O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 

II PARTE

Capítulo II


 
Que dizer daquela noite de núpcias? O pressuposto é que todas as noites de núpcias são idênticas e que não haveria motivo para falar-se dela. Mas Carmen falou: 
– Durante a viagem conversámos pouco. Concentrado na estrada, meu marido mal dava resposta ao que eu dizia. Explicou-me em duas palavras que não gostava de conversar enquanto conduzia. Compreensível – achei eu. Mal chegados ao nosso lar temporário, Jorge, impaciente, desfez-se em afagos e ternuras, há muito contidos. Tudo parecia correr maravilhosamente! A perda da minha virgindade era coisa que não me assustava, tinha-a como uma consequência natural do casamento. Mais! À força de minha mãe tanto me instigar a preservá-la – movida por um tenaz preconceito que fazia repousar a honra das famílias sobre uma frágil e inútil membrana – o que eu desejava era libertar-me dela, não por prazer calculado, mas para desembaraçar-me do que, para mim, representaria uma grilheta a menos... Pensando assim, tudo se consumou sem dramas, e a noite poderia ter decorrido perfeita não fora, a determinado momento, Jorge fitar-me de olhar turvado, enquanto dizia: 
– Afinal, não eras virgem! 
Estarrecida, só consegui perguntar: 
– Por que dizes isso? 
– Devia haver mais sangue... 
– Nem sempre é assim... – respondi a custo, os soluços querendo subir-me à garganta. 
– Estou cansado, amanhã falamos!  
E sem me dar azo a qualquer conversação sobre o assunto, Jorge voltou-se para o outro lado e adormeceu. 
Foi como se me tivessem dado uma pancada na cabeça! Subitamente, como um relâmpago, tive uma visão do sem número de desilusões que me esperavam. 
 O resto da noite, completamente entregue a mim mesma, passei-a em branco, chorando, bebendo champanhe e ruminando: “Quanta injustiça! Quanta ignorância!” E, como um texto corrido, passou pela minha mente tudo o que eu sabia sobre a virgindade. Por exemplo, que o hímen varia muito na sua forma e consistência; pode revestir uma forma semilunar, o formato de ferradura ou anel, ou apresentar-se sob um aspecto labial, sendo os bordos separados por uma fenda vertical; pode ser mais consistente ou mais frágil; tão elástico que pode, nalguns casos, esticar, ceder a pressões enérgicas e retomar a seguir o seu estado primitivo; ou tão frágil que qualquer esforço ou exercício mais violento, às vezes exigido somente pela prática de um desporto, pode originar o seu rompimento; e, finalmente, que há mulheres que o conservam depois de vários partos e algumas em que o hímen pode nunca ter existido.  
Qual seria o meu caso?... Aproveitando o sono do meu marido, dei comigo a examinar, sub-repticiamente, os vestígios deixados no lençol. De facto, as provas eram ténues! Pequenas manchas rosadas, um farrapito vermelho aqui e além.  
No meio da minha perturbação, era como se me visse em Israel – uma jovem esposa judaica, supliciada pelo seu povo, acusada de ter cometido uma infâmia, porque as provas da sua virgindade não tinham sido suficientemente evidentes.  
Ou... descenderia o meu marido dos árabes, querendo no dia seguinte ao casamento – como era uso entre esse povo – arvorar orgulhosamente o lençol das núpcias, manchado do sangue da jovem esposa desflorada?         
Que dizermos então das populações da Nova Caledónia onde a virgindade era desprezada pelo marido que pagava a outros homens para desflorarem a mulher? E dos indígenas do Kamtchatka que consideravam de extremo mau gosto a mulher casar com o hímen intacto, sendo uso a mãe da noiva destruí-lo com os dedos? E de algumas tribos da América Central que desdenham as mulheres ainda virgens porque consideram que não possuem qualquer encanto e não conseguem inspirar amor aos homens?... 
Naquela espécie de febre em que me encontrava, veio-me à memória um texto do naturalista Cuvier onde, a dado passo, ele diz: «Será razoável dar uma tal importância a este sinal da virgindade feminina, que uma vez descoberta a sua ausência é capaz de desencadear dramas? Não! A presença de um hímen, por mais intacto que esteja, não tem qualquer valor moral e em nada pode ser considerado um símbolo de pureza. A pureza moral não é física, eis a verdade de que todos os homens se deviam compenetrar». 
Estes e outros conceitos se desprenderam alucinadamente do meu cérebro durante aquela noite interminável! 
Aproveitando uma brecha na narrativa de Carmen, não me contive: 
– Como deve ter sofrido, Carmen! 
– Sofrido?... Não! A revolta era maior do que o sofrimento. Era a injustiça que me queimava, a desconfiança que me assustava, a ignorância que me surpreendia! Tudo o que eu queria era que amanhecesse depressa, para dialogar com o meu marido, fazer-lhe ver o quanto ele tinha sido ignorante e injusto. 
– Espero que tenha conseguido!?...  
– Tentei, minha amiga, bem que tentei! Mas logo constatei que meu marido não era um homem de diálogo. Para ele tudo se resumia a Sim e Não; na verdade, mais Não que Sim. O talvez não constava do seu dicionário mental e uma vez implantada uma ideia na sua mente, aí permanecia para sempre, inalterável... 
– Então, deve ter sido difícil para si fazê-lo compreender... 
– Difícil? – Eu diria, Impossivel!  
Após um breve silêncio, Carmen prosseguiu: 
 – Na manhã seguinte, como se nada se tivesse passado, meu marido acordou bem-disposto, mostrando-se apressado em sairmos para tomarmos o pequeno-almoço. Quase não trocámos palavra. 
Durante a refeição, principiei: 
– Jorge, temos de falar! 
– Sobre o quê? 
– Não sabes?! Sobre a noite passada! 
– Esquece! Estava cansado e com sono.  
E, pegando-me na mão, ternamente, mudou rapidamente de assunto.
– Vamos passear, almoçar a qualquer outro lado. Tens alguma preferência? 
– Nenhuma – respondi, secamente. 
– Não sejas parva, sabes como te amo!  
E com estas palavras encerrou a questão, por esse dia e pelos seguintes, pois, incapaz de dialogar e vir a ter de reconhecer o seu erro, Jorge sempre fugia ao assunto, evitando falar sobre o acontecido. 
As férias continuaram, num clima de normalidade forçada, entre longos e silenciosos passeios de carro e as refeições nos variados restaurantes, durante as quais apenas se discutia a ementa. Depois, surgiam as noites, quentes de paixão; para mim, mais quentes, porque me queimavam as palavras não ditas, entaladas na garganta. Até que chegámos ao fim da “lua-de-mel”. A de meu marido, “lua cheia”; a minha, toldada por uma nuvem que nunca mais se desfez...

 

 

 
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