O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 

II PARTE
Capítulo IX

 

E eis-nos chegados aos anos setenta. 
Já o primeiro homem tinha caminhado na Lua. “Um pequeno passo para um homem, um salto de gigante para a Humanidade”, disse o americano Neil Armstrong quando, em 21 de Julho de 1969, pôs o pé no Mar da Tranquilidade, em pleno solo lunar, perante 600 milhões de telespectadores – um quinto da população mundial, na altura. O “pequeno passo” que permanecerá para sempre gravado na consciência colectiva do Universo. 
E, enquanto milhões de dólares são despendidos nesta invasão do Espaço, o martirizado povo do Biafra morre de fome, sucumbido por uma guerra que desde 1968 já roubara à vida a mais de dois milhões de seres humanos.  
Em Portugal, avizinham-se tempos de viragem política. No povo acende-se uma centelha de esperança. Salazar, o político que mais tempo exerceu o poder em Portugal durante o século XX, morre em 27 de Julho de 1970, em consequência de um acidente que lhe provocou problemas cerebrais irrecuperáveis e que já o mantinha afastado do Governo desde 1968, ano em que lhe sucedeu Marcelo Caetano.  
 Para além de algumas novas medidas “espectaculares”, como a implantação das pensões de reforma e as “conversas em família” através dos ecrãs da televisão, o novo governante pouco mais deu aos portugueses. O mesmo regime de ditadura, a mesma polícia de repressão, os mesmos salários de fome, continuavam. E o povo precisava de mais, muito mais.  
Carmen também precisava de mais, muito mais...  
O ano de 1970 rouba-lhe mais um ente querido. Desta vez, o seu padrasto. Felizmente, uma morte tranquila, sem sofrimento – um coração cansado que, simplesmente, deixa de pulsar. Chamada à pressa por sua mãe, Carmen corre para despedir-se daquele que tinha sido o seu verdadeiro pai e a quem ela amava como tal. Mas, nunca a morte esperou por ninguém, e quando Carmen chega já ele havia partido para sempre. Diolinda, sessenta e sete anos gastos, está como que paralisada ante a perspectiva da  futura solidão. Não esperava perder de repente o companheiro de tantos anos, vê-lo partir antes dela.  
Eduardo, que entretanto casara e já era pai de dois filhos, mora longe, fora de Lisboa. Demora a chegar. E é preciso agir, tratar do lado prático que nem mesmo a morte dispensa. Carmen telefona ao sogro, habituado que fora, quando auxiliar de enfermagem, a lidar com os trâmites que a situação impunha. Ele chega num ápice para ajudar naquela hora aflitiva.  
– Temos de ser rápidos! O corpo começa a arrefecer. Temos de o vestir sem demora, fechar-lhe os olhos, amarrar-lhe os queixos. Depressa, Carmen! 
Carmen quase impede sua mãe de chorar. 
– Vamos, mãe! O fato, a camisa, a gravata... 
Diolinda, atarantada, faz questão de passar a ferro as últimas peças de roupa que seu marido vestiria. 
– Para que é isso? – Diz Simão. – Vamos ter de as rasgar para as conseguirmos vestir...   
Carmen reveste-se de coragem e, lado a lado com o sogro, cerra para sempre os olhos de seu “padrinho”, aqueles olhos azuis que jamais a envolveriam com a sua doçura; passa-lhe um lenço sob os maxilares e aperta-lho com um nó sobre a cabeça. Um pensamento atravessa-lhe a mente: “Como ficam ridículos os mortos, de queixos atados!...” Depois, veste aquele corpo enorme que teimava em ficar hirto; ajeita-lhe a gravata, dobra-lhe os braços, os mesmos braços que tantas vezes a seguraram no colo; e, finalmente, cruza-lhe as mãos sobre o peito. Era a sua última homenagem, a sua última prova de amor, o mínimo que podia fazer por aquele que tanto fizera por ela. Só depois, Carmen chorou. 
Ao reler este episódio, não posso deixar de constatar uma ideia que há muito perfilho: Carmen é uma mulher de acção. Para ela, a acção, quando imperiosa, vem sempre primeiro, ainda que muito lhe doa. Só depois se deixa tomar pela emoção, se dá o direito de sofrer. E o tempo nos mostrará a veracidade desta afirmação... 
Pedro anda já pelos sete anos. Frequenta a 1ª. Classe da Instrução Primária. Não na Escola Oficial, mas num estabelecimento de ensino particular. Esta escolha de Carmen não se devia a snobismo. Ela apenas lembrava de como tinha aprendido eficientemente as matérias frequentando a Escola Particular da D. Ermelinda. Menos alunos, mais atenção, mais disponibilidade para cada um deles. 
Pedro aprendia com facilidade. Era meticuloso, arrumado, e demonstrava uma particular aptidão para o desenho, tendência herdada de seu pai. Jorge era um técnico nato. Desenhava os móveis que pretendiam adquirir, fazia ligações eléctricas, construía até pequenos acessórios para a casa. E, consertava de imediato tudo o que se avariava. Mas, não tendo terminado o desejado curso de engenheiro, vira-se obrigado a aceitar a primeira oportunidade de emprego que lhe aparecera – vendedor comissionista de uma firma de bebidas espirituosas. A sua frustração acentuava-se! Começou a beber, por vezes mais do que a conta. E a conta para ele tinha de ser pequena. A sua estrutura orgânica suportava mal o álcool, sobretudo as misturas. Tornava-o ora agressivo ora deprimido, e mais desconfiado – se é que mais era possível. Frequentemente, chegava a casa ao fim do dia e deitava-se de imediato, às escuras, sem uma palavra. Carmen perguntava: 
– Que tens?  
– Nada. Deixa-me!
– Não vens jantar? 
– Não! Deixa-me em paz! 
Carmen sentava-se na cama, a seu lado. E insistia: 
– Passou-se alguma coisa lá no emprego? Conta-me! 
– São todos uns pulhas! Uns pulhas! Cambada de cabrões! Mas eu dou cabo deles! Dou cabo deles! 
E a sua ira estendia-se a Carmen, empurrando-a violentamente para que o deixasse sozinho. O cheiro a álcool era denunciador. Ela saía do quarto, fechava a porta. Era inútil tentar acalmá-lo, fazer-lhe um carinho, sequer insistir em compreendê-lo. 
O pequeno Pedro perguntava: 
– O papá está doente?  
– Não, meu filho, está cansado. Dói-lhe a cabeça. Vamos jantar que ainda tens de fazer os trabalhos da escola. 
– E o papá não janta? 
– Janta mais tarde, quando se sentir melhor.  
Carmen disfarçava a sua tristeza e, pondo um ar despreocupado, sentava-se à mesa com o seu único companheiro. Enquanto jantavam, Pedro falava da escola, dos deveres que trazia para fazer, dos que tinha feito durante o dia, das brincadeiras do recreio. Na garganta de Carmen enrolavam-se alimentos e lágrimas recolhidas. Findo o jantar, dizia a Pedro:  
– Vai agora fazer os teus trabalhos enquanto a mamã arruma a cozinha. 
– E não me vens ajudar? 
– Se tiveres alguma dúvida, eu depois ajudo-te.  
Trabalhos feitos, mochila arrumada para o dia seguinte, Carmen metia o filho na cama, juntos faziam “o sinal da cruz” que ela lhe havia ensinado e, após o habitual beijo de despedida, Pedro adormecia como um anjo. Depois… Carmen ficava entregue à sua solidão, à sua solidão e aos seus pensamentos. Há muito que perdera até a vontade de ler. Só pensava. Pensava no marido, tão infeliz! Pensava nela, tão só, tão entregue a si mesma! Pensava no filho e como ele devia sentir a falta de um pai, isto é, de um pai que conversasse com ele, lhe contasse coisas da sua meninice, que inventasse jogos, risse com ele... Não! Rir já era pedir demais, que rir era coisa que o pai não sabia fazer.  
E Carmen pensava: “E se nos separássemos?...”  Mas logo desistia. Ela sabia que Jorge jamais iria concordar. Servir-se-ia do filho para a prender. Por outro lado, sem ela tornar-se-ia num ser ainda mais infeliz. Depois, pensava, ainda: “E como reagiria Pedro? Seria mais uma dessas crianças traumatizadas pela separação dos pais?...” Carmen buscava a solução ideal, aquela que não magoasse ninguém... Buscava o impossível! Pensava, pensava, mas os seus pensamentos não faziam mais do que rodopiar em círculos. Círculos que sempre se fechavam, deixando-a aprisionada, sem saída.         
Um dia... como me pesa relatá-lo! Impõe-se, porém, um pequeno preâmbulo. 
Diolinda, viúva, filhos distantes, era agora uma mulher muito só. Habituada que fora a ver a casa cheia, quase não a suportava de vazia. Não tinha paciência para fazer uma única refeição só para si. Perdera o gosto pelas roupas, pelos adornos; ela sempre tão cuidadosa com o seu aspecto! Iludia a solidão pelos cafés e pastelarias, falando com outras idosas solitárias, e alimentava-se de sanduíches, bolos e galões. Vieram-lhe, a diabetes, a tensão alta, as noites de insónia, a gordura excessiva e balofa. Só na última e a insistências de Carmen ia a uma consulta médica. A pensão que António lhe deixara não era gorda mas dava para a sua frugal alimentação e para os medicamentos. A renda de casa era barata e em água e luz pouco gastava. O telefone, talvez a despesa maior. Todos os dias telefonava à filha, fazia-lhe as suas queixas. O relacionamento entre elas estreitou-se. Carmen até já tratava a sua austera mãe por “tu”, tratamento que não havia minorado o respeito, apenas se tornara mais íntimo. Sempre que podia, Carmen aproveitava a hora do almoço para estar com ela, dar-lhe um pouco de conforto. Comiam juntas, conversavam. Mas o tempo era tão pouco, e os dias são tão longos para quem vive só... Contudo, até esses breves encontros Carmen escondia de Jorge, para evitar contendas. Até a mentir se via obrigada, ela que detestava a mentira! A sua vontade era levar a mãe para junto de si e do neto, mas Jorge nunca aceitaria tal coisa. O vê-la por lá de visita, raramente, já dava azo a discussões. E Carmen ocultou-lhe esse desejo, como lhe ocultava tantos outros. Só com ocultações, mentiras e dissimulações, ela conseguia alguma paz. Mas começava a detestar a deterioração da sua personalidade, era como se olhasse no espelho e não se conhecesse.  
Num daqueles almoços clandestinos entre mãe e filha, Diolinda desabafou:  
– Aborreço-me sem fazer nada, os dias são tão longos, parece que as horas não passam... Como gostava de poder ajudar-te, tu que trabalhas tanto, ainda com o serviço da casa depois de matares a cabeça no emprego... Fazia-te uma sopa para o jantar, engomava-te alguma roupa e ia-me embora antes que o teu marido chegasse... 
– Porque não, mãezinha, se isso te dá gosto e a mim até me faz jeito? A porteira tem as chaves, voltas a pô-las lá quando saíres – sugeriu Carmen, pensando sobretudo em como ajudaria sua mãe a sentir-se útil, a queimar os tempos mortos. 
E foi nesse dia – dia em que Jorge nem chegou a ver a sogra – que o pior aconteceu. 
Chegados a casa, a panela quente sobre o fogão e a pilha de roupa passada a ferro denunciaram a presença de alguém “estranho” à casa. 
– Quem esteve cá? – Pergunta Jorge, de olho virado. 
Carmen enfrentou-o: 
– A minha mãe, porquê? Só veio ajudar. Adiantou o jantar, engomou a roupa. 
– Como entrou? Quem lhe deu as chaves? 
– A porteira, quem havia de ser? 
Jorge corre a tirar satisfações à porteira. Recrimina-a por ter dado as chaves da “sua casa” sem a autorização dele. 
Carmen tenta chamá-lo à razão. Insurge-se: 
– Mas quem sou eu aqui? Não me tens o mínimo respeito? 
E, palavra puxa palavra, rastilho sobre rastilho, se incendeia a discussão. Palavras que Carmen prefere não repetir hoje, nem mesmo para mim. Palavras que, dessa vez, Carmen não pôde evitar que seu filho ouvisse. 
Jorge, possesso, empunha uma faca de cozinha em direcção a Carmen. Ela recua, encosta-se a uma parede. 
– Eu furo-te! – Berra Jorge, tomado de fúria demoníaca, encostando-lhe a lâmina ao peito. 
Por segundos, Carmen viu a morte à sua frente. Tremiam-lhe as pernas, dobravam-se-lhe os joelhos, batia-lhe o coração descompassado, mas, impulsionada por uma força que dir-se-ia sobre-humana, ou apenas por um forte instinto de defesa, olhou seu marido bem nos olhos e, arvorando uma fortaleza que interiormente não sentia, desafiou-o: 
– Fura se és capaz! Fura!  
Desarmado, Jorge baixou a faca. E a mulher, aquela “frágil mulher”, arrancou-lha das mãos. 
Carmen não se lembra de ter ouvido nem mais uma palavra. 
Pedro chorava, assustado. Tentou acalmá-lo: 
– Não chores, Pedro. Não é nada! Não vês que a mamã está bem!? 
E, num relâmpago, pega a carteira e o casaco, enfia um sobretudo no pequeno, e abala porta fora – filho ao colo, fortemente estreitado ao peito.

 

 

 
Livro de Visitas