O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 

II PARTE

Capítulo XII

 

Recebo um telefonema de Carmen. A sua voz não soa clara como de costume. Parece longínqua.
– Viva, minha amiga! 
– Mas que bela surpresa, Carmen! Vamos encontrar-nos? 
– Estou um pouco longe, só se quiser vir ter comigo... 
– Bem me parecia. E onde está, posso saber? 
– Acabo de chegar a Viana do Castelo. 
– Mas que inveja! Desta vez nem me avisou... Pensa demorar-se? 
– Apenas três ou quatro dias, não mais. Serão os suficientes para afogar más lembranças nas belezas que me esperam. Mas agora tenho de desligar, desculpe, chegou o meu táxi. Contactá-la-ei logo que chegue a Lisboa. Não conte comigo antes da semana que vem!  
Quando eu ia para dizer, “divirta-se!”, já a ligação tinha caído.       
Cerca de uma semana depois, Carmen estava de volta e sentada à minha frente numa esplanada de Lisboa. O dia estava excessivamente quente. Notei as suas faces rosadas e um brilho acrescido nos seus olhos.  
– Vejo que está feliz! 
– É verdade, minha amiga. Sabe que ainda me espanta a capacidade de renovação que a mãe natureza nos dá? Acho até que já descrevi em versos essa minha admiração.    
– E o que é que lhe falta dizer em poesia, Carmen? 
– Boa pergunta! A mesma que faço a mim própria. O que me faltará dizer ainda? 
– Vamos então ao nosso trabalho? 
– Nem pensar, minha amiga! Hoje não me apetece desenterrar memórias. Prefiro falar-lhe das belezas de que ainda me sinto cheia. 
– Boa ideia! Fale-me então da sua viagem a Viana do Castelo, estou curiosa! 
Animada, Carmen começa a falar, daquele modo consecutivo e envolvente que a caracteriza e que eu tão bem conheço. Ao mesmo tempo, vai-me mostrando fotos e postais – outra das suas paixões. E, enquanto a minha mão corre laboriosa sobre o papel, deixo que a minha mente viaje pelos lugares percorridos pela minha narradora.  
Com ela, elevo-me sobre paisagens de sonho, onde a terra e a água se beijam e o rio se abraça ao mar, rodeado de uma flora densa e multicor. Subo no velho funicular, que guincha de dor ao rodar nos carris cansados, para nos conduzir pela montanha íngreme até ao pico do Monte de Santa Luzia. Aí, um deslumbrante miradouro presenteia-nos com uma vista arrebatadora que, seja pela altitude, pela beleza, ou por ambas, nos deixa sufocadas. Junto ao miradouro, não podemos deixar de visitar o templo-monumento de inspiração românica e bizantina, onde, majestosa, reina Santa Luzia, padroeira dos olhos.  
Depois, descidas das alturas, entramos em palácios e igrejas, recheados de imagens raras e vitrais preciosos, e ficamos extasiadas perante as talhas requebradas dos altares da Igreja de S.Domingos e frente ao magnífico retábulo da setecentista Capela da Senhora do Rosário.  
Muito atenta à contagiante narrativa de Carmen, continuo a imaginar-me, tal como ela, a passear pela Praça da República – um redondel de Arte – onde, muito juntos, convivem há séculos os Paços do Concelho, de traça medieval, e a Casa da Misericórdia, monumento renascentista. E quase posso sentir nas mãos a frescura do não menos altaneiro chafariz, orgulhosamente postado no centro da praça.  
De seguida, acompanho-a num verdadeiro roteiro histórico-cultural até Ponte de Lima que, no reinado de D. Fernando, era ponto seguro da defesa do norte do país. A unir as margens da Ribeira Lima, a ponte de traça romana mostra-nos os seus vinte e sete arcos, enquanto o nosso olhar se estende pelas douradas areias laterais que servem hoje de praia a turistas e veraneantes. Mas não nos perdemos pela praia. Perdemo-nos, sim, pela Igreja Matriz, que remonta a 1359; pela Igreja da Misericórdia, do século XVIII; pela Capela da Senhora das Penhas de França, mandada edificar em 1613 para que os presos pudessem assistir à missa. E, para que não se diluíssem da nossa memória, fotografámos imagens sagradas, policromos vitrais, retábulos de rua protegidos por pequenas portas gradeadas. 
Desta curta viagem, ficou a Carmen muito para ver e um já saudoso desejo de voltar. E a mim, uma saudável inveja de não tê-la acompanhado de verdade.  
Cogitando nisso, não posso deixar de perguntar-me como é possível certas pessoas cruzarem os céus e transporem oceanos em busca de belezas longínquas, sem nunca chegarem a conhecer as preciosidades que encerra o nosso Portugal. Talvez porque é mais “chic” dizerem que foram a Paris, a Londres, ao Japão... 
E Carmen estava certa. Aquele dia brilhante não era dia para desenterrar memórias... E a continuação do nosso romance ficou adiada para dias mais cinzentos.

Recebo um telefonema de Carmen. A sua voz não soa clara como de costume. Parece longínqua.
– Viva, minha amiga! 
– Mas que bela surpresa, Carmen! Vamos encontrar-nos? 
– Estou um pouco longe, só se quiser vir ter comigo... 
– Bem me parecia. E onde está, posso saber? 
– Acabo de chegar a Viana do Castelo. 
– Mas que inveja! Desta vez nem me avisou... Pensa demorar-se? 
– Apenas três ou quatro dias, não mais. Serão os suficientes para afogar más lembranças nas belezas que me esperam. Mas agora tenho de desligar, desculpe, chegou o meu táxi. Contactá-la-ei logo que chegue a Lisboa. Não conte comigo antes da semana que vem!  
Quando eu ia para dizer, “divirta-se!”, já a ligação tinha caído.       
Cerca de uma semana depois, Carmen estava de volta e sentada à minha frente numa esplanada de Lisboa. O dia estava excessivamente quente. Notei as suas faces rosadas e um brilho acrescido nos seus olhos.  
– Vejo que está feliz! 
– É verdade, minha amiga. Sabe que ainda me espanta a capacidade de renovação que a mãe natureza nos dá? Acho até que já descrevi em versos essa minha admiração.    
– E o que é que lhe falta dizer em poesia, Carmen? 
– Boa pergunta! A mesma que faço a mim própria. O que me faltará dizer ainda? 
– Vamos então ao nosso trabalho? 
– Nem pensar, minha amiga! Hoje não me apetece desenterrar memórias. Prefiro falar-lhe das belezas de que ainda me sinto cheia. 
– Boa ideia! Fale-me então da sua viagem a Viana do Castelo, estou curiosa! 
Animada, Carmen começa a falar, daquele modo consecutivo e envolvente que a caracteriza e que eu tão bem conheço. Ao mesmo tempo, vai-me mostrando fotos e postais – outra das suas paixões. E, enquanto a minha mão corre laboriosa sobre o papel, deixo que a minha mente viaje pelos lugares percorridos pela minha narradora.  
Com ela, elevo-me sobre paisagens de sonho, onde a terra e a água se beijam e o rio se abraça ao mar, rodeado de uma flora densa e multicor. Subo no velho funicular, que guincha de dor ao rodar nos carris cansados, para nos conduzir pela montanha íngreme até ao pico do Monte de Santa Luzia. Aí, um deslumbrante miradouro presenteia-nos com uma vista arrebatadora que, seja pela altitude, pela beleza, ou por ambas, nos deixa sufocadas. Junto ao miradouro, não podemos deixar de visitar o templo-monumento de inspiração românica e bizantina, onde, majestosa, reina Santa Luzia, padroeira dos olhos.  
Depois, descidas das alturas, entramos em palácios e igrejas, recheados de imagens raras e vitrais preciosos, e ficamos extasiadas perante as talhas requebradas dos altares da Igreja de S.Domingos e frente ao magnífico retábulo da setecentista Capela da Senhora do Rosário.  
Muito atenta à contagiante narrativa de Carmen, continuo a imaginar-me, tal como ela, a passear pela Praça da República – um redondel de Arte – onde, muito juntos, convivem há séculos os Paços do Concelho, de traça medieval, e a Casa da Misericórdia, monumento renascentista. E quase posso sentir nas mãos a frescura do não menos altaneiro chafariz, orgulhosamente postado no centro da praça.  
De seguida, acompanho-a num verdadeiro roteiro histórico-cultural até Ponte de Lima que, no reinado de D. Fernando, era ponto seguro da defesa do norte do país. A unir as margens da Ribeira Lima, a ponte de traça romana mostra-nos os seus vinte e sete arcos, enquanto o nosso olhar se estende pelas douradas areias laterais que servem hoje de praia a turistas e veraneantes. Mas não nos perdemos pela praia. Perdemo-nos, sim, pela Igreja Matriz, que remonta a 1359; pela Igreja da Misericórdia, do século XVIII; pela Capela da Senhora das Penhas de França, mandada edificar em 1613 para que os presos pudessem assistir à missa. E, para que não se diluíssem da nossa memória, fotografámos imagens sagradas, policromos vitrais, retábulos de rua protegidos por pequenas portas gradeadas. 
Desta curta viagem, ficou a Carmen muito para ver e um já saudoso desejo de voltar. E a mim, uma saudável inveja de não tê-la acompanhado de verdade.  
Cogitando nisso, não posso deixar de perguntar-me como é possível certas pessoas cruzarem os céus e transporem oceanos em busca de belezas longínquas, sem nunca chegarem a conhecer as preciosidades que encerra o nosso Portugal. Talvez porque é mais “chic” dizerem que foram a Paris, a Londres, ao Japão... 
E Carmen estava certa. Aquele dia brilhante não era dia para desenterrar memórias... E a continuação do nosso romance ficou adiada para dias mais cinzentos.

 

 

 
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