Carmo Vasconcelos

 

 

"FÉNIX"

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Revistas

TEIXEIRA DE PASCOAES
Por Carmo Vasconcelos

 

Teixeira de Pascoaes
1877/1952


Uma das figuras mais proeminentes da literatura e da cultura portuguesas do século XX, Teixeira de Pascoaes (Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos) é estruturalmente um poeta-filósofo, mesmo quando se instaura como mentor do Saudosismo ou resvala da poesia para outros géneros literários, cujo hibridismo (de géneros e de linguagem) tem vindo a ser explorado pela crítica moderna. Nascido a 2 de Novembro de 1877, em Amarante (Gatão), cursa Direito em Coimbra (1896-1901) e chega a exercer profissão, durante dez anos, no Porto, entregando-se depois, e até à data da sua morte (1952), à escrita, recolhido no solar cujo nome adoptou (Pascoaes), no seio da paisagem da sua intimidade – o Marão e o Tâmega, que eleva, enquanto canto à Terra e à Natureza, em termos míticos e místicos, a uma figura integral do Mundo e do destino humano.A sua estreia no parnaso português, numa procura de rumo entre as diversas tendências herdadas da viragem do século, não foi brilhante. Em 1895 publica a primeira obra poética, Embriões, que merece a crítica menos favorável de Guerra Junqueiro. Nas obras que imediatamente se seguem, Belo I (1896) e Belo II (1897) e À Minha Alma (1898), transparece já uma vivência original, que toma o Homem como centro e caminho de uma ascensão espiritual crescente, transformando o material em espiritual, a memória em sonho, o Real em Irreal, a presença corpórea em ausência saudosa. As coordenadas do seu universo imaginário, já imbuído do que mais tarde chamaria Saudade, estavam lançadas. Mas a sua consagração só seria alcançada com Sempre (1898), que simboliza o encontro do poeta consigo mesmo. Nesta obra estão já patentes traços que tornarão a sua poesia inconfundível: a fusão do subjectivo e do objectivo; o sentimento religioso das coisas, esse além que, num mesmo instante, se esconde e se revela nas sombras, nos fantasmas e nos espectros; o fascínio pelo mistério e pela substância enigmática de tudo o que o rodeia; a vocação mística, que tudo transforma.
http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/tpascoaes.html

(Pesquisa e montagem de Carmo Vasconcelos)
In Revista eisFluências Abril/2010
http://www.eisfluencias.ecosdapoesia.org

 


TEIXEIRA DE PASCOAES
Por Madalena Gomes
(In Memoriam)


Teixeira de Pascoaes, pseudónimo do poeta Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, foi um surrealista antes do surrealismo. Ele e António Nobre os dois “solitários” da nossa literatura. Solidão diferente, no entanto. Enquanto António Nobre se deleitava com a solidão, Pascoaes era a própria solidão. Refugiava-se nela como numa fortaleza. À semelhança de Luís da Baviera, que fazia dos seus castelos um miradouro para o mundo, Teixeira de Pascoaes tornou-se ermita no Marão. De lá olhava os outros homens à distância, como um semideus. Das cores deslumbrantes da paisagem que o rodeava tirava como de uma harpa os tons magoados, os cinzentos os arroxeados. A paisagem do Marão sabia-a de cor. Raro era o dia que não mergulhava nela. O Solar de Pascoaes, a 3 Kms. de Amarante, era o seu poiso favorito. O Marão que ele amava estendia-se a perder de vista. Como resistir-lhe? A sua Obra casa com a paisagem. É uma vasta exposição de coisas belas, indizíveis, eivadas de espiritualidade. Ele próprio puro espírito. Dizer que Pascoaes foi um dos monstros Sagrados da nossa literatura, é fazer-lhe justiça. Mais ainda: foi o mais português dos nossos poetas, o que melhor espelhou a alma nacional. Os seus livros reflectem as características e idiossincrasias da nossa gente. Cada português é uma saudade viva. A angústia do poeta é a nossa própria angústia. Pronta a vir à tona em qualquer emergência… Ao contrário do povo espanhol que é alegre, nós somos tristes. Temos uma tendência inata para o sofrimento, de certo modo o masoquismo. Mesmo estuando de juventude, Teixeira de Pascoaes refugiava-se na melancolia como num estojo. Nisso muito diferente do pai, João Pereira Teixeira de Vasconcelos, que era alegre e extrovertido. Contudo pai e filho compreendiam-se. Houve sempre entre eles uma espécie de cumplicidade. E, é justo dizer, que foi o pai a pessoa que mais o influenciou, o que lhe incutiu, desde os verdes anos a paixão pela cultura. Ele próprio dotado de grande inteligência e erudição. Ao pé dele o filho parecia um mono, um desmancha-prazeres. Fugia do bulício, da alegria fácil. E sempre assim foi, a vida inteira. Mesmo em Coimbra onde se formou em Direito, Pascoaes só se sentia bem entre os seus papéis. O seu quarto era a sua "Torre de Anto". O curioso é que nesse tempo era um bonito rapaz. No dizer de Eugénio de Andrade, “morenaço de cabelo negro e basto, sobrancelhas espessas, uns olhos imensos e luminosos.”
Concluído o curso, estava-se em 1901, parte para Amarante para exercer advocacia. É ainda em Amarante que se torna juiz substituto, cargo que exerceu durante dois anos. Dessa experiência Pascoaes dirá mais tarde “entre o poeta natural e o advogado à força ia começar um duelo que durou dez anos, tanto como o cerco de Tróia e a formatura de João de Deus”. Entre 1912 e 1926 dirige a revista “A Águia”, arauto da Renascença Portuguesa. Aí o poeta divulga a sua filosofia do Saudosismo, que pretende inculcar a Saudade como expressão suprema da alma nacional.
Entretanto, um após outro, os livros iam surgindo. Em 1895 publica “Embriões” e, durante o período de estudante, “Belo”, “Sempre”, “Terra Prometida”. Estes dois últimos livros chamaram já a atenção da crítica. Segundo Jacinto Prado Coelho, “prenunciam o Sonambulismo, o poder de colocar-se no centro subjectivo da vida e
de não sair dele, o alheamento dos outros homens, a imaginação do abstracto, o sentimento religioso das coisas”, que tornariam inconfundível a sua poesia.
A partir de 1916, embora ainda ligado à revista “Águia”, abranda a sua actividade para se dedicar quase em exclusivo à Sua Obra. José Gomes Ferreira fala desse período da vida do poeta dizendo da influência do Marão na sua criação artística “naquele cenário de aspectos roucos, alheio à quotidiana da Terra dos homens meio anjos meio demónios”. A grandiosidade da paisagem que defronta coloca-o “perto dos deuses iniciados”, ainda no dizer de Gomes Ferreira. O contemplativo em Pascoaes está no seu elemento. De nada mais precisa para ser ele próprio. Os livros que publica a partir de 1916 refrectem esse estado de graça. E são “Contos Indecisos”, 1921; “Cânticos”, 1925; “Sonetos”; no mesmo ano “Últimos Versos”, já em 1953, (livro póstumo, pois faleceu em 1952). Ainda como advogado outros livros tinham vindo a lume: "Jesus e Pã”, 1903; “As Sombras”, 1907; “Senhora da Noite”, 1909; “Marânus”, 1911; “egresso ao Paraíso”, 1912; no mesmo ano “Elegias”, “O Doido e a Morte”, no ano seguinte: “O Verbo Escuro” (prosa poética), 1914. Pascoaes, além da poesia cultivou também e com o mesmo esplendor, outras formas literárias: Teatro, Ficção, Ensaio, Biografia. Neste último género de destacar: “S.Paulo” e “S.Jerónimo”; no ensaio “A Arte de Ser Português”. Enfim, todo um mundo denso, vulcânico, pronto a explodir. Contudo, como sempre acontece aos grandes homens, o vidente do Marão conheceu a contradita, a incompreensão. De notar que Fernando Pessoa tinha por ele uma espécie de antipatia… e dava-se o inverso. Outros poetas e escritores o ignoraram. Por outro lado, Pascoaes só tinha em grande conta Raul Brandão. No que me toca e a todos que aqui estão, espero, Teixeira de Pascoaes foi um dos maiores poetas portugueses.

Madalena Gomes
Lisboa/Portugal, ano 2004

 

Madalena Gomes
Lisboa/Portugal

 


Madalena Gomes, escritora portuguesa, nasceu nos Açores, em 1928, e faleceu em Lisboa, no passado mês de Fevereiro de 2010. Deixou 20 livros para a infância e um romance para adultos, intitulado “Regresso à Casa do Ontem”.
Para adolescentes escreveu várias biografias de músicos e de pintores.
Madalena Gomes era sócia da Associação Portuguesa de Escritores, Sociedade Portuguesa de Autores, Associação Fernando Pessoa, Associação Portuguesa de Poetas, e Cenáculo Literário Marquesa de Valverde. Era membro do Lyons Club Internacional e pertencia ao Instituto de Apoio à Criança.
Mostrem às vossas crianças os seus E-Books divertidos e didácticos, em:
delnerobookstore.com/bibliotecas_virtuais/madalena_gomes/index.htm


(Divulgação de Carmo Vasconcelos)

 

ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Um herói que parece continuar esquecido nos
livros de História

Por Carmo Vasconcelos

 
Aristides de Sousa Mendes
1885/1954



Vi há dias a notícia de que este Grande Português, foi homenageado numa emocionante cerimónia na embaixada de Paris. Portuguesa que sou, e cuja infância coincidiu com o princípio e o fim da 2ª Guerra Mundial, recordo-me, vagamente, de ouvir falar dele à boca pequena, que a mais não era permitido pelo então regime Salazarista. Hoje, memória avivada, não resisto, a falar-vos deste homem, modelo de elevado altruísmo, que, mesmo sabendo incorrer em grandes riscos, não hesitou em desobedecer às ordens superiores, para seguir a voz da sua consciência. (Carmo Vasconcelos)

Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches, foi um diplomata português. Nascido em Cabanas de Viriato (distrito de Viseu) a 19 de Julho de 1885, foi Cônsul de Portugal em Bordéus no ano da invasão da França pela Alemanha Nazi na Segunda Guerra Mundial. Sousa Mendes desafiou ordens expressas do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, António de Oliveira Salazar, (cargo ocupado em acumulação com a chefia do Governo) e concedeu 30 mil vistos de entrada em Portugal a refugiados de todas as nacionalidades que desejavam fugir da França em 1940.
Aristides de Sousa Mendes salvou dezenas de milhares de pessoas do Holocausto. Chamado de "o Schindler português", Sousa Mendes também teve a sua lista e salvou a vida de milhares de pessoas, das quais cerca de 10 mil judeus.
Aristides pertenceu a uma família aristocrática rural, católica, conservadora e monárquica - (ele também católico e monárquico). Seu pai era membro do supremo tribunal. Pelo lado familiar "Sousa", descendente de Madragana Ben-Bekar (de quem houve filhos El-Rei D. Afonso III). Esta Senhora pertencia à Comunidade Judaica de Faro, cuja ascendência provinha do próprio Rei David de Israel.
Aristides instala-se em Lisboa em 1907 após a licenciatura em Direito pela Universidade de Coimbra, tal como o seu irmão gémeo. Ambos enveredaram pela carreira diplomática. Em 1909 nasceu seu primogénito, tendo ao todo 14 filhos com sua mulher Angelina.
Aristides ocupou diversas delegações consulares portuguesas pelo mundo fora, entre elas: Zanzibar, Brasil, Estados Unidos da América.
Em 1929 é nomeado Cônsul-geral em Antuérpia, cargo que ocupa até 1938. O seu empenho na promoção da imagem de Portugal não passa despercebido. É condecorado por duas vezes por Leopoldo III, rei da Bélgica, tendo-o feito oficial da Ordem de Leopoldo e comendador da Ordem da Coroa, a mais alta condecoração belga. Durante o período em que viveu na Bélgica, conviveu com personalidades ilustres, como o escritor Maurice Maeterlinck, Prémio Nobel da Literatura, e o cientista Albert Einstein, Prémio Nobel da Física.
Depois de quase dez anos de serviço na Bélgica, Salazar, presidente do Conselho de Ministros e ministro dos negócios estrangeiros, nomeia Sousa Mendes cônsul em Bordéus, França.
Aristides de Sousa Mendes permanece ainda cônsul de Bordéus quando tem início a Segunda Guerra Mundial, e as tropas de Adolf Hitler avançam rapidamente sobre a França. Salazar manteve a neutralidade de Portugal.
Pela Circular 14, Salazar ordena aos cônsules portugueses espalhados pelo mundo que recusem conferir vistos às seguintes categorias de pessoas: "estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio; os apátridas; os judeus, quer tenham sido expulsos do seu país de origem ou do país de onde são cidadãos".
Entretanto, em 1940, o governo francês refugiou-se temporariamente na cidade, fugindo de Paris antes da chegada das tropas alemãs. Milhares de refugiados que fogem do avanço Nazi dirigiram-se a Bordéus. Muitos deles afluem ao consulado português desejando obter um visto de entrada para Portugal ou para os Estados Unidos, onde Sousa Mendes, o cônsul, caso seguisse as instruções do seu governo, distribuiria vistos com parcimónia.
Já no final de 1939, Sousa Mendes tinha desobedecido às instruções do seu governo e emitido alguns vistos. Entre as pessoas que ele tinha então decidido ajudar encontra-se o Rabino de Antuérpia, Jacob Kruger, que lhe faz compreender que há que salvar os refugiados judeus.
A 16 de Junho de 1940, Aristides decide conceder visto a todos os que o pedissem: "A partir de agora, darei vistos a toda a gente, já não há nacionalidades, raça ou religião". Com a ajuda dos seus filhos e sobrinhos e do rabino Kruger, ele carimba passaportes, assina vistos, usando todas as folhas de papel disponíveis.
Confrontado com os primeiros avisos de Lisboa, ele terá dito: "Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus".
Uma vez que Salazar tomara medidas contra o cônsul, Aristides continuou a sua actividade de 20 a 23 de Junho, em Baiona (França), no escritório de um vice-cônsul estupefacto, e mesmo na presença de dois outros funcionários de Salazar. A 22 de Junho de 1940, a França pediu um armistício à Alemanha Nazi. Mesmo a caminho de Hendaye, Aristides continua a emitir vistos para os refugiados que cruzam com ele a caminho da fronteira, uma vez que a 23 de Junho, Salazar demitira-o de suas funções de cônsul.
Apesar de terem sido enviados funcionários para trazer Aristides, este lidera, com a sua viatura, uma coluna de veículos de refugiados e guia-os em direcção à fronteira, onde, do lado espanhol, não existem telefones. Por isso mesmo, os guardas fronteiriços não tinham sido ainda avisados da decisão de Madrid de fechar as fronteiras com a França. Sousa Mendes impressiona os guardas aduaneiros, que acabariam por deixar passar todos os refugiados, que, com os seus vistos, puderam continuar viagem até Portugal.



O seu castigo no Portugal de Salazar


A 8 de Julho de 1940, Aristides, de volta a Portugal, será punido pelo governo de Salazar, que priva o diplomata de suas funções por um ano, diminuindo em metade o seu salário, antes de o enviar para a reforma. Para além disso, Sousa Mendes perde o direito de exercer a profissão de advogado. A sua licença de condução, emitida no estrangeiro, também lhe é retirada.
O cônsul demitido e sua família, bastante numerosa, sobrevivem graças à solidariedade da comunidade judaica de Lisboa, que facilitou a alguns dos seus filhos os estudos nos Estados Unidos. Dois dos seus filhos participaram no Desembarque da Normandia.
Ele frequentou, juntamente com os seus familiares, a cantina da assistência judaica internacional, onde causou impressão pelas suas ricas vestimentas e sua presença. Certo dia, teve de confirmar: "Nós também, nós somos refugiados".
Em 1945, Salazar felicitou-o por Portugal ter ajudado os refugiados, recusando-se no entanto a reintegrar Sousa Mendes no corpo diplomático.
A sua miséria será ainda maior: venda dos bens, morte de sua esposa em 1948, emigração dos seus filhos, com uma excepção. Após a morte da mulher, Aristides de Sousa Mendes viveu com uma amante francesa que, segundo testemunhos da época, muito contribuiu para a sua miséria.
Aristides de Sousa Mendes faleceu muito pobre, a 3 de Abril de 1954, no hospital dos franciscanos em Lisboa. Não possuindo um fato próprio, foi enterrado com um hábito franciscano.



Reconhecimento


Em 1966, o Memorial de Yad Vashem (Memorial do Holocausto situado em Jerusalém) em Israel, presta-lhe homenagem atribuindo-lhe o título de "Justo entre as nações". Já em 1961, haviam sido plantadas vinte árvores em sua memória nos terrenos do Museu Yad Vashem.
Em 1987, dezassete anos após a morte de Salazar, a República Portuguesa inicia o processo de reabilitação de Aristides de Sousa Mendes, condecorando-o com a Ordem da Liberdade e a sua família recebe as desculpas públicas.
Em 1994, o presidente português Mário Soares desvela um busto em homenagem a Aristides de Sousa Mendes, bem como uma placa comemorativa na Rua 14 quai Louis-XVIII, o endereço do consulado de Portugal em Bordéus em 1940.
Em 1995, a Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses (ASDP) cria um prémio anual com o seu nome.
Em 1996, o grupo de escuteiros de Esgueira (Aveiro) homenageou-o criando o CLÃ 25 ASM (Aristides de Sousa Mendes)
Em 1998, a República Portuguesa, na prossecução do processo de reabilitação oficial da memória de Aristides de Sousa Mendes, condecora-o com a Cruz de Mérito a título póstumo, pelas suas acções em Bordéus.
Em 2005, na Grande Sala da Unesco em Paris, o barítono Jorge Chaminé organiza uma Homenagem a Aristides de Sousa Mendes, realizando dois Concertos para a Paz, integrados nas comemorações dos 60 anos da Unesco.
Em 2006 foi realizada uma acção de sensibilização: "Reconstruir a Casa do Cônsul Aristides de Sousa Mendes", na sua antiga casa em Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, e na Quinta de Crestelo, Seia - São Romão.
Em 2007, um programa televisivo da RTP1, “Os Grandes Portugueses”, promoveu a escolha dos dez maiores portugueses de todos os tempos. Sousa Mendes foi o terceiro mais votado. Ironicamente, o primeiro lugar foi atribuído a Salazar, e o segundo lugar a Álvaro Cunhal.
Em 2007 o barítono Jorge Chaminé realizou dois concertos de homenagem a Aristides de Sousa Mendes, em Baiona e em Bordéus.
Em Viena, Áustria, no Vienna International Center, onde estão sediados diversos organismos da ONU, como a Agência Internacional de Energia Atómica, existe um grande passeio pedonal com o nome do ex-diplomata português, denominado Aristides de Sousa Mendes Promenade.

(fontes: Biblioteca da autora e wikipédia)


Pesquisa e composição de Carmo Vasconcelos
In Revista eisFluências de Agosto/2010
http://www.eisfluencias.ecosdapoesia.org

10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões, e das
Comunidades Portuguesas


Por Carmo Vasconcelos


Dia das Comunidades porque neste dia se homenageiam cinco (?) milhões de portugueses espalhados pelo Mundo. Até ao 25 de Abril de 1974, o 10 de Junho era conhecido como o Dia de Camões, de Portugal e da Raça, exaltando-se a originalidade do povo português face aos outros povos europeus, que

 

(…)

Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo reino, que tanto sublimaram.
(…)

Camões, Lusíadas, Canto I.


O Dia de Portugal é também o dia em que se tenta “dignificar, através da atribuição de determinados títulos e medalhas, portugueses que se tenham distinguido em determinadas áreas, sem distinção da opção ideológica ou da opção religiosa”.
Celebra-se neste dia, o feriado em honra de Camões, data provável do falecimento daquele que é considerado o maior poeta de língua portuguesa e dos maiores da Humanidade.

 

Luiz Vaz de Camões
1524(?) /1580(?)


 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luiz de Camões


As informações sobre a sua biografia são relativamente escassas e pouco seguras, apoiando-se num número limitado de documentos e breves referências dos seus contemporâneos. A própria data do seu nascimento, assim como o local, é incerta, tendo sido deduzida a partir de uma Carta de Perdão real de 1553. A sua família teria ascendência galega, embora se tenha fixado em Portugal séculos antes. Pensa-se que estudou em Coimbra, mas não se conserva qualquer registo seu nos arquivos universitários.
Serviu como soldado em Ceuta, por volta de 1549-1551, aí perdendo um olho. Em 1552, de regresso a Lisboa, esteve preso durante oito meses por ter ferido, numa rixa, Gonçalo Borges, um funcionário da corte. Data do ano seguinte a referida Carta de Perdão, ligada a essa ocorrência. Nesse mesmo ano, seguiu para a Índia. Nos anos seguintes, serviu no Oriente, ora como soldado, ora como funcionário, pensando-se que esteve mesmo em território chinês, onde teria exercido o cargo de Provedor dos Defuntos e Ausentes, a partir de 1558. Em 1560 estava de novo em Goa, convivendo com algumas das figuras importantes do seu tempo (como o vice-rei D. Francisco Coutinho ou Garcia de Orta). Em 1569 iniciou o regresso a Lisboa. No ano seguinte, o historiador Diogo do Couto, amigo do poeta, encontrou-o em Moçambique, onde vivia na penúria. Juntamente com outros antigos companheiros, conseguiu o seu regresso a Portugal, onde desembarcou em 1570. Dois anos depois, D. Sebastião concedeu-lhe uma tença, recompensando os seus serviços no Oriente e o poema épico que entretanto publicara, Os Lusíadas. Camões morreu a 10 de Junho de 1580, ao que se diz, na miséria. No entanto, é difícil distinguir aquilo que é realidade, daquilo que é mito e lenda romântica, criados em torno da sua vida.
Da obra de Camões foram publicados, em vida do poeta, três poemas líricos, uma ode ao Conde de Redondo, um soneto a D. Leonis Pereira, capitão de Malaca, e o poema épico Os Lusíadas. Foram ainda representadas as peças teatrais Comédia dos Anfitriões, Comédia de Filodemo e Comédia de El-Rei Seleuco. As duas primeiras peças foram publicadas em 1587 e a terceira, apenas em 1645, integrando o volume das Rimas de Luís de Camões, compilação de poesias líricas antes dispersas por cancioneiros, e cuja atribuição a Camões foi feita, em alguns casos, sem critérios rigorosos. Um volume que o poeta preparou, intitulado Parnaso, foi-lhe roubado.
Na poesia lírica, constituída por redondilhas, sonetos, canções, odes, oitavas, tercetos, sextinas, elegias e éclogas, Camões conciliou a tradição renascentista (sob forte influência de Petrarca, no soneto) com alguns aspectos maneiristas. Noutras composições, aproveitou elementos da tradição lírica nacional, numa linha que vinha já dos trovadores e da poesia palaciana, como por exemplo nas redondilhas «Descalça vai para a fonte» (dedicadas a Lianor), «Perdigão perdeu a pena», ou «Aquela cativa» (que dedicou a uma sua escrava negra). É no tom pessoal que conferiu às tendências de inspiração italiana e na renovação da lírica mais tradicional, que reside parte do seu génio.
Na poesia lírica avultam os poemas de temática amorosa, em que se tem procurado solução para as muitas lacunas em relação à vida e personalidade do poeta. É o caso da sua relação amorosa com Dinamene, uma amada chinesa que surge em alguns dos seus poemas, nomeadamente no conhecido soneto «Alma minha gentil que te partiste», ou de outras composições, que ilustram a sua experiência de guerra e do Oriente, como a canção «Junto dum seco, duro, estéril monte».
No tratamento dado ao tema do amor é possível encontrar, não apenas a adopção do conceito platónico do amor (herdado da tradição cristã e da tradição e influência petrarquista) com os seus princípios básicos de identificação do sujeito com o objecto de amor «Transforma-se o amador na cousa amada»; de anulação do desejo físico «Pede-me o desejo, Dama, que vos veja / Não entende o que pede; está enganado»; e da ausência como forma de apurar o amor, mas também o conflito com a vivência sensual desse mesmo amor. Assim, o amor surge, à maneira petrarquista, como fonte de contradições, tão bem expressas no justamente célebre soneto «Amor é fogo que arde sem se ver», entre a vida e a morte, a água e o fogo, a esperança e o desengano, inefável, mas, assim mesmo, fundamental à vida humana. A concepção da mulher, outro tema essencial da lírica camoniana, em íntima ligação com a temática amorosa e com o tratamento dado à natureza (que, classicamente vista como harmoniosa e amena, a ela se associa, como fonte de imagens e metáforas, como termo comparativo de superlativação da beleza da mulher, e, à maneira das cantigas de amigo, como cenário e/ou confidente do drama amoroso), oscila igualmente entre o pólo platónico (ideal de beleza física, espelho da beleza interior, manifestação no mundo sensível da Beleza do mundo inteligível), representado pelo modelo de Laura, que é predominante (vejam-se a propósito os sonetos «Ondados fios de ouro reluzente» e «Um mover d’olhos, brando e piedoso»), e o modelo renascentista de Vénus.
Temas mais abstractos como o do desconcerto do mundo (expresso no soneto «Verdade, Amor, Razão, Merecimento» ou na esparsa «Os bons vi sempre passar/no mundo graves tormentos»); a passagem inexorável do tempo com todas as mudanças implicadas, sempre negativas do ponto de vista pessoal (como observa Camões no soneto «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades»); as considerações de ordem autobiográfica (como nos sonetos «Erros meus, má fortuna, amor ardente» ou «O dia em que eu nasci, moura e pereça», que transmitem a concepção desesperançada, pessimista, da vida própria), são outros temas dominantes da poesia lírica de Camões.
No entanto, foi com Os Lusíadas que Camões, embora postumamente, alcançou a glória. Poema épico, seguindo os modelos clássicos e renascentistas, pretende fixar para a posteridade os grandes feitos dos portugueses no Oriente. Aproveitando a mitologia greco-romana, fundindo-a com elementos cristãos, o que, na época, e mesmo mais tarde, gerou alguma controvérsia, Camões relata a viagem de Vasco da Gama, tomando-a como pretexto para a narração da história de Portugal, intercalando episódios narrativos com outros de cariz mais lírico, como é o caso do da «Linda Inês». Os Lusíadas vieram a ser considerados o grande poema épico nacional. Toda a obra de Camões, de resto, influenciou a posterior literatura portuguesa, de forma particular durante o Romantismo, criando muitos mitos ligados à sua vida, mas também noutras épocas, inclusivamente a actual. No século XIX, alguns escritores e pensadores realistas colaboraram na preparação das comemorações do terceiro centenário da sua morte, pretendendo que a figura de Camões permitisse uma renovação política e espiritual de Portugal.
Amplamente traduzido e admirado, é considerado por muitos a figura cimeira da língua e da literatura portuguesas. São suas a colectânea das Rimas (1595, obra lírica), o Auto dos Anfitriões, o Auto de Filodemo (1587), o Auto de El-Rei Seleuco (1645) e Os Lusíadas (1572)

Cronologia:
1524 ou 1525: Datas prováveis do nascimento de Luís Vaz de Camões, talvez em Lisboa.
1548: Desterro no Ribatejo; alista-se no Ultramar.
1549: Embarca para Ceuta; perde o olho direito numa escaramuça contra os Mouros.
1551: Regressa a Lisboa.
552: Numa briga, fere um funcionário da Cavalariça Real e é preso.
1553: É libertado; embarca para o Oriente.
1554: Parte de Goa em perseguição a navios mercantes mouros, sob o comando de Fernando de Meneses.
1556: É nomeado provedor-mor em Macau; naufraga nas Costas do Camboja.
1562: É preso por dívidas não pagas; é libertado pelo vice-rei Conde de Redondo e distinguido seu protegido.
1567: Segue para Moçambique.
1570: Regressa a Lisboa na nau Santa Clara.
1572: Sai a primeira edição d’ Os Lusíadas.
1579 ou 1580: Morre de peste, em Lisboa.

Pesquisa e composição de Carmo Vasconcelos (Ciberneteca e biblioteca pessoal da autora)

Interagir com a nobreza poética de Camões, parecendo uma ousadia, não é mais do que uma humilde homenagem à memória do Maior dos maiores poetas portugueses.
Ainda que outros Grandes lhe tenham sucedido, ele permanecerá sempre no nosso imaginário como o Mestre dos Mestres, desde quando jovens estudantes até agora, e para sempre, na nossa mira de aprendizes de poetas. (Carmo Vasconcelos)
 


 

AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER
Luiz Vaz de Camões


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem-querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

SE AMOR É…
Carmo Vasconcelos



Se amor é fogo que arde sem se ver,
E senti-lo se faz contraditório…
Sendo ou não, fogo-fátuo e ilusório,
Por que tanto queimamos de o querer?

Se é ferida que dói e não se sente,
Por que insistimos nessa dor sarar,
Vendo apenas recobro nesse amar
Daquele que de amor nos faz contente?

Se tal contentamento é descontente,
Por que alegria tamanha lá se afunda
Nos meandros da tristeza que a alma inunda?

Se é dor que desatina sem doer,
Que eu frua do controverso amor em mágoa,
E extinga-se o meu fogo ao fluir-lhe a água!



 

 

AMOR,
QUE O GESTO HUMANO N’ALMA DESCREVE

Luiz Vaz de Camões


Amor, que o gesto humano n’ alma escreve,
vivas faíscas me mostrou um dia,
donde um puro cristal se derretia
por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
por se certificar do que ali via,
foi convertida em fonte, que fazia
a dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
causa o primeiro efeito; o pensamento
endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera num momento,
de lágrimas de honesta piedade,
lágrimas de imortal contentamento.



 

 

O AMOR SERÁ CEGO
Alfredo dos Santos Mendes


Dizer que o amor é cego e nada vê,
É não acreditar no que está vendo…
É se imolar de amor, ficar sofrendo,
E apenas perguntar: porquê? Porquê?

Maldito coração não antevê,
Que há chama germinando, corroendo!
Não quer sentir a dor que está sofrendo…
Evitando as rasteiras que prevê!

Caminha sobre o fogo, convencido,
Que nunca sairá como um vencido,
Chama que não existe, nunca arde!

E ama por amar, só por amar!
Jamais haverá chama p’ra o queimar…
Seu coração é forte, e não cobarde!


Carmo Vasconcelos
Directora Cultural
In Revista eisFluências de Junho/2010
http://www.eisfluencias.ecosdapoesia.org

FESTEJANDO O 13 DE JUNHO COM SANTO ANTÓNIO DE LISBOA
Por Carmo Vasconcelos

 


Santo António de Lisboa, também chamado Santo António de Pádua, nasceu em Lisboa entre 1191 / 1195, numa casa próxima da Sé de Lisboa, às portas da cidade, no local, assim se pensa, onde posteriormente se ergueu a Igreja sob sua invocação. De seu nome de baptismo, Fernando de Bulhões, foi um Doutor da Igreja que viveu na viragem dos séculos XII e XIII. Primeiramente foi frade agostiniano, tendo ingressado como noviço (1210) no Convento de São Vicente de Fora, em Lisboa, tendo posteriormente ido para o Convento de Santa Cruz, em Coimbra, onde fez seus estudos de Direito. Tornou-se franciscano em 1220 e viajou muito, vivendo inicialmente em Portugal, depois na Itália e na França.
Foi professor de Teologia e grande pregador. Foi transferido depois para Bolonha e de seguida para Pádua, onde morreu aos 36 (ou 40) anos.
Foi canonizado pelo Papa Gregório IX, na catedral de Espoleto, em Itália, em 30 de Maio de 1232. Foi proclamado doutor da Igreja pelo papa Pio XII, em 1946, que o considera «exímio teólogo e insigne mestre em matérias de ascética e mística».
Bastante doente, faleceu a 13 de Junho de 1231 no Oratório de Arcela. Os seus restos mortais repousam na Basílica de Pádua, construída em sua memória.
Protector dos noivos, é tradição em Lisboa realizar-se um casamento colectivo, no dia 13 de Junho, na sua igreja, junto à Sé de Lisboa, e muitos festejos populares, entre eles o famoso desfile das Marchas Populares dos Bairros de Lisboa.

Carmo Vasconcelos (Biblioteca Pessoal)
In Revista eisFluências de Junho/2010
http://www.eisfluencias.ecosdapoesia.org

LOUIS BRAILLE, O MENINO CEGO QUE TROUXE LUZ À ESCURIDÃO
Por Carmo Vasconcelos
 

Louis Braille, 1809/1852


"Se os meus olhos não me deixam obter informações sobre homens e eventos, sobre ideias e doutrinas, terei de encontrar uma outra forma."
(Louis Braille, no seu diário)

 


Louis Braille nasceu em 4 de Janeiro de 1809 em Coupvray, na França, a cerca de 40 quilómetros de Paris. O seu pai, Simon-René Braille, era um fabricante de arreios e selas. Aos três anos, provavelmente ao brincar na oficina do pai, Louis feriu-se no olho esquerdo com uma ferramenta pontiaguda, possivelmente uma sovela. A infecção que se seguiu ao ferimento alastrou-se ao olho direito, provocando a cegueira total.
Na tentativa de que Louis tivesse uma vida o mais normal possível, os pais e o padre da paróquia, Jacques Pallury, matricularam-no na escola local. Louis tinha enorme facilidade em aprender o que ouvia e em determinados anos foi seleccionado como líder da turma. Com 10 anos de idade, Louis ganhou uma bolsa do Institut Royal des Jeunes Aveugles de Paris (Instituto Real de Jovens Cegos de Paris).
O fundador do instituto, Valentin Haüy, foi um dos primeiros a criar um programa para ensinar os cegos a ler. As primeiras experiências de Haüy envolviam a gravação em alto-relevo de letras grandes, em papel grosso. Embora rudimentares, esses esforços lançaram a base para desenvolvimentos posteriores. Apesar de as crianças aprenderem a ler com este sistema, não podiam escrever porque a impressão era feita com letras costuradas no papel.
Louis aprendeu a ler as grandes letras em alto-relevo nos livros da pequena biblioteca de Haüy. Mas também se apercebia que aquele método, além de lento, não era prático.
Em 1821, quando Louis Braille tinha somente 12 anos, Charles Barbier, capitão reformado da artilharia francesa, visitou o instituto onde apresentou um sistema de comunicação chamado de escrita nocturna, também conhecido por Serre e que mais tarde veio a ser chamado de sonografia. Tratava-se de um método de comunicação táctil que usava pontos em relevo dispostos num rectângulo com seis pontos de altura por dois de largura e que tinha aplicações práticas no campo de batalha, quando era necessário ler mensagens sem usar a luz que poderia revelar posições. Assim, era possível trocar ordens e informações de forma silenciosa. Usava-se uma sovela para marcar pontinhos em relevo em papelão, que então podiam ser sentidos no escuro pelos soldados. A escrita nocturna baseava-se numa tabela de trinta e seis quadrados, cada quadrado representando um som básico da linguagem humana. Duas fileiras com até seis pontos cada uma eram gravadas em relevo no papel. O número de pontos na primeira fileira indicava em que linha horizontal da tabela de sons vocálicos se encontrava o som desejado, e o número de pontos na segunda fileira designava o som correcto naquela linha. Esta ideia de usar um código para representar palavras em forma fonética foi introduzida no Instituto. Louis Braille dedicou-se de forma entusiástica ao método e passou a efectuar algumas melhorias.
Assim, nos dois anos seguintes, Braille esforçou-se em simplificar o código. Por fim, desenvolveu um método eficiente e elegante que se baseava numa célula de apenas três pontos de altura por dois de largura. O sistema apresentado por Barbier, era baseado em 12 pontos, ao passo que o sistema desenvolvido por Braille é mais simples, com apenas 6 pontos. Braille, em seguida, melhorou o seu próprio sistema, incluindo a notação numérica e musical. Em 1824, com apenas 15 anos, Louis Braille terminou o seu sistema de células com seis pontos. Pouco depois, ele mesmo começou a ensinar no instituto e, em 1829, publicou o seu método exclusivo de comunicação que hoje tem o seu nome. Excepto algumas pequenas melhorias, o sistema permanece basicamente o mesmo até hoje.
Apesar de tudo, levou tempo até essa inovação ser aceita. As pessoas com visão não entendiam quão útil o sistema inventado por Braille podia ser, e um dos professores principais da escola chegou a proibir seu uso pelas crianças. Felizmente, tal decisão teve efeito contrário ao desejado, encorajando as crianças a usar o método e a aprendê-lo em segredo. Com o tempo, mesmo as pessoas com visão acabaram por perceber os benefícios do novo sistema. No instituto, o novo código só foi adoptado oficialmente em 1854, dois anos após a morte de Braille, provocada pela tuberculose em 6 de Janeiro de 1852, com apenas 43 anos.
Na França, a invenção de Louis Braille foi finalmente reconhecida pelo Estado. Em 1952, seu corpo foi transferido para Paris, onde repousa no Panthéon.



O código Braille
 

Louis Braille, 1809/1852


O nome "Louis Braille" em braille. Sendo um sistema realmente eficaz, por fim tornou-se popular. Hoje, o método simples e engenhoso elaborado por Braille torna a palavra escrita disponível a milhões de deficientes visuais, graças aos esforços decididos daquele rapaz há quase 200 anos.
O braille é lido da esquerda para a direita, com uma ou ambas as mãos. Cada célula braille permite 63 combinações de pontos. Assim, podem-se designar combinações de pontos para todas as letras e para a pontuação da maioria dos alfabetos. Vários idiomas usam uma forma abreviada de braille, na qual certas células são usadas no lugar de combinações de letras ou de palavras frequentemente usadas. Algumas pessoas ganharam tanta prática em ler braille que conseguem ler até 200 palavras por minuto.
a | b | c | d | e | f | g | h | i | j
As primeiras dez letras só usam os pontos das duas fileiras de cima
Os números de 1 a 9, e o zero, são representados por esses mesmos dez sinais, precedidos pelo sinal de número, especial.
k | l | m | n | o | p | q | r | s | t
As dez letras seguintes acrescentam o ponto no canto inferior esquerdo a cada uma das dez primeiras letras
u | v | x | y | z
As últimas cinco letras acrescentam ambos os pontos inferiores às cinco primeiras letras, a letra "w" é uma excepção porque foi acrescentada posteriormente ao alfabeto francês.
As combinações restantes, ainda possíveis visto que 63 hipóteses de combinação dos pontos, são usadas para pontuação, contracções e abreviaturas especiais. Estas contracções e abreviaturas às vezes tornam o braille difícil de aprender. Isto acontece especialmente no caso de pessoas que ficam cegas numa idade mais avançada, visto que a única forma de aprender braile é memorizar todos os sinais. Por esse motivo, há vários "graus" de braille.
O braille por extenso, ou grau um, só utiliza os sinais que representam o alfabeto e a pontuação, os números e alguns poucos sinais especiais de composição que são específicos do sistema. Corresponde letra por letra, à impressão visual que é observável num texto comum. Este grau é o mais fácil de se aprender, visto que há menos sinais para memorizar. Por outro lado, o braille grau um é o mais lento para ser transcrito e lido, e o produto final, impresso, é mais volumoso. Visto que a maioria do braille produzido hoje é transcrito e produzido por voluntários, em organizações não lucrativas, o grau um é usado raramente.
O braille grau dois é uma forma mais abreviada do braille. Por exemplo, em inglês, cada um dos 26 sinais que representam o alfabeto têm um significado duplo. Se o sinal é usado em combinação com outros padrões dentro de uma palavra, representa apenas uma letra, mas se estiver isolado representa uma palavra comum. Isto ocorre similarmente no braille português. Assim, por exemplo, o sinal para n isolado representa não, abx representa abaixo, abt, absoluto, ag, alguém, e assim por diante. Outros sinais são empregues para representar prefixos e sufixos comuns. O uso de contracções e abreviaturas reduz bastante o tempo envolvido em transcrever e ler a matéria, bem como o tamanho do volume acabado. Actualmente, portanto, este é o grau mais comum do braille. Em contrapartida, é mais difícil aprender o braille abreviado grau dois. É necessário memorizar todos os 63 sinais diferentes (a maioria dos quais tem mais de um significado, dependendo de como são usados), mas também é preciso aprender o conjunto de regras necessárias que governam quando cada sinal pode ou não ser usado.
O grau três é uma forma de braille altamente abreviada, especialmente usada em inglês. No grau três há várias contracções e abreviaturas a memorizar, e as regras que governam o seu uso são correspondentemente difíceis. O braille grau três é usualmente utilizado em anotações científicas ou em outras matérias muito técnicas. Visto que bem poucos cegos conseguem ler este grau de braille, não é usado com frequência.
O braille provou ser muito adaptável como meio de comunicação. Quando Louis Braille inicialmente inventou o sistema de leitura, aplicou-o à notação musical. O método funciona tão bem que a leitura e escrita de música é mais fácil para os cegos do que para os que vêem. Vários termos matemáticos, científicos e químicos têm sido transpostos para o braille, abrindo amplos depósitos de conhecimento para os leitores cegos. Relógios com ponteiros reforçados e números em relevo, em braille, foram produzidos, de modo que dedos ágeis possam sentir as horas.
(origem Wikipédia)
 


Notas extra:


Há aqui uma circunstância digna de nota: o mesmo instrumento que trouxe a cegueira a Louis Braille é hoje o "ponsão" utilizado pelos cegos para escrever. A Providência Divina dialecticamente sabe extrair o Bem do próprio mal.
De entre os alunos a quem Louis Braille ensinava música havia uma pequena cega, Teresa von Kleinert. O seu talento ao piano era extraordinário, o que animou Braille a ensinar-lhe o seu sistema de pontinhos. Em pouco tempo, Teresa tornou-se concertista de sucesso. Recebida com agrado nos salões da Europa, Teresa difundia, a cada apresentação, o sistema Braille, e pela primeira vez os jornais falavam no seu nome, até então desconhecido. A 6 de Janeiro de 1852 Braille morreu, sem chegar a ver reconhecido o seu trabalho. Só dois anos após a sua morte o sistema foi reconhecido oficialmente na França, depois que Teresa se exibiu na Exposição Internacional de Paris. Ao piano, pôde mostrar ao mundo como é que um cego podia aprender a ler e a escrever. Isso tudo, graças a um sistema criado por outro cego.
(In: www.espiritismogi.com.br/biografias)

Pesquisa e composição de Carmo Vasconcelos
(Directora Cultural)

 

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