augusta continuava no Teatro. O pai quando o soube, através de amigos, respondeu: “Não tenho nenhuma filha com esse nome!” E, mesmo riscando-a da sua vida, não conseguiu nunca engolir a sua vergonha.           
 


Um dia, fazendo compras no Chiado, Augusta reencontrou a irmã Diolinda, da qual se separara mas que nunca esquecera. Informada da sua vida, mais uma vez a sua rebeldia, a sua revolta, vieram à tona. 
– Não consinto! – Exclamara. – Como podes submeter-te dessa maneira? Vens viver comigo! Aluguei um quarto. Vais também para o Teatro, tornar-te-ás independente – dissera-lhe Augusta, enquanto lhe desvendava a vida de sonho que era ser actriz.
Porém, Diolinda, dona de uma vontade amarfanhada, reflexo de vinte e três anos de dominação, não sabia insurgir-se e sentia-se incapaz de dar tal passo. Seria mais uma vergonha para seu pai... Não! Era superior às suas forças! 
Continuou no seu emprego e, enquanto em casa costurava vestidos e chapéus para o enxoval de Carlota, prestes a casar-se, o seu coração balançava entre a agulha e o sonho. A irmã trouxera à superfície frustrações e desejos recalcados e, em silêncio, Diolinda interrogava-se: “Ir para o Teatro? Tentar um novo rumo? Conhecer outro mundo, quem sabe, o seu príncipe encantado…?” E dentro de si, a diferença de privilégios ia tomando vulto, crescendo, crescendo... 
Certo dia, um daqueles dias em que não conseguimos conter mais mágoas, Diolinda aventurou-se. Em vez de voltar para casa, procurou Augusta, que a recebeu de braços abertos, disposta a mostrar-lhe um mundo novo, um mundo que Diolinda nem em sonhos vislumbrava. 
Foi assim que Diolinda também ingressou no Teatro. Só a ousadia da irmã, mulher de espírito aberto, “avant-garde” – atributos raros naquela época – foi capaz de a levar a tal. Todavia, com que dificuldade...      
Augusto, ao saber disso, não quis acreditar. Augusta, vá que não vá, sempre fora rebelde, mas Diolinda, a mais dócil, a mais submissa das suas filhas, a personificação da obediência, uma boca calada, umas mãos de ouro... Não, não podia ser! Devia haver algum engano. Só vendo com os seus próprios olhos...


Ouvem-se as pancadas de Molière... As coristas, nervosas, espreitam a sala pelo buraco do pano... Augusta grita: 
 – O pai! O nosso pai está na primeira fila! 
Diolinda recusa-se a entrar. O director de cena empurra-a, sobe o pano... E Diolinda, o rosto puro desvirtuado pela maquilhagem, as pernas nuas, dança, dança... A cabeça rodopia-lhe no desvario da vergonha; sob o atavio das plumas tenta esconder o rosto e o corpo seminu, na esperança de passar despercebida; vacila, quase desmaia... Felizmente, as luzes de cena não a deixam ver a plateia e, cega, Diolinda dança o pior bailado da sua vida.
Fim da primeira parte. Cai o pano. E com ele tomba também o último elo de ligação de Diolinda com as suas origens. 
De novo, as pancadas de Molière... 
Mas quando o pano sobe já um lugar tinha ficado vago na plateia. Vago um lugar na assistência; vago, mais um lugar no coração de Augusto! 
Contava-se à data, que a partir daquela noite Augusto nunca mais voltara a ser o mesmo. A sua “mão-de-ferro” voltara-se contra o próprio rosto!         
A minha narradora está cansada. Cansada e emocionada.       
– Pobre mãe, como deve ter sofrido! – Desabafa, Carmen. 
– Continuaremos noutro dia – sugeri. 
Carmen concordou. 
Descontraímos com um café e um cigarro e só depois nos despedimos, marcando novo encontro para breve. 
Já a sós, pensei: “Espantoso! Como Carmen guardou tão antigas memórias de sua mãe! Dir-se-ia que as absorveu quando ainda no ventre materno...”

 

 

 
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