O VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance) 
por

Carmo Vasconcelos

 

II PARTE

Capítulo X

 

Passava das dez da noite. Carmen, como se de repente acordasse de um pesadelo, vê-se na rua quase deserta, filho pela mão, caminhando apressada, prestes a correr, no medo de ser seguida. Olha para trás. Ninguém! Tenta acalmar-se, respira fundo, abotoa o sobretudo ao seu menino, levanta-lhe a gola, que a noite esfriava. Uma vergastada de ar frio no rosto ainda quente, trouxe-a de súbito à realidade. Para onde iria? Agora, a prima Lurdes estava a quilómetros de distância, e sua mãe talvez no primeiro sono, induzido pelo comprimido que tomava mal anoitecia. Não queria perturbá-la, contar-lhe o sucedido, sobrecarregá-la com um sentimento de culpa. Além de que Carmen conhecia de sobejo a opinião materna. Dir-lhe-ia, amedrontada: “volta para casa, filha, o teu lugar é ao lado do teu marido” Por outro lado,  seria o primeiro lugar onde Jorge a procuraria. Subitamente, um táxi. Manda-o parar e dá-lhe o primeiro endereço que lhe veio à mente: a morada de uma colega da Repartição. Não era uma colega qualquer. Era uma mulher especial. Mais velha do que Carmen, era madura, inteligente e avessa a preconceitos. Sob os cabelos pintados de louro, sempre impecavelmente encaracolados, existia um cérebro pensante. Sob o corpo elegante, sempre vestido a primor, batia um coração cheio de humanidade, revoltado contra as injustiças sociais, particularmente as que eram cometidas contra a mulher. Este era o retrato de Lucinda, visto por Carmen. De forma superficial e equívoca a retratavam os outros. As mulheres, por inveja – da beleza, dos trapos, da forma ousada como afrontava o mundo. Os homens, talvez por despeito – por não obterem os seus favores. O maior defeito que lhe apontavam os pudicos era o de ter por amante um homem casado – opinião que ela desprezava totalmente. Lucinda entendia de literatura, de história e de política. Carmen, que não apreciava as tricas e mexericos, os assuntos insípidos e vulgares das sérias e bem-casadas colegas, era com ela que mais conversava. Nela apreciava também, o modo como ajudava a família de menores recursos, como incentivava e abonava os estudos dos sobrinhos pequenos. Lucinda nunca casara, não tinha filhos, vivia sozinha. O amante visitava-a duas ou três noites por semana, excluindo, obviamente, os domingos e feriados.   
E foi a esta mulher que Carmen recorreu. Ela abriu-lhe a porta de sua casa, instalou-a a ela e ao filho o melhor que pôde, apoiou-a e confortou-a.  
Aqui, Carmen fez uma pausa: 
– Era uma mulher invulgar. Morreu cedo – quarenta e poucos anos – vítima de um ataque cardíaco fulminante. A sua última vontade, que deixou escrita, foi que a deixassem caminhar para o Além da mesma forma que tinha vindo a este mundo, simplesmente nua! 
Mas, continuemos! 
No dia seguinte, depois daquela noite angustiante e mal dormida, Carmen levou Pedro à escola e faltou ao emprego. Com as ideias mais claras, constatou que na sua fuga apressada não tinha levado consigo uma única muda de roupa, nem para si nem para Pedro. Nem sequer a mala da escola do menino.  
Pela tarde, aproveitando o horário em que sabia seu marido ausente, Carmen dirige-se a casa, a casa que deixara de considerar sua. Solidária, Lucinda acompanha-a. Aí, tenta meter a chave à porta, mas, surpresa das surpresas, a chave não entra. Confusa e perturbada, julga ter-se enganado no andar, no prédio... mas não, era ali mesmo. Jorge não tinha perdido tempo, tinha mandado mudar a fechadura, talvez com medo que sua mulher o roubasse. Prova de que não conhecia a mulher que tinha... tão desapegada dos bens materiais. 
Por momentos, ficou sem saber o que fazer. Não queria nada daquela casa, só da roupa necessitava. Não era de um dia para o outro que podia refazer o vestuário essencial, seu e de Pedro. Se bem que alguns adereços de cama e de banho também lhe fariam falta... e esses nem sequer tinham sido adquiridos pelo casal; tinha-os levado ela no seu enxoval de noiva. Lençóis bordados, com rendas (algumas tecidas pelas suas próprias mãos), turcos e atoalhados da melhor qualidade, comprados por ela e por sua mãe com a ajuda dos seus ordenados. Mas Carmen nem pensava nisso, levaria apenas o indispensável.     
Inspiradamente, teve uma ideia. Telefonou para uma firma especializada, alegando que tinha perdido as chaves da residência. Demoraram a chegar. Depois de muitas perguntas e com o testemunho da porteira que confirmou ser ela a dona da casa, não puseram objecções e desbloquearam a fechadura, facultando-lhe a entrada. Carmen respirou, aliviada. O tempo urgia. Porém, pé no “hall” de entrada, deparou-se com outro problema. Seu marido não se tinha limitado a mudar a fechadura da porta de entrada. Todas as portas estavam fechadas à chave, com excepção da cozinha. Carmen desanimou, quase desistiu, mas custava-lhe dar-se por vencida. Felizmente, as portas eram mistas – metade madeira, metade vidro. Munindo-se de um utensílio doméstico achado na cozinha, não teve outra alternativa senão partir a metade vidrada do quarto onde guardava a maior parte das roupas e, com a ajuda de um banco da cozinha, saltar através dela.  
Rapidamente, meteu numa pequena maleta as peças de vestuário mais necessárias. Depois, abandonou a casa, sem culpa nem remorsos, que a revolta era maior e abafava todos os outros sentimentos. Abafava até as dores agudas de alguns golpes que sangravam, após aquela aventura rocambolesca por entre vidros estilhaçados.  
Tudo o que queria, então, era começar uma vida nova com o seu filho, em paz, sem conflitos, medos, mentiras e dissimulações.  
Foi a sua primeira tentativa de libertação...  
Passados dias, conversou com Lucinda. Apesar de toda a boa vontade da amiga, mãe e filho não poderiam continuar por muito tempo dormindo no sofá da sala, imiscuindo-se na privacidade daquela que de coração aberto lhes tinha dado guarida. O desejo de Carmen era alugar uma casa, mesmo que pequena, mas feitas as contas, não podia por enquanto aspirar a tanto. Havia ainda a mensalidade do colégio de Pedro. E essa era sagrada!  
Contentou-se pois com um quarto alugado em casa de uma senhora que morava na mesma rua de Lucinda, e foi esta que lhe abonou o dinheiro para o primeiro aluguer. Pelo menos, teria a amiga por perto, para o caso de surgir qualquer outra necessidade. Além disso, a morada não distava muito do seu local de trabalho, podia ir a pé. O quarto era amplo, luminoso, com uma janela para a rua, alegremente adornada de cortinados coloridos. Mobilado de forma simples, tinha porém o necessário. A cama, vestida de forma muito limpa e graciosa, era ladeada por duas mesas-de-cabeceira onde poisavam candeeiros de “abat-jour” cor-de-rosa. Carmen poderia até ler antes de dormir. Havia ainda um guarda-vestidos com porta de espelho e uma cómoda com gavetas à qual se encostava uma cadeira. Pedro poderia fazer os trabalhos da escola sobre a cómoda e ela teria onde arrumar as roupas que levara.   
Carmen transportou a sua pequena bagagem e instalou-se, não lhe passando despercebido o ar atónito com que a dona da casa a mirava a si e ao pequeno. Devia haver algo que a senhoria não compreendia, algo diferente das hóspedes que habitualmente a procuravam. Porém, não fez perguntas e Carmen nada lhe explicou.  
Pedro pareceu compreender tudo. Estava sereno e não perguntava pelo pai. Embora a mãe não soubesse o que ia dentro dele (nunca sabemos o que verdadeiramente se passa na mente e no coração das crianças) preferiu pensar que a seu filho bastaria o estar junto dela. Não era ela, afinal, a sua companheira de todas as horas?    
No dia seguinte, já mais organizada, levantou-se cedo, cuidou do seu menino e levou-o ao colégio, como era hábito. De caminho, comprou-lhe uma mochila nova e alguns cadernos. Depois, retomou o seu emprego, como se nada se houvesse passado. Sentia-se tranquila, aliviada, como se lhe tivessem retirado de sobre os ombros um peso do tamanho do mundo. Ao fim da tarde foi buscar Pedro que, como sempre, correu para ela, risonho. Compraram um pequeno livro de histórias, comeram qualquer coisa numa pastelaria que ficava perto, e recolheram à exígua morada. Uma súbita angústia oprimiu-lhe o peito quando abriu a porta daquele quarto. Parecia-lhe agora tão frio! Nem um objecto familiar... Um quadro, um “bibelot”, uma jarra, pequenos nadas que, parecendo esquecidos à força de nos rodearem diariamente, nos fazem falta quando os não vemos.   
Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Tinha caído a noite, e a noite é mestra em devolver-nos angústias. Carmen sacudiu a estranha sensação que a tomara, recompôs-se, conversou e brincou com o seu filho. Ele fez a cópia, as contas, arrumou a mochila para o dia seguinte. Pedro continuava sem fazer perguntas, sem falar nas tristes cenas que presenciara. Ela também não tocava no assunto, receosa de lhe avivar a memória.  
– Pedro, vamos escolher a roupa para amanhã? Podem ser as calças azuis e a camisola de riscas vermelhas. Que achas? 
– Essa camisola não, mamã! Pica! Quero a do Mickey. 
– Está bem! – Concordou Carmen. 
Escolhida a roupa, deitaram-se lado a lado – que a cama era de casal. Pedro ficou contentíssimo.  
– Agora posso dormir sempre contigo, mamã? 
– Por agora tem de ser, filho! Não temos outra cama. Mas qualquer dia a mamã arranja uma casa bonita e voltas a ter um quarto só para ti.  
– Que bom! Vamos ler a história do livro novo? 
– Só um bocadinho. Lemos um pouco do teu livro, depois a mamã lê o jornal. 
Entre a leitura e muitas perguntas relacionadas com a história infantil – um valente cavaleiro que salva a princesa das garras do dragão – não tardou que Pedro adormecesse e mergulhasse em sonhos, encarnando talvez o herói do livro que, entretanto, lhe tombara das mãos.  
Carmen leu o jornal de ponta a ponta. Lamentou não ter levado os seus livros, alguns deixados a meio da leitura; um ou outro “bibelot” de estimação, molduras com fotos... Todavia, depois da chocante experiência que tinha sido a sua ida a casa, não pensava em lá voltar... O sono, espantado decerto pela estranheza da cama, teimava em não se aproximar. E lá estava ela, de novo, entregue aos seus pensamentos. Como estaria Jorge? E os seus sogros, que já deviam saber do sucedido? E sua mãe, em cuja casa Jorge já a devia ter procurado?... Carmen não podia evitar o estar preocupada com todos eles. Com que surpresa não teria o seu marido deparado com os vidros partidos, o roupeiro desfalcado; com a prova da sua impotência, apesar das medidas drásticas tomadas?... Por fim, o cansaço venceu-a. Dormiu inquieta, teve pesadelos, até que a manhã seguinte chegou. Já no emprego, depois de ter deixado Pedro no colégio, telefonou a sua mãe. Se ela nada soubesse, nada lhe contaria ainda, para não a preocupar. Mas logo percebeu que ela já sabia de tudo (de tudo mesmo?...) quando esta, aflita, lhe pergunta: 
– Onde estás, Carmen? E o menino? Porque não vieste para cá?  
– Calma, mãezinha! Eu estou bem e o menino também. Depois te conto tudo. Mas como soubeste? 
– O teu marido já cá esteve. Julgava encontrar-te aqui. E eu sem saber de nada... Tens de voltar para casa, filha, ele está desolado. Tem aquele feitio mas gosta de ti... Chorou agarrado a mim, pedindo que te fizesse regressar. E eu sem saber onde estás... A princípio, nem me acreditou, julgava que eu estava a mentir, tive de lhe jurar pela alma do teu padrinho, que Deus o tenha em descanso! 
– Não te preocupes, mãe, assim que eu puder vou ter contigo e falamos melhor. Fica descansada. 
Decerto, Jorge não contara à sogra – quando se agarrou a ela a chorar – que tudo tinha acontecido por causa da sua visita. Jorge era assim mesmo, tal como Carmen diz: “Um cordeiro que não se lembrava (ou fingia?...) de ter vestido a pele do lobo.” – Ou seria um lobo que vestia a pele de cordeiro quando lhe convinha?... – Pergunto eu. 
Carmen estava decidida a seguir um novo rumo. Chegado o fim da tarde, dirige-se apressada à escola de Pedro. Fariam como no dia anterior, o tempo iria passando – o tempo que tudo resolve – e, aos poucos, as suas vidas tomariam novas directrizes. 
Porém, chegada à escola, uma terrível surpresa! O avô tinha ido buscar o menino mais cedo. Cortou-se-lhe a respiração. Não podia sequer insurgir-se contra a educadora, pois ela conhecia bem Simão, era costume ele ir buscar o neto de vez em quando. Carmen disfarçou o nervosismo, fingiu ter-se esquecido dessa combinação com o sogro, e despediu-se da professora como se tudo estivesse bem. Já na rua, teve de encostar-se a uma parede. As pernas recusavam-se a caminhar. A custo, andou meia dúzia de passos, entrou num café, sentou-se, pediu uma água. Não sabia que fazer. A chantagem estava armada! Eles conheciam o seu ponto fraco! Como numa batalha, captada a fraqueza do inimigo, toma-se a vitória como assegurada. Carmen já adivinhava! Mas não julgava que fosse tão rápido! A peleja prometia ser dura, porém, não se entregaria sem luta! 
Decidiu-se. Iria a casa dos sogros, contaria o que verdadeiramente se passara. Depois de saberem a verdade, não podiam deixar de dar-lhe razão! Ainda tremendo, pôs pés ao caminho. Não consegue recordar-se hoje de quem lhe abriu a porta. O marido, que temia encontrar, não estava lá. O sogro também não. A casa parecia deserta. Não via a sogra, nem o pequeno Pedro. Desvairada, entrou casa adentro, perguntando:  
– O meu filho? Onde está o meu filho?  
Depois de correr várias divisões, foi descobrir avó e neto escondidos numa varanda. Rosalina, agarrando e escondendo o menino, como se o defendesse de um malfeitor, berrou:  
– O menino não sai daqui! Ponha-se na rua!  
Carmen ficou atónita. Então, ela é que era a malvada? Fez menção de pegar o menino. Rosalina agarrava-o, apertando-o contra os joelhos, e, colérica, só dizia:  
– Daqui não o leva, já disse! Rua! Rua!
Pedro, aprisionado à avó, não dizia palavra, não chorava, não fazia um gesto. Então, Carmen chamou-o, docemente, estendo-lhe os braços:  
– Pedrinho, vem cá, vem à mamã...  
Mas aí, Carmen ouviu, estarrecida:  
– Não! Não! – Gritou o menino, agarrando-se mais à avó. 
A este passo da narrativa, eu que escrevia sem parar, não querendo fazer uma única pergunta das mil que me queimavam a língua, para não perturbar o livre jorrar das memórias – pesadas memórias! – Vi-me compelida a exclamar: 
– Que coisa horrível, Carmen! E ao mesmo tempo tão estranha! Que teria passado pela cabeça dessa criança, naquele momento?... Ou que blasfémias lhe teriam dito da mãe?... 
– Naquela hora, minha amiga, não pensei nisso. Aquela inesperada reacção do meu filho – tão meigo, tão apegado a mim… – o facto de ele não me querer, deitou-me por terra, deixou-me sem acção.  
– E não fez mais nada? A Carmen, sempre tão decidida... 
– Há horas, minha amiga, em que a emoção se sobrepõe à acção. E, felizmente, que naquela hora foi assim. Porque se a acção se tivesse sobreposto... teria sido, terrível. Eu teria derrubado e desfeito aquela mulher, como uma leoa que defende a cria. Mas, um polícia oculto dentro de mim, alertou-me para a minha condição humana e travou a acção antes que ela eclodisse... E eu… fugi! Fugi porta fora, galgando a quatro e quatro as escadas daquele quarto andar que tantas vezes antes fora albergue das minhas lágrimas. Naquele lugar, não mais as derramaria! 
– E depois, Carmen? 
– Depois?... Vi-me na rua, completamente perdida. As lágrimas, até aí corajosamente contidas, rolavam agora sem destino, como eu. Tinha-me preparado para enfrentar uma batalha – não para deixar um refém, um refém pelo qual eu daria a própria vida. 
Foi então que aquelas lágrimas antigas, saltando uma barreira de trinta anos, marejaram os olhos da minha narradora e tombaram, teimosas. .   
– Minha querida Carmen, perdoe-me se a minha interrupção foi a causa... 
Carmen não me deixou acabar. 
– A causa? Não, minha amiga! Essa foi há muito tempo atrás. De vez em quando até me faz bem chorar. De contrário, julgaria ter moído para sempre essa válvula de escape, à força de tanto a ter usado. Tenho até um poema que, a dado passo, fala do benefício dos nossos prantos:
     
Desnuda-te de medos
e de raivas
e banha-te na chuva expurgadora
das tuas lágrimas.
Dissiparás as névoas
e lavar-te-ás do pó da tua angústia!

 

Mais do que o cansaço, a emoção tinha tomado conta de nós, pelo que decidimos parar por aqui. E para não partirmos carregando connosco o peso de tão acres recordações, ficámos ainda um pouco mais, falando de coisas mais alegres. Enquanto bebíamos um café e fumávamos um cigarro, Carmen mostrou-me as últimas fotos do Diogo, e o seu semblante desanuviou-se ao falar-me da alegria que lhe dá o vê-lo crescer, ouvir as suas primeiras palavras, desfrutar das suas graças diariamente renovadas.    
Combinámos continuar no dia seguinte. À despedida, afaguei-lhe as mãos e abracei ternamente aquela mulher – uma fortaleza que esconde uma terra ardente, um rio de sensibilidade, um jardim de poesia!

 

 

 
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