O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 

II PARTE

Capítulo IV


 
– Chegado o dia, o nosso filho nasceu. Com que heroicidade suportei as dores do parto, com que rapidez as esqueci! Não foi um parto fácil e apesar de eu ter estado na iminência de uma cesariana, acabei por dar o meu filho à luz, da forma mais natural e sem qualquer tipo de anestesia. Quis que nada aturdisse os meus sentidos, nada me privasse de presenciar em plena lucidez o momento único do seu primeiro contacto com o mundo! Meu marido a nada assistiu. Foi tranquilamente para casa, deixando a minha sogra no lugar que a ele competia – um frio quarto de clínica, onde durante horas pela noite dentro eu e meu filho nos debatemos com os dolorosos esforços da maternidade. Como eu gostaria que ele tivesse ficado, que tivesse partilhado comigo aqueles momentos, segurado a minha mão...   
– Meu filho nasceu pela madrugada. – É um rapaz! – Ouvi dizer. Tinha os olhos escuros e o cabelo negro e encaracolado. Para mim, era um bebé lindo. Para os outros, em unanimidade, espantosamente parecido comigo. Apesar das energias despendidas, fiquei tão excitada que assisti de olhos bem abertos ao nascer do Sol. Felicíssima, aguardava ansiosamente pela hora em que meu marido viria visitar-me, conhecer o nosso filho. 
– Ei-lo, que finalmente chega! Espreitando o berço colocado junto à minha cama, poisa o olhar demoradamente na frágil criatura que nele dormia e, voltando-se para mim, exclama: 
– Não é meu filho! Não é parecido comigo!... 
– Esta foi a frase com que meu marido substituiu o beijo que eu desejava, as flores que eu, ilusoriamente, esperava receber das suas mãos. E nesse momento, a nuvem que, insolitamente, nublara a minha lua-de-mel – e que outras nuvens posteriores já tinham engrossado – escureceu, adensou-se, formando uma negrura imensa que, acastelada no meu horizonte, prometia chuva, muita chuva... Não tardou que ela começasse a cair em forma de lágrimas amargas que brotavam mais do meu coração do que propriamente dos meus olhos. Enquanto cercada de gente, eu engolia-as com a força do meu sorriso, porém, a sós, deixava que se soltassem em catadupas. 
– Como deve ter sido doloroso! – Exclamei. 
– Não o nego, minha amiga! Tão doloroso que jamais o esquecerei! 
– Mas, as ofensas de meu marido não se ficaram por aí... Insensível à fragilidade do meu estado, decidiu limitar-me as visitas. Um dia, chegou mesmo a pôr fora do quarto a minha própria mãe, alegando que eu precisava descansar. Só os “seus” eram sempre bem recebidos... O absurdo de tais atitudes perturbou-me tanto que uma estranha febre tomou conta de mim e o leite secou-se-me nos seios. O médico que me assistia não encontrava causa física que justificasse os meus sintomas mas, por precaução, manteve-me retida dez dias sob a sua vigilância. Todas as parturientes regressavam a casa, menos eu. Esse facto, em vez de preocupar o meu marido, gerou nova desconfiança nele que, ignorante e cego, me acusava de me ter insinuado ao médico, razão porque o clínico não me dava alta... 
Carmen falava sem parar, sem dó nem subterfúgios, como se uma força estranha a impelisse a libertar-se de um pesadelo... 
Apesar da dificuldade com que acompanhava a sua narrativa, tentando sufocar a minha própria indignação, consegui perceber que os dias, indiferentes aos problemas que os preenchem, rolaram na sua marcha contínua, e que Carmen, vencendo a febre e o desequilíbrio emocional, pôde finalmente deixar aquele lugar de má e boa memória. De boa memória porque, apesar de tudo, lá conhecera a suprema alegria de ser mãe, felicidade que se sobrepunha a todas as desilusões. 
Segundo me tem sido dado constatar, Carmen, desde sempre, deu a dianteira na sua mente ao “melhor” que recebe da vida, colocando na retaguarda o “pior” – atitude que, indubitavelmente, a tem mantido de pé, até hoje.             
E foi com esse estado de espírito que ela rumou à sua nova casa – de olhos enxutos, riso nos lábios, filho no colo.   
A sua primordial preocupação era fazer crescer o seu filho saudável e feliz. Com a sua “mania” das leituras, muniu-se de toda a literatura que a pudesse ajudar – o instinto maternal, que sentia fortemente dentro de si, faria o resto. Teimosamente, insistia para que seu marido partilhasse os mesmos conhecimentos, lessem ambos as mesmas coisas. Instintivamente, ela sabia que a figura do pai, como modelo de ordem, educação e companheirismo, era indispensável, e que não basta apenas o acompanhamento de uma mãe para que uma criança se desenvolva plenamente feliz. E mais tarde, ao deparar-se com a doença de Pedro, aparentemente inexplicável, Carmen teve a certeza de como o seu instinto estava certo. 
Mas, como devem lembrar-se, Jorge não era homem de leituras. Mais! As leituras de sua mulher, das quais ela não abdicava, representavam para ele uma ameaça... Mulher que lia muito era um perigo... 
E Carmen tinha um vício antigo: ler antes de dormir. Impossível! Para Jorge, a cama tinha apenas duas funções: “pastar no prado como um cordeiro manso” ou mergulhar no sono. Apesar de contrafeita, Carmen respeitava a vontade dele. Apagava a luz e fechava o livro. 
Uma noite, sem sono, levantou-se, pé-ante-pé, enfiou o roupão – era uma fria noite de Inverno – aconchegou a roupa no seu bebé que dormia e, tranquilamente, foi prosseguir a leitura interrompida, no sofá da sala. 
De repente, meia dúzia de páginas galgadas, julgou que as palavras tinham saltado livro fora, enlouquecidas. Absorta na leitura, nem deu pela entrada de seu marido que, colérico, a intimava a apagar a luz e voltar para a cama. Sem compreender o motivo de tal exigência, Carmen recusou-se a obedecer de imediato, dizendo: 
– Já vou, daqui a pouco... 
Mas Jorge não admitia desobediências à sua vontade e, de súbito, desligou o candeeiro da sala e voltou para a cama. Carmen ficou no escuro, reflectindo, tentando recompor-se da surpresa. E no escuro se fez luz na sua mente: afinal, não era a luz que o incomodava quando ela pretendia ler na cama... era o simples facto de ela insistir no “péssimo” hábito de ler. E isso, ela não podia aceitar! Levantou-se do sofá, fechou a porta da sala e voltou a accionar o interruptor que lhe permitiria continuar a leitura. Mais meia dúzia de páginas galgadas, talvez nem tantas, outra tempestade. Novamente, as palavras enlouquecidas? Não! Nova investida do macho ameaçado – quiçá, pelo suposto galã do romance, decerto mais interessante do que ele... E, de novo, a escuridão. 
Desta vez, Carmen insurgiu-se: 
– Mas, afinal, o que é que te incomoda? Decerto não é a luz, se até fechei a porta... 
– São esses romances, são eles que te dão volta à cabeça...  
Sem responder à provocação, Carmen levantou-se, calmamente, e voltou a acender a luz. E, não podendo conter um riso de escárnio, disse: 
– Mas... Nem sequer é um romance... Podes levá-lo, lê, não morde! Vou ver televisão.   
E, entregando-lhe o livro, ligou a TV. Não que naquela altura lhe interessasse qualquer programa. O que Carmen queria era somente dar tempo a que o seu equilíbrio se restabelecesse para poder ir dormir em paz. Todavia, paz era o que seu marido não pretendia naquela noite. E se era amor o que desejava, tinha uma estranha forma de o demonstrar...   
Tudo teria ficado por isso mesmo, se Jorge, ainda não satisfeito, não tivesse levado mais longe a sua prepotência, pois, sem mais aquelas, atirou o livro pelos ares e desligou a televisão. Foi demais! Toda a calma e equilíbrio de Carmen a abandonaram. Como que possessa, fez voar todos os objectos que apanhou à mão, e só não atingiu Jorge porque este, talvez tomado de espanto, saiu cobardemente da sala. 
Carmen olhou os pedaços de louça e os vidros espalhados pelo chão, sem pena ou arrependimento. Afinal, seriam menos algumas testemunhas dos dramas vividos naquela casa. E, observando-os mais demoradamente, viu neles a prova de que o seu amor-próprio não estava ainda totalmente aniquilado. Isso reconfortou-a  e deu-lhe coragem para um último gesto: voltar a acender a televisão!      
Mas Jorge não dormia. E, perante a insubordinação, resolveu o conflito à sua maneira: arrancou os fusíveis do quadro geral e mergulhou a casa na escuridão total; o coração de Carmen, também.  
Quando Carmen terminou este relato insólito, eu estava tão chocada que não encontrei palavras. E a única coisa que me ocorreu, talvez para desanuviar, foi:  
– E o que estava a ler nessa noite, recorda-se? 
– Muito bem! Estava a ler os “Pensamentos”, de Pascal. 
E logo, como era meu intento, o pensamento de Carmen voou para longe da triste recordação, relembrando Pascal:      
– Pascal! – Matemático, físico, escritor e filósofo – um dos mais brilhantes espíritos que a humanidade já conheceu! Aos onze anos compõe um tratado dos sons e “descobre” sozinho todos os teoremas da geometria euclidiana; aos dezasseis anos, imagina uma “máquina aritmética” que é considerada a primeira máquina de calcular. Por sinal, trouxe comigo uma das páginas que voaram naquela noite. Veja, minha amiga, a “leitura perigosa e ameaçadora”, na qual eu estava tão embrenhada. 
Transcrevo: 
“Nunca nos fixamos no tempo presente. Antecipamos o futuro como demasiado lento a chegar, como para apressar o seu andamento. Ou lembramos o passado, para o determos como demasiado rápido; tão imprudentes que erramos em tempos que não são nossos e não pensamos no único que nos pertence. E tão fúteis que pensamos naqueles que não são nada e fugimos sem reflexão ao único que subsiste. É que o presente, por norma, nos fere. Escondemo-lo aos nossos olhos, porque nos aflige. E, se nos é agradável, lamentamos vê-lo fugir. Procuramos detê-lo pelo futuro e pensamos em dispor as coisas que não estão no nosso poder, por um tempo a que não temos qualquer certeza de chegar.
Que cada qual examine os seus pensamentos. Encontrá-los-á todos ocupados pelo passado e pelo futuro. Quase não pensamos no presente. E, se pensamos nele, é apenas com a intenção de aí procurar a luz para dispor o futuro. O presente nunca é o nosso fim: o passado e o presente são os nossos meios. Só o futuro é o nosso fim. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver. E, dispondo-nos sempre a ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos.” 
– Grande verdade! E eterna, apesar de ter sido escrita em meados de 1600. Sabe, Carmen, que também li e reli Pascal? Sei até de cor alguns pensamentos dele, como este, por exemplo: 
“A vaidade está tão enraizada no coração do homem que um soldado, um trolha, um cozinheiro, um carregador, se gabam e querem ter os seus admiradores. E até os filósofos o querem. E aqueles que escrevem contra querem ter a glória de o haverem bem escrito. E os que lêem querem ter a glória de os haverem lido. E eu, que escrevo isto, tenho talvez esse desejo. E talvez aqueles que o lerem...”
E terminámos essa sessão, comungando da “vaidade” de ambas termos lido Pascal e enfiando a carapuça por albergarmos, no final deste romance, “a vaidade” de o havermos bem escrito e o desejo de que o mesmo sintam aqueles que o lerem... 

 

 

 
Livro de Visitas