O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 


II PARTE
Capítulo VIII

 

Carmen, apesar dos múltiplos afazeres entre os quais se divide – a família, as traduções e revisões literárias, a sua poesia, as tertúlias culturais – sempre arranja tempo para os nossos encontros, que mais não são, afinal, do que encontros consigo mesma – desdobramentos da criança, da jovem, da mulher que foi; também da mulher em que se tornou. Factos, sentimentos e emoções, novelo de fios enredados, amarelecidos pelo tempo – uns de textura macia, outros de grande aspereza – que eu e ela, como dois operários laboriosos, destrinçamos e tecemos, em páginas ora de seda ora de estopa.  
O pequeno Pedro começava já a dar mostras de uma grande sensibilidade e de um forte apego à mãe. Deixado no Jardim-Escola todas as manhãs, era com grande esforço que a educadora o arrancava dos braços de Carmen, lavado em lágrimas. Como custava a ambos aquela separação! Carmen corria para o emprego e, embora repetisse para si mesma que estava fazendo o melhor, os soluços do seu menino travavam-lhe a caminhada. Como o colégio fechava às quatro da tarde, era o avô Simão que, diariamente, ia buscar Pedro, levando-o para sua casa, onde ficava aos cuidados da avó Rosalina até que Carmen e Jorge, findos os horários laborais, o pudessem levar com eles de volta a casa. Durante as férias colegiais, Pedro ficava em casa dos avós o dia inteiro, mas Carmen corria a vê-lo à hora do almoço. O pior era quando saía de novo! O pequeno sempre ficava em lágrimas, e em lágrimas a mãe se despedia dele. 
Simão adorava o neto. Foi ele que lhe comprou o primeiro cavalo de “pasta”, o primeiro triciclo. Chegou até a comprar um gravador portátil para gravar as ainda mal pronunciadas palavras de Pedro, entoando as canções que aprendia no colégio. Era ele que lhe pegava ao colo, que lhe pedia um beijo. Rosalina, com o seu jeito rude, cuidava do menino da mesma forma que sempre cuidara do filho – mesa farta, escassez de ternuras.   
Quando chegava Setembro, uns dias de férias na aldeia beirã eram obrigatórios. Era a época das vindimas! Toda a família – a da cidade e a da aldeia – se unia para colher os saborosos bagos de cor violeta e oiro. Partiam em bandos, manhãzinha, nos carros de bois ou a pé, para as vinhas mais próximas. Lenços na cabeça, chapéus de palha, a merenda, bilhas de água, garrafões de vinho da colheita anterior. Enquanto iam cortando os cachos, empunhando grandes tesouras de vindimar, homens e mulheres da aldeia, onde todos são primos e primas, ora cantavam ora trocavam graçolas picantes que os faziam desabar em gargalhadas cristalinas como as fontes que corriam perto. Por perto tinham também de estar: o naco de pão, a sardinha frita, as canecas de barro e os garrafões do precioso néctar que eles não dispensavam. A linguagem, Céus! Era de fazer corar as pedras da rua! Mas tão espontânea e natural, tão característica do seu habitat! E entre risos, cantigas e múltiplas goladas de vinho, se iam curvando os dorsos e enchendo os cestos. À tardinha, “rodilhas” e cabelos ensopados do sumo violáceo, as mulheres carregavam à cabeça os cestos cheios, para os despejarem nos carros de bois que, por sua vez, os levavam para as adegas. Para trás ficavam as vinhas, nuas, decepadas. 
Os sogros de Carmen tinham uma bela casa, em comparação com as velhas e desconfortáveis construções locais feitas de pedra dura e negra. A casa primitiva, herança de pais para filhos, tinha sido o berço de Rosalina, e lá enviuvara sua mãe Gertrudes, do pai desaparecido em França durante a 1ª Grande Guerra. Mantendo a traça original e a frontaria de pedra, Simão mandara-a remodelar, dando-lhe as comodidades interiores indispensáveis a quem estava habituado às casas da cidade. Era uma construção de dois andares, que sobrepunham as lojas e a adega, servidos por uma escada exterior. No rés-do-chão, tinha sido mantida a adega e as duas lojas onde se armazenavam batatas, cebolas e feijão. Aí, agora inúteis, as arcas de madeira onde noutro tempo se guardava o pão feito no forno da casa, a farinha de milho para as “papas de hortaliça” e os restantes víveres. No primeiro andar, onde outrora funcionava uma desmesurada cozinha velha sem água corrente nem luz, estava instalada agora uma sala de refeições com lareira, uma cozinha modernamente equipada e uma casa de banho, ambas servidas por água corrente. No segundo andar da casa, três quartos de dormir e duas enormes salas de estar. Estas, iluminadas por janelas de guilhotina, de vidrinhos quadriculados, davam-nos a amplidão imensa de vinhedos sem fim, amparados lá muito ao fundo pelas encostas da serra da Estrela. 
E era na adega, na comprida mesa de madeira, que se servia ao fim do dia, a “ceia” para os trabalhadores – a carne de porco assada, o arroz de frango, o coelho à caçadora. Os jarros enchiam-se à boca dos tonéis que guardavam as reservas dos anos anteriores. Quase todos os presentes eram aparentados à família por laços de sangue. A eles se juntavam Jorge e Carmen, Simão e Rosalina, a avó Gertrudes e sua irmã, a tia-avó Ana, que já tinha passado os noventa anos. 
Carmen apreciava aquelas comidas fortes, aquele vinho quente, aquela comunicação humana, simples mas calorosa, transparente como o líquido rosado que escorria pelas gargantas. Finda a ceia, cantavam e dançavam à moda da região e ela acompanhava-os, misturava-se com eles, sentia-lhes de perto o cheiro a terra, suor e vinho. Carmen tinha uma saúde e uma alegria de “ferro”! Amava a Natureza e movia-se sem dificuldade naquele equilíbrio a que a obrigavam um pé na terra, o outro nas alturas... E aquele povo adorava-a! 
E naquele povo, Carmen se detinha a pensar em momentos de reflexão. Pensava naquelas mulheres de trinta anos, pele precocemente envelhecida pelo queimar de sóis e geadas, aparentando décadas maiores; naqueles pés descalços, calejados e gretados, as mãos crestadas que arranhavam ao mais leve afago. Pensava em como seriam as suas noites, noites em que geravam filhos depois de irem buscar os seus homens à taberna, a cair de bêbedos, ameaçando-as de pancada, agressivos como cães selvagens. E pensava também nas crianças... Crianças alimentadas a “sopas de cavalo cansado” (sopas de pão em vinho), mal adoçadas com leve poeira de açúcar. Na mente de Carmen persiste ainda uma imagem nunca esquecida. Aquela manhã em que um bebé loiro (cuja sujidade e ranho no nariz não eram suficientes para minorar a sua beleza) quase morreu ao rolar pelas escadas do casebre em que morava, porque a ignorância lhe tinha “matado o bicho” com um copo de aguardente. Ainda não tinha completado três anos de idade!...            
Na adega, o lagar ia ficando repleto com o produto dos cestos despejados. E era aí que começava uma outra faina: o pisar das uvas, pelos pés dos homens de calças arregaçadas e das mulheres, de saias compridas e rodadas encurtadas com nós feitos a meio das coxas. Num movimento contínuo e cadenciado espezinhavam bagos e engaço, rostos e corpos suados, as pernas roxas, o mosto escorrendo pela bica após os cachos esbagoados. Mais tarde... os tonéis cheios.          
Tudo isto, além de novidade, era alimento precioso para a insaciável curiosidade de Carmen e, também, divertimento. Apesar da sua essência citadina, ela era uma “geminiana” típica e o seu signo astrológico de “ar”, dotara-a de uma tal capacidade de adaptação a lugares e gentes, situações e circunstâncias, que se alinhava sem esforço no ambiente que a rodeava. “Em Roma sê romano!” era (e continua a ser) o seu lema. Corrida a “cortina” da cidade, Carmen vindimava, cantava, dançava e ria com os primos e primas de seu marido, sem que ele levantasse a mínima objecção... Naquela aldeia, a Jorge, “taurino” de espírito fixo e pouco adaptável, não fazia falta a adaptabilidade de que carecia. Ali era o berço dos seus antepassados, dali não podia vir mal ao mundo... Então, sentia-se como peixe na água. Para ele, era o repouso do guerreiro! Para Carmen, tréguas às suas batalhas e angústias. 
Findos os trabalhos vitícolas, sucediam-se as idas à vila, os passeios pelos arredores – Viseu, São Pedro do Sul, o Caramulo. Carmen enchia-se daquela beleza paisagística, da frescura daqueles verdes, deixando hibernar a sua sede de cultura e arte. “Um dia... talvez um dia...”, pensava ela. E na monotonia das longas tardes em que toda a aldeia dormia parecendo morrer para o mundo, Carmen cavalgava sonhos na montada imóvel do silêncio, estremecido apenas de quando em vez pelo suave murmúrio das fontes. Tecia poemas, galgava mundos, pintava oásis no seu deserto interior. Ferviam vulcões na sua quietude serena. Curiosamente, pouco lia, nada escrevia. Hoje, sabemos que estava erguendo, lenta e silenciosamente, pedra sobre pedra, o palácio das suas memórias.   
Assim ia decorrendo parte da infância de Pedro que, durante essas férias campesinas, dava largas à sua vivacidade, correndo pelos pinhais, montando os carros de bois, tomando banho no rio, construindo as fisgas com que caçava pássaros com os primos e amiguinhos de Verão. Parecia uma criança feliz... 
Terminadas as férias, era o regresso à escola, aos empregos, à vida trepidante da cidade – ao quotidiano eivado de dúvidas, desconfianças, intranquilidade.

 

 

 
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