O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 

II PARTE

Capítulo XIII

 

Estamos agora numa tarde melancólica de início de Outono, daquelas em que as folhas secas jazem pelo chão e as árvores se inclinam, envergonhadas da sua nudez. Carmen está comigo, desta vez para nos transportar ao ano de 1972, que o mesmo é dizer, aos seus trinta e quatro anos.  
Mantinha, à data, rosto e figura de adolescente. Pouparam-lhe as agruras da vida marcas exteriores. Nem uma ruga de preocupação na testa, nem um vinco de rancor ou ódio na sua boca. Os mesmos olhos negros, talvez mais profundos, o cabelo escuro e farto, agora mais curto e encaracolado, a pele ainda macia e rosada, a mesma silhueta, ainda bem torneada – uma “figurinha de Tanagra”, como dizia um seu amigo, estudante de História de Arte. 
De Luanda chegam notícias do pai e dos irmãos. Carlos, homem de cultura multifacetada, estava bem estabelecido com um escritório de consultadoria; Vítor Manuel, um autodidacta, chegara já a Comissário de Polícia, estudos feitos a pulso, concursos ganhos com tenacidade e sabedoria. Tem agora, ao todo, três filhas e um filho. Alargando o núcleo familiar em terras africanas, a eles se juntara, ultimamente, Eduardo com a mulher e os dois filhos. Este, colocado numa empresa de aviação. Todos sabemos como era tão mais fácil, naquele tempo, viver nessas paragens: abundância de empregos e de habitação; carne, peixe e fruta a dez reis de mel coado; marisco ao preço da chuva. Praias de sonho, clima quente, que os frios agrestes não alcançavam nunca. Dessas farturas e maravilhas, falavam as cartas de seus irmãos, ao mesmo tempo que incitavam: “Por que não vêm para cá? Viveriam muito melhor!” 
Carmen falava disso a seu marido, ele tão frustrado no emprego que tinha... 
Mas Jorge tinha uma profunda aversão a mudanças, como já sabem, e mal ela encetava o assunto, logo ele partia para a agressão verbal: 
– Lá estão eles a meter-te ideias na cabeça! Se estão bem que fiquem por lá. Deixar a minha terra para ir viver com pretos? Nunca! Vai tu, se é isso que queres... 
Obviamente, não era isso que Carmen queria. Queria uma vida melhor para os três, um emprego onde Jorge ganhasse mais e se sentisse mais realizado, um futuro mais risonho para Pedro, menos preocupações e trabalho para si mesma, que, além do emprego, se via ainda sobrecarregada com as mil tarefas domésticas, por não terem condições para pagar a uma empregada. E o querer estar perto da família era um desejo lícito, um chamamento do sangue. Mas, seu marido nunca a compreenderia, pelo que Carmen deixou de abordar essa hipotética mudança. 
Um dia, chega uma carta de Vítor Manuel: 
“Vou a Lisboa, a uma Junta Médica, tratar da minha reforma por doença.” 
Carmen não ficou preocupada. Sabia que o irmão, embora com algumas queixas de saúde provenientes dos anos de Índia e de África, não estava tão doente assim. O que na verdade se passava era que ele não suportava mais a violência da profissão na Polícia, completamente desajustada ao seu temperamento sensível. 
Vítor Manuel chega a Lisboa. Traz presentes para a família – esculturas e quadros de arte indígena, marfins, objectos característicos da terra. Da família que restava por cá, Carmen era quem tinha uma casa com melhores condições para o hospedar, até porque morava no centro da cidade, o que lhe facilitaria as muitas voltas burocráticas que ele teria de dar. 
Carmen falou a Jorge. Seriam poucos dias, não se justificava deixar o irmão ir para um hotel. Com alguma estranheza sua, Jorge concordou. Decerto, pela supremacia que julgava obter, hospedando o cunhado – pensou ela, que se habituara a estudar todas as reacções do marido. E como ela o conhecia bem... 
Durante uns dias (poucos) as coisas correram menos-mal. Juntavam-se apenas ao almoço. Depois, Vítor saía para tratar dos seus assuntos e recolhia tarde. Jorge dera-lhe até a chave de casa. Um dia, à mesa do almoço, Vítor, acostumado à calma e dengosa vida africana e pasmado de como Carmen, com apenas duas horas para almoço, vinha a casa, fazia compras de caminho, pegava Pedro na escola, confeccionava a refeição, punha-a na mesa, voltava a levar o filho à escola, e seguia de novo para a Repartição... comentou, pesaroso: 
– A vida aqui em Portugal é uma escravidão! 
Jorge não gostou do comentário e logo recalcitrou qualquer coisa pouco agradável. 
Vítor, continuou: 
– Não o disse por mal, mas em Luanda vocês viveriam muito melhor, sem esta canseira, este “stress”. Por que não pensam nisso? Ajudarei no que for preciso. Com o cargo que tenho, gozo de influências, facilmente arranjarão emprego e, entretanto, poderão contar com a minha casa. 
Vítor tentava ser cordial e amigo, contudo, as suas palavras soavam a Jorge como a pior das ofensas. Irritado, mudava imediatamente de assunto e, à noite, a sós com Carmen, enchia-lhe os ouvidos com as habituais incongruências. 
Uma noite, Vítor voltou mais cedo. Jorge e Pedro já dormiam, mas Carmen ainda estava de pé, à volta com os habituais afazeres domésticos. Puseram-se à conversa. Conversas de família, algumas intimidades da vida privada de Vítor – divergências com a mulher, em parte originadas pela sua decisão de sair da Polícia, em parte, pela sua recente separação e escolha de nova companheira com quem já vivia, etc., etc. – Desabafos entre irmãos.  
Entretanto, Vítor pediu a Carmen se lhe passava a ferro as calças do fato que pretendia vestir no dia seguinte. Ela anuiu prontamente: 
– Não me custa nada! Sabes como a nossa mãe me ensinou cedo a passar as vossas calças – com um pano bem molhado, mantendo o vinco certinho... 
Rindo ambos daquela e de outras recordações, Carmen abriu a tábua de engomar, ligou o ferro, e começou a passar, maquinalmente, as ditas calças, enquanto continuavam a cavaquear, felizes por estarem juntos. 
De súbito, foram interrompidos pela voz azeda de Jorge: 
– Que barulho é este? Não se pode dormir? 
E, voltando-se para Carmen: 
– Hoje não tens sono? 
– Vou já! Estava só a acabar de passar estas calças ao meu irmão – respondeu ela, quase a medo. 
– E eu vou dormir, que amanhã tenho de levantar-me cedo. Boa noite! – Disse Vítor, retirando-se à pressa. 
Sem lhe responder, Jorge já tinha voltado costas e regressado à cama. Daí a pouco, Carmen deitou-se também. Porém, seu marido não dormia nem a deixava dormir. Discutiu com ela horas sem fim. O problema de Jorge eram as calças... Carmen não conseguia perceber o porquê. Seria que aquela vulgar peça de roupa, que ela, habituada a uma casa de família onde predominavam os homens, tratava por tu desde menina, representava para ele um símbolo sexual…? Pelas frases incoerentes que foi obrigada a ouvir, teve a certeza disso! 
O certo é que já não houve “amanhã” para a cavaqueira dos dois irmãos. Cedo, pela manhã, e sem o conhecimento de Carmen, Jorge deixa um bilhete no quarto do cunhado e sai de seguida sem qualquer conversa. O que dizia o bilhete, ela já não recorda totalmente, mas era qualquer coisa do género: “Arranje outro lugar para ficar e não volte mais!” 
Carmen só veio a saber disso quando Vítor Manuel lhe telefonou para a Repartição a contar o sucedido e dizendo-lhe que aproveitaria a tarde para ir buscar a mala da roupa, pois não queria voltar a encontrar-se com Jorge. Depois, entregaria as chaves a Carmen. A Junta Médica tinha corrido bem, já estava aposentado. Nos dias que faltavam para o regresso, acomodar-se-ia em casa da mãe. 
Carmen ficou para morrer. Era demais! Jorge deixara de novo cair a máscara! E deixá-la-ia cair tantas vezes quantas tentasse usá-la, disso ela tinha a certeza! 
Dessa vez, nem discutiu com o marido. Chegada a noite, como ela nada dissesse, Jorge pergunta, num tom mesquinho e sarcástico: 
– O teu irmãozinho já deve ter ido fazer-te queixinhas... Já deves saber que o pus na rua... 
– Fizeste bem! – Respondeu Carmen, impassível, a revolta roendo-lhe as entranhas.
– Então, é porque te sentes culpada! Sabes que tive razão! 
– Claro! Tens sempre razão! – Continuou Carmen, no mesmo tom. 
– É para aprenderem a não fazer de mim palhaço! 
Ela não deu resposta e a conversa morreu por ali. Todavia, todos sabemos como as revoltas caladas, sustidas, crescem, tomam vulto dentro de nós, podendo levar-nos às maiores loucuras...  
No dia seguinte, Carmen pediu umas horas de dispensa no Serviço e encontrou-se com Vítor Manuel. Ele, ausente há tantos anos, nada sabia da sua vida, a não a ser o trivial que ela lhe contava nas cartas. Ele lembrava-se, vagamente, dum jantar de Natal na casa materna, quando Jorge, ainda namorado de Carmen, tomado de ciúmes, se tinha levantado da mesa e saído porta fora sem qualquer justificação. Recordava-se um pouco melhor de, alguns anos depois, durante uma das suas licenças graciosas no Continente – já Carmen era casada e Pedro nascido – terem dado um passeio na companhia das respectivas famílias. Almoçaram fora de Lisboa e, durante o almoço, sem que alguma vez viessem a saber a razão, Jorge tinha abandonado a mesa familiar e feito a sua refeição sozinho, numa mesa separada. De nada mais se recordava e nada mais sabia. Era muito pouco, mas o bastante para perceber a estranha personalidade de Jorge! 
Carmen pô-lo ao corrente dos factos mais marcantes, inclusive da sua recente saída de casa, da frustrada tentativa de libertação. 
– Mas isso é doença! Devias convencê-lo a ir a um médico! Jorge devia tratar-se! – Exclamou Vítor. 
Carmen esboçou um sorriso desalentado, para dizer: 
– E julgas que já não tentei? A propósito das neuras, das alterações bruscas de humor, do sono e do mutismo em que se refugia... Sabes o que sempre me responde? – “Tu é que precisas tratar-te, não regulas bem!...”
– Mas não podes continuar a viver assim! Posso ajudar-te a ir para Luanda com o Pedro. Aí não te seguirão, não farão chantagem com o teu filho, terás uma família para te apoiar e proteger. 
– Sei lá?... Deixa, pode ser que as coisas melhorem – respondia Carmen, mais para sossegar o irmão do que convencida das suas próprias palavras. 
Passados dias, Vítor Manuel partiu.  
Na mente de Carmen ficara uma ideia que não parava de a perseguir: “E se eu fosse?... Mas como faria? África é tão longe... Como arranjaria eu o dinheiro para as passagens? Não, é melhor não pensar nisso! ” 
Daí em diante, as coisas pioraram entre o casal – talvez porque Jorge sentiu que dessa vez tinha exagerado, tinha ultrapassado os limites, ou porque teve a noção de que tinha feito um inimigo, um inimigo que estava, evidentemente, do lado da sua mulher. Ficou mais desconfiado do que nunca. As cartas do cunhado eram sempre motivo de discussão. Apossara-se dele um medo secreto, como que uma inexplicável premonição. Ele já sabia do que Carmen era capaz em situações extremas... Por certo, não esquecera as portas violadas, os vidros partidos, o roupeiro meio despido... Mas, ao invés de rever o seu comportamento, melhorá-lo, tornava-se cada vez mais incoerente, desmiolado e agressivo. Senão, vejam: 
A determinada altura, Carmen teve de ficar uns dias de cama, devido a hemorragias abundantes provenientes de um ciclo menstrual desregulado. O que não era de admirar, na tensão nervosa em que andava... Mas Jorge duvidou de que fosse apenas isso, dando a entender, por veladas insinuações, que ela tinha era feito um aborto (decerto, fruto de uma ligação ilícita...) Mas essas desconfianças já não a espantavam, eram o “pão-nosso de cada dia”. E, mesmo de cama, foi ela própria quem teve de telefonar para um Centro de Enfermagem para que lhe fossem dar a injecção urgente que a médica prescrevera. Quando tocaram à porta, Jorge foi abrir. Carmen apercebeu-se de que algo não estava a correr bem. Apurando o ouvido, escuta a voz do marido: 
– Não, não, não é aqui! Chamámos uma enfermeira, não um enfermeiro! 
Uma voz de homem tentava explicar que era ele quem estava de turno, não tinham uma enfermeira disponível, só no outro dia de manhã. 
Jorge foi irredutível: – Pois esperaremos! 
E Carmen, não obstante o mal-estar que pedia cuidados imediatos, teve de esperar até ao outro dia de manhã, para que uma enfermeira, arvorando um sorriso irónico, lhe fosse dar a injecção. 
Esta, uma das muitas cenas que faziam Carmen duvidar da sua lógica e que, simultaneamente, iam delapidando a sua paciência. Já não se calava, revidava as ofensas no mesmo tom e na mesma linguagem, os actos com violência semelhante. 
Foi o que aconteceu uma noite quando Jorge, a meio de uma discussão, resolve alvejá-la com uma lindíssima peça de arte indígena, frágil, porque feita de um tipo de massa semelhante ao barro. Tinha sido oferecida por Vitor e Carmen gostava imenso dela. Era um crucifixo, onde, esculpido, pendia curvado o Cristo agonizante. 
Carmen desviou-se, e a peça espalhou-se pelo chão, feita em pedaços. Cega, pela brutalidade do marido, o desrespeito por seu irmão e por ela própria, o sacrilégio e a heresia contra a imagem sagrada… perdeu as estribeiras. E, enquanto houve fragmentos palpáveis daquilo que tinha sido o símbolo do sacrifício de Cristo, a sua mão, como que movida pela Mão Divina ultrajada, fez deles projécteis e, com uma fúria que desconhecia possuir, uma fúria feita de muitas fúrias contidas, foi-os arremessando a esmo, contra a cabeça, o corpo, as pernas, daquele homem que a apunhalava nos sentimentos mais profundos – como se pretendesse destruir de vez o seu carácter aberrante! E só parou quando naquele chão não havia senão migalhas de barro e pó. Com elas se misturava, volátil, invisível, uma outra poeira de argila esboroada – massa de mulher doce, pacífica e paciente, a desfazer-se aos poucos, para dar lugar a uma mulher agressiva, descontrolada e vingativa. 
Mas Carmen ouviu a voz dessas poeiras invisíveis. Elas falaram-lhe: 
– Cuidado, mulher! Teu homem não há-de melhorar nunca, tu é que sem dares conta te vais degradando, te igualando a ele.  
Os indícios eram claros! Carmen tomou consciência disso e jurou a si própria não mais se deixar arrastar, cegar ao ponto de vir a dar por si moldada de barro sujo e lamacento! 
Curiosamente, passadas semanas, aquando de limpezas maiores, Carmen descobriu num canto, atrás de um móvel, qual relicário oculto, a cabeça intacta do seu Cristo, que parecia dizer-lhe: “Como vês, Carmen, continuo aqui!”

 

 

 
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