O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 

Posfácio

 

O LUMINOSO VÉRTICE
Por Rejane Machado


Em destaque a simplicidade narrativa do relato. Destacando a independência de Carmo Vasconcelos, admirar a sua posição dentro de um contexto que parece não tomar conhecimento de que tem havido tantas modificações no ato de escrever, a desfigurar a literatura e sofisticar demasiadamente o ato de contar uma longa história cujo fundo é a passagem do tempo, chegando à 2ª. guerra mundial, e tendo como fulcro a amizade entre duas mulheres. Uma delas, a cronista, que tem por função recolher a história da amiga, guarda nas dobras da lembrança, em cada gavetinha da memória um pedaço, que será somado a outros, formando uma grande estrutura que abarca várias gerações, muitos acontecimentos a serem colocados lado a lado, formando um painel de vida que carrega no seu bojo dramas e tristezas. Sempre presente, como bem ela o diz, o amor e o desamor que fazem afinal o cerne de todas as histórias.
A autora começa se dirigindo aos leitores explicando-lhes que “vão ler uma história que perfaz um espaço de cem anos”. Carmen, a personagem que protagoniza o drama, verbaliza durante todo o livro para sua amiga cuja função é recolher, (ou para si mesma? – afinal, a função do escritor é preservar) a saga de sua família, livrando-se do peso das recordações e dos fatos acontecidos. Mostrando os lugares em que as pedrinhas serão colocadas para formar o mosaico que ficará completo, ao final do relato.
Embora tendo sido consagrada a N. Sa. do Carmo, na verdade demonstra a feição melômana da família. Nome que lhe dera Carlos, seu pai, homenageando o compositor francês da bela ópera que revela o destino de uma volúvel cigana tão tragicamente marcada. Carlos é na verdade um bom-vivant, e só faz gastar a fortuna sem pensar que tem família ´por quem é responsável. Ele se casa com Diolinda que não trouxe boas recordações de casa. Que ressuscita em suas lembranças um pai ferrabrás, às antigas: - se as filhas esqueciam o ritual do beija-mão ao chegar da rua, ficavam sem o jantar, iriam para seus quartos imediatamente; ele mantinha o terror na casa, filhas e mulher tremendo de medo. Não admira que a sua infância sinalizasse um quase nada de boas lembranças. E muita água iria correr por sob a ponte daquelas vidas descritas aos poucos, em encontros espaçados, em que Carmen vai contando devagar à amiga escritora os pedaços da sua vida. A técnica do “gancho” está presente, segurando o interesse e a curiosidade do leitor.
A mãe não suporta o clima aterrorizante que o marido cria em casa e foge para não enlouquecer diante de tanto autoritarismo e rigor. Seu castigo será a proibição de ver as filhas a serem criadas pelo carrasco; morrerá pouco depois, sem conseguir a felicidade que buscava na tentativa desesperada.
Uma das tias de Carmen, a mais velha, Augusta, proibida pelo pai de chegar à janela, aproveita as saídas dele e sobe ao telhado para ver a rua, acumpliciada com as vizinhas que a avisam da chegada iminente dele, ao apontar na esquina, dando-lhe tempo de descer do telhado. Sua irmã, Prazeres, morre cedo, e é enterrada vestida como noiva. Augusta, foge e vai viver no teatro, fazendo carreira na ribalta. Diolinda acaba por fugir também, juntando-se a Augusta no Teatro. Para o pai rigoroso Augusta morreu, nem permite mais que se pronuncie o nome dela. E o mesmo acontece com a filha Diolinda.
E assim decorre a história em que encontramos tantas pessoas “de verdade” que vivem á nossa volta com suas características fantásticas, de que duvidamos em certas horas, tal o absurdo de que suas mentes são formadas, elaborando ficções verdadeiras. Mas a vida é desconcertante, e a autora nos mostra que os absurdos são perfeitamente possíveis, que a humanidade é escamoteável, disfarçando sua alma vil em gestos gentis de cortesia aparente.
Carmo nos apresenta um painel temporal que abrange várias gerações em fatos familiares que todos temos nas nossas vidas, porque a humanidade é a mesma em todos os quadrantes, mas é impressionante constatar certas coincidências (e serão coincidências?) que fazem notar caracteres tão parecidos de pessoas que não têm noção da existência uns dos outros, e no entanto parecem cópias autênticas no nosso modo de viver.
É um romance caudaloso, extenso, estruturado, em que os fatos decorrem quase que em tempo real, as conversas pausadas, a Humanidade caminhando sem pressa, as grandes crises se resolvendo, guerras e conflitos pequenos, internos, revoluções particulares em que decisões são tomadas, - de que vale a vida? Será válido aceitar sempre o lado mau da vida? Para isso é que saímos do limbo?
Relatos de tentativas muitas, de pessoas fracas que se entregaram e deixaram que a vida as consumisse. Em contrapartida outras, como -a personagem forte, que sabe dar a volta por cima, resolve um dia que basta de sofrer, pois a vida pode ser bela e haverá no mundo outros lugares onde o sol se põe avermelhado e a noite chega em calma e placidez.
O estilo de Carmo é peculiar. Ela não pretende fazer revoluções na língua de que se serve. Se houve uma ou mais tentativas de mudança nas concepções literárias- isto não lhe diz o mínimo. Tem o seu estilo, procura o seu jeito personal de se expressar, sem tentar frases de efeito ou estruturas complexas. Compõe um painel de vidas em que decorre ao fundo o que se passa “lá fora”- as grandes transformações sociais, os avanços da Ciência, as novas formas de arte, os acontecimentos do mundo, as dissensões, os desagravos, as reações, a guerra que acompanha a trajetória do homem desde que ele pisou na terra. Registra desde o final da primeira guerra, o início da segunda, a chegada do homem na Lua, os avanços, enfim, que fazem o correr do mundo. Ela tem que contar uma história de superação. Tem que enfocar a vida de uma mulher que se recusou a se humilhar. Que resolveu viver. E se sai muito bem nesta tentativa.
A autora cria com rara veracidade um interessante personagem dotado de tal desconfiança, capaz de infelicitar a quem dele se aproxima, e é dotada da exata noção das palavras que traduzem toda a subversão da alma extremamente cruel deste personagem.

Uma bem urdida história de subversão criada pela mente fértil e versátil da autora relatando fatos que simulam realidade extrema, e, onde o interesse do leitor é sempre mantido.
De parabéns Carmo Vasconcelos que nos mostra uma nova face que não conhecíamos: a de romancista arguta e inovadora- pois que dela só conhecíamos a sua alma delicada de poetisa.

Rejane Machado.
Crítica literária, Professora de Literatura, Escritora.
Rio de Janeiro, 20 de Julho de 2015

 

DIÁLOGO COM A ESCRITORA MARA NARCISO SOBRE

 "O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE"
Por Mara Narciso/Carmo Vasconcelos


MN - Há dois meses e dois dias você me enviou o seu romance "O Vértice Luminoso da Pirâmide". Uma boa história rende um bom livro, e foi o que aconteceu, com as ressalvas que farei. Estranha foi a minha demora, como se o fato de ser um livro virtual não me chamasse à leitura. O começo, foi mais célere, e depois fui mais devagar. Observei uma riqueza na linguagem, coisa comum entre os intelectuais daí. Aqui se vê gente que se destaca nas letras e com um nível vocabular não tão bom quanto o seu.

CV - A língua portuguesa parece ter ainda algumas dificuldades para os escritores brasileiros. Talvez por influência dos vários dialectos existentes e/ou pelo sistema de instrução escolar que se apercebe cada vez mais deficiente. Também aqui, os “jovens” escritores e poetas (ou não) demonstram menor perícia no uso do português do que os “velhos”. Maior ligeireza e facilidades no ensino, menos boa leitura, uso preferencial de consultas internéticas, etc... Mais exigentes e preparados os que estudaram no velho tempo. E que faziam da leitura a ocupação quase obsessiva dos seus tempos livres.

MN - O começo foi mais paixonante que depois. A sua mãe teve uma juventude rica em emoções, e então, sem ter um motivo real, ou talvez o estilo mais sério do segundo marido se fecha demais, quase que dentro duma burca. Sua tia também teve uma vida emocionante, bem diferente das contemporâneas delas. Na linha amor bandido, eu também me apaixonaria pelo seu pai.

CV - Minha mãe foi uma “filha” de 1900 e de um pai “mão-de-ferro”. A vida não lhe foi fácil. Meu pai era, sem dúvida, uma personalidade apaixonante mas que não inspirava segurança. Não obstante, ele me seduzia e eu o amava, mais pela separação do que, talvez, se vivesse em comum.

MN - Sua infância rica de experiências e emoções com seus tios ricos e contato com teatro e outros eventos culturais, enriqueceu muito a sua cultura e história. Na mocidade, suas emoções são relativamente bem explicitadas, os namoros, o estar junto por conveniência. Foram tantos, que, depois desse tempo todo me perco sem saber nomeá-los. Reparei um grau de censura, quanto a sexualidade, que eu diria acentuado, ainda que fosse uma biografia disfarçada, mal disfarçada, por sinal, e até por isso deve ter segurado a sua pena. Ainda assim, há momentos em que se desnuda adequadamente, quando o momento pede, por exemplo, no drama do período em que ficou sem seu filho, ou sobre a doença dele (deslocada cronologicamente), ou nas brigas do casal, especialmente a pirraça com o livro que Jorge não queria que você lesse naquela hora, talvez o maior ato de loucura dele, depois do ciúme do seu irmão. E mandar seus parentes embora? O homem não regulava bem da cabeça, aliás, regulava-a bem mal.

CV - Bem analisado. Minha infância e adolescência foram ricas de experiências culturais, emocionais e amorosas. Quanto ao “grau de censura sobre a sexualidade” tem razão! Note-se que a “sexualidade” era tabu nos meus tempos de jovem e, ferreamente, controlada e sustida. Muito tarde me libertei desse estigma. Tão tarde que eu diria que somente depois de viúva consegui libertar-me. Mas, falar disso não caberia num livro (disfarçadamente autobiográfico, mas propositadamente q.b. para deixar na dúvida) que eu fiz mais como memória de vida para deixar à família e aos filhos. Aliás, um livro que parou a “meio” de vida. Muito mais haveria para contar... e, dessa vez, menos contido.

MN - Jorge precisava de tratamento, em vista do seu humor oscilante, insegurança extrema, paranóia, laivos de obsessão. Não me arriscaria a classificar a loucura dele, que o fez sofrer e mais ainda a você. Em algumas passagens, a narrativa deixa crer tratar-se de mera maldade/crueldade. Era quando ele perdia o senso por completo, merecendo um tratamento intensivo, que, à época nem tinha. Quando começaram a atirar objetos, fiquei preocupada. A maior cena de nudez psicológica sua foi quando teve vergonha de amá-lo, e quando disse que se comportar como ele era descer ao seu nível.

CV - Sem dúvida, minha amiga! Uma de milhares de crianças que cresceram sem tratamento adequado num tempo de ignorância sobre a psicologia e a psiquiatria. Isso, uma das razões principais que me fez aguentar esse casamento. Um sentimento de ajuda, protecção, e desculpabilização pela actuação doentia.

MN - Ainda que, cheia de disfarces, é preciso ter audácia para se expor. Ficou uma brecha inteligente para a continuação, como um filme de Holywoody.

CV - - Rsss... Sem audácia não há escrita, seja ela em prosa ou em poesia. Porque, mesmo na escrita que chamam de ficção, as memórias, ainda que adormecidas no inconsciente, estão lá. Quanto mais não seja buscadas involuntariamente do consciente colectivo.
Eu sempre disse, e repito, que “não sou escritora/poeta de ficção".

MN - Muitas palavras diferentes, desconhecidas. Falei que as anotaria, e perguntaria, e não o fiz. Como não anotei nada, e fiquei dois meses lendo, estou aqui imersa e perdida em minhas lembranças. Gostei de conhecê-la um pouco como pessoa e como escritora. Destaque para os vários poemas, e vi neles mais coragem que na prosa. Os versos, para mim, ainda que fictícios, sempre me levam a crer tratar-se de experiências pessoais. E os publicados são reais.

CV - Quanto às palavras desconhecidas, por que não anotou. Teria todo o gosto em elucidar. Também aqui não se enganou. Acabei de dizer em cima: Não sou escritora nem poeta de ficção! Tenho a meu favor uma vida já longa e repleta de experiências. Boas e más, todas servem de suporte à minha escrita que, como sabe, prevalece em poesia.

MN - Bem, por enquanto é o que consigo dizer, mal e mal. Perdoe-me a petulância dessas reflexões sobre sua obra. E que aceite meus cumprimentos pelo feito.

CV - Amiga, foi uma honra e um privilégio ter a sua atenção e perspicácia sobre o meu “Vértice Luminoso da Pirâmide”. Sei que com mais tempo haveria outros pontos sobre os quais poderíamos conversar e que, talvez, a Mara não quisesse abordar por lhe parecerem polémicos. A minha vertente mística, por exemplo. Saiba que estou aberta a todo o tipo de comentários.
Gosto de falar consigo!

Muito e muito obrigada pelo carinho às minhas memórias!

 
Março/2015

Mara Narciso é médica, jornalista e escritora
Montes Claros - Brasil
 

 

 
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