O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 

II PARTE

Capítulo XI

 

Depois de ter deixado seu filho como refém, vítima inocente de uma guerra entre inimigos do próprio sangue, Carmen sentiu que sem ele a sua liberdade perdia todo o sentido. Vencida, regressou ao seu quarto alugado, única e muda testemunha da sua gelada solidão. Era uma sexta-feira, ela recorda-se bem. Não podia contar sequer com o ombro da sua amiga. Lucinda tinha ido passar o fim-de-semana com a família, para fugir, também ela, à sua solidão. A Carmen não apetecia ver ninguém. Queria isolar-se na sua mágoa, buscar no silêncio a solução para recuperar o seu filho. Foi, talvez, o pior fim-de-semana da sua vida. Para explicar o que sentiu naqueles dois dias, que lhe pareceram anos, não consegue encontrar agora as palavras certas, cabendo-nos a nós imaginá-las!                    
Chegou a segunda-feira, derrubada, sem qualquer solução imediata. Seu sogro, apesar de tudo, o mais afável dos inimigos, procura-a no local de trabalho. Conversam. O seu discurso era semelhante ao de Diolinda: “Deves voltar, é a tua casa, o teu marido, blá, blá, blá...”. Ante a peremptória recusa de Carmen, Simão pretende que ela lhe diga pelo menos onde está a morar. Ela nega-se a dizer-lho. Simão oferece-lhe ajuda monetária, que ela recusa definitivamente. Por contrapartida, afirma-lhe que irá contactar um advogado para resolver pela justiça a posse de Pedro, ideia que já começara a germinar na sua cabeça. Simão não tem outra alternativa senão ir-se embora, sem poder levar a Jorge a resposta que ele desejava e não tivera coragem de colher pessoalmente. 
Um advogado era agora a ideia fixa de Carmen. Mas como conseguir o dinheiro para lhe pagar os honorários, as despesas para pôr um processo de divórcio em marcha? Um processo que teria de ser litigioso, pois o comum acordo era impensável. Teria de esperar muitos meses até poder juntar a quantia necessária, e talvez anos para que tudo ficasse resolvido...  
Passados dois dias, a ânsia de rever o seu menino leva-a ao colégio de Pedro. De lá regressou decepcionada. O menino não mais voltara à escola. Indignada, telefona ao sogro: 
– Por que não vai Pedro para o colégio? 
– Só irá quando voltares para casa! – Foi a resposta. 
Mais uma preocupação para Carmen, mais uma nuvem a toldar o já tão carregado céu dos seus dias. Como poderia ela suportar meses ou anos – nem imaginava quantos – até que a situação se resolvesse legalmente? Carmen começava a fraquejar. Não era mulher de sustentar raivas nem revoltas, e a falta que sentia do filho contribuía para as minorar.            
Mais dois ou três dias se passaram.  
Um fim de tarde, tinha ela acabado de regressar ao seu refúgio, quando é surpreendida pela voz da dona da casa que, batendo à porta do quarto, lhe diz: 
– Menina, está ali um sujeito que pretende falar-lhe. 
– A mim?... 
Quem seria?... – Sobressaltou-se. Ninguém sabia onde ela morava... 
Era Simão, que lhe tinha seguido os passos e vinha de novo convencê-la a voltar. Desta vez, trazia argumentos de peso: 
– Tens de voltar, Carmen. O menino não está bem. Não quer comer, não dorme, está até com um pouco de febre... Anda, pega as tuas coisas, tenho o carro lá em baixo. 
A fortaleza de Carmen, já minada, enfraquecida, desmoronou de vez. Como um adversário vencido pela fome, entregou-se; pela fome que sentia do seu menino e atormentada pela ideia de que também ele devia estar faminto dela.
Nem discutiu. Em minutos arrumou as poucas coisas. Simão foi descendo com a maleta enquanto ela dava uma explicação à dona da casa. 
– Eu já tinha percebido que o lugar da menina não era aqui. Faz bem em voltar para casa, para o seu marido. Têm um menino tão lindo... Zangas todos os casais têm, depois passa, é assim mesmo... 
Enquanto descia a escada, Carmen pensava: “Por que não sinto eu como toda esta gente que acha tudo isto natural? Serei eu que estou errada?...” 
Errada ou não, a verdade é que voltou. Era a segunda vez que, como um condenado, caminhava para o cadafalso. Mas, o poder abraçar seu filho, devolvê-lo à escola, ao conforto do seu quarto e dos seus brinquedos, ver o brilho feliz dos seus olhos, compensou-a da sua fraqueza. Por outro lado, Jorge, como já era hábito, parecia um outro homem. Cobriu-a de beijos e abraços e chorou a seus pés suplicando-lhe que lhe perdoasse. Carmen, ao invés de lhe agradarem estes gestos, detestava ver-se como objecto da sua humilhação, e já não conseguia definir os seus próprios sentimentos. Eles giravam num indecifrável remoinho, girândola de ódio e raiva, desprezo e pena. (Ou seria amor?)…  
Durante uns tempos, Carmen foi menos infeliz, dona daquela felicidade ilusória que nos é dada pela bonança que se segue a uma tempestade. Jorge esforçava-se por contrariar a sua natureza, mas ao mais leve descuido ela subia à cena. Era como um aspirante a actor que nunca consegue desempenhar em pleno a personagem que se propõe encarnar, e falha no papel estudado.        
Nele alternavam agora os momentos de depressão e de euforia. A seu pedido, Carmen volta a reunir algumas amizades antigas. Mas Jorge bebia demais e, pretendendo à viva força impor a sua razão, as conversas sobre política, religião, ou meramente sociais, sempre originavam discussões empolgadas que a deixavam nervosa e, por vezes, envergonhada, pela tibieza dos argumentos de seu marido. Além de que, o seu olhar, ostensivamente vigilante e desconfiado sobre ela, dissecando as suas palavras, perscrutando-lhe os menores gestos, também lhe criava um insuportável mal-estar. Jorge não se encaixava nas regras de convívio em sociedade. Se as reuniões eram em sua casa, as visitas cedo se despediam e raramente voltavam; se eram eles que se deslocavam, acedendo a convites, Jorge, desajustado a tudo e a todos, cedo pressionava Carmen a retirarem-se. De regresso a casa, a discussão era inevitável. Ela, porque se revoltava contra as suas atitudes, no mínimo, deselegantes. Ele, tentando justificar-se pela forma intencional como ela olhara ou sorrira para este ou aquele conviva, a maneira atrevida como cruzara as pernas, ou a provocante roupa que vestira, imagens estas que só existiam na sua imaginação doentia. Daí aos vocábulos grosseiros e ofensivos era um passo.  
Carmen acabou, de novo, com as amizades! Era menos um motivo de discórdia. De resto, ela já receava mover-se, dizer uma palavra em falso, fazer o mais simples gesto. Em suma, tinha medo de ser ela própria. Sozinhos andavam melhor. Saíam com Pedro aos sábados e domingos pela manhã, levavam-no a andar de bicicleta ou a qualquer parque infantil, tomavam um café numa esplanada. Carmen descobriu que pela manhã Jorge era mais tratável, menos conflituoso. Pouco ou nada conversavam, mas quanto menos falassem, melhor. Pelo menos, não discordavam. Após o almoço, depois de beber mais do que podia, Jorge já não era o mesmo. No pico da euforia provocada pela bebida, queria sair, visitar parentes e amigos, mas ela já sabia o que a esperava quando a curva da euforia tomasse o curso descendente. E recusava-se a sair. Então, Jorge dormia horas sem fim. Carmen tratava do arranjo da casa, fazia bolos, inventava receitas culinárias. Tricotava camisolas para o marido, para o filho, para ela. Pelo menos, entregue a essas artes, dava lastro à sua criatividade. Como ela própria costuma dizer, tudo tem um tempo certo... e aquele não era ainda o tempo da poesia. Poemas vinham-lhe à mente, mas ela não os segurava. Partiam sem que ela os acolhesse. Para que tomá-los em seu regaço, se naquele lar seriam como filhos enjeitados? 
E assim iam rodando os anos, num calendário que há muito tinha perdido a cor.  

 

 

 
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