MISTICISMO - ENSAIOS

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A FASE MÍSTICA DE FERNANDO PESSOA

Por Carmo Vasconcelos

 

(Trabalho e declamação apresentados no Jantar Comemorativo do Aniversário (112 anos) de FERNANDO PESSOA, no Café Martinho da Arcada, em 13/06/2000)


Pequeno Preâmbulo Introdutório

  O poema ou poemas que irei ler reportam-se à fase mística de Fernando Pessoa, mais propriamente à fase Rosicruciana, fase em que o poeta estudou e aprofundou toda ou quase toda a literatura que existia acerca da história dos RosaCruzes; primeiro, um movimento, depois, uma fraternidade, e finalmente uma Ordem, que vieram para realizar o sopro e anseio do Universo: “Homem, conhece-te a ti mesmo e vive em harmonia e amor.” Bem patente desse profundo interesse de Pessoa é a literatura encontrada na sua biblioteca e os seus escritos sobre o assunto.

  Desde muito jovem, Pessoa se interessou pelo mistério e pela metafísica, como o testemunham poemas intitulados “Metempsicose”, “O Círculo” e “Nirvana”, ou fragmentos de ensaios, numa precocidade que ia já de encontro à sua tese “o génio é um iniciado de nascença”, mas contudo, será com a idade que ao receber mais conhecimentos e ao despertar a sua consciência, conseguirá desvendar algumas dessas interrogações misteriosas.

  Já numa carta de 1915, dirigida ao seu malogrado amigo Mário de Sá Carneiro, Pessoa escreve a propósito dos livros teosóficos que fora convidado a traduzir: “O carácter extraordinariamente vasto desta religião filosofia; a noção de força de domínio, de conhecimento superior extra-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito. Assim como a leitura de um livro inglês sobre “Os Ritos e os Mistérios dos Rosa Cruz.” A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me hante.” (sic)

 

The Rosicrucians
Their Rites and Mysteries

 (Cambridge Library Collection - Spiritualism and Esoteric Knowledge)
 
By Hargrave Jennings
Hargrave Jennings (Author)

Para ler, clique nesta imagem:

 

  Será este primeiro livro de Hargrave Jennings – “Os Ritos e os Mistérios dos Rosa Cruz”, que tanto o impressionou, que fará a sua primeira ligação com a Tradição hermética rosicruciana. A Tradição Rosacruz, nascida no século XIV com Christian Rosenkreutz, é um dos elos da continuidade de investigadores da natureza material e sensível do Universo, que chegou até aos nossos tempos e da qual Fernando Pessoa faz parte.

  Como dizia Fernando Pessoa: “Na época das novas descobertas a fazerem-se no interior da alma, inúmeros destes escritos Rosicrucianos serão veros desafios à audácia e ao ardor de conhecimento dos mais receptivos e maduros que poderão assim aprofundar a Rosea Cruz.” E será nos apontamentos e meditações dos símbolos da Ordem (a Cruz, a Rosa e a Rosa Cruz) que Pessoa mostrará mais beleza e originalidade.


 

Símbolo Rosacruz

 

Vamos ouvir:
(Poema datado de 6/2/1934)

 

Porque choras de que existe
A terra e o que a terra tem?
Tudo nosso – mal ou bem –
É fictício e só persiste
Porque a alma aqui é ninguém.

Não chores! Tudo é o nada
Onde os astros luzes são.
Tudo é lei e confusão.
Toma este mundo por strada
E vai como os santos vão.

Levantado de onde lavra
O inferno em que somos réus
Sob o silêncio dos céus,
Encontrarás a Palavra,
O Nome interno de Deus.

E, além da dupla unidade
Do que em dois sexos mistura
A ventura e a desventura,
O sonho e a realidade,
Serás quem já não procura.

Porque, limpo do Universo,
Em Christo nosso Senhor,
Por sua verdade e amor,
Reunirás o disperso
E a Cruz abrirá em Flor.

 

 

O poema seguinte, que nos aparece dividido em três partes – como uma trilogia de sonetos – é inspirado numa descrição do Túmulo de Christian Rosencreutz 1) constante da “Fama Fraternitatis”, primeiro manifesto público da ou sobre a Fraternidade Rosacruz.

1)- Vide no final, complemento sobre CRC, acrescentado pela autora em 19/8/2012.

 

Fama Fraternitatis (manifesto)

 

I

Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à noite que nos a Alma obstrui,

Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida...
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.

Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu...
De além o Abismo, Spirito Seu, Lha veda;
Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.


II


Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Mas só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue atual de Cristo enfim, libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.


III
 


Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vêmo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra. Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?

Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rosaeacruz conhece e cala.


 

13/06/2000
Carmo Vasconcelos
Ensaio publicado em:
http://carmovasconcelosf.spaces.live.com
http://www.youblisher.com/p/110954-A-Fase-Mistica-de-Fernando-Pessoa/
http://circulodograal.com/site2/index.php?option=com_content&view=article&id=80&Itemid=31

 


 



Complemento a este trabalho, elaborado pela autora

em 19 de Agosto, 2012:

 

A ORDEM ROSACRUZ

  “A nível dos mundos suprafísicos, existem sete Escolas de Mistérios Menores e cinco Escolas de Mistérios Maiores, agrupadas em torno do Libertador. Cada escola iniciática emite a sua própria nota-chave e quando o aspirante à vida superior encontra aquela com a qual está em uníssono, vê as suas portas abrirem-se, quaisquer que sejam as dificuldades e obstáculos que possam haver.
  A Ordem Rosacruz é uma das escolas de Mistérios Menores, de índole ocidentalista, e é simbolicamente referida como sendo constituída por doze mais um Irmãos, todos eles detentores da mais elevada Iniciação. A sua missão é elevar espiritualmente o ser humano através do desenvolvimento harmonioso da via ocultista e da via mística, para o que exerce a sua acção quer nos planos espirituais, quer no físico.

   Sete Irmãos vêm ao mundo material sempre que as circunstâncias o requeiram, aparecendo como pessoas vulgares, exercendo profissões ou actividades vulgares, nada havendo que os distinga dos outros homens a não ser um comportamento exemplar e uma inteligência e cultura acima do normal. Actuam nos seus corpos visíveis e invisíveis, mas nunca influenciam quem quer que seja contra a sua vontade ou os seus desejos; limitam-se a fortalecer o Bem onde o encontram.

  Cinco Irmãos nunca abandonam o Templo da Rosa Cruz, uma construção etérica, invisível, portanto, e que envolve uma casa física, tipo senhorial, situada numa região da Boémia. Estes Irmãos, embora possuam corpos físicos, executam o seu trabalho nos mundos espirituais.

  O Décimo Terceiro está oculto do mundo externo pelos Doze Irmãos, tal como doze esferas são as necessárias para cobrir e ocultar uma décima terceira. É o Chefe da Ordem e adoptou o nome simbólico de Cristão Rosacruz, ou, como é mais vulgarmente citado, Christian Rosenkreuz. É o elo de ligação com o Conselho Superior Central, constituído pelos Hierofantes dos Mistérios Maiores.

  Estão ligados à Ordem Rosacruz diversos homens e mulheres que levam uma vida normal mas que foram iniciados num grau mais ou menos elevado por um dos Irmãos, e que continuam a ser por ele instruídos; são os Irmãos Leigos, assim chamados para os distinguir dos outros que, por esta razão, se denominam  Irmãos Maiores.”
 



 

Christian Rosenkreuz

Uma breve história


 

Representação alegórica do Pai C.R.C.

-  JAKnapp -

 

 "Muitos esforços tem sido feitos para interpretar o simbolismo da alegorica história do Pai C.R.C. contada na segunda parte da Fama Fraternitatis. Seu caracter insofismavelmente mítico guarda os mais profundos mistérios dos Rosacruzes. O Pai C.R.C. não deve ser considerado apenas como uma personalidade, mas também como a personificação de um poder ou princípio da natureza. Tal prática de utilização de um indivíduo para personificar os trabalhos do poder divino era frequentemente utilizada pelos antigos. A lenda Maçonica de Hiram Abiff, o mito Caldaico de Ishtar, a alegoria Grega de Bacus, e a lenda Egípcia de Osiris são todos exemplos deste tipo de simbolismo. Todo o mistério do Rosacrucianismo pode ser esclarecido pela alegoria do Pai C.R.C. quando propriamente interpretado. Os Rosacruzes são uma organização de iniciados e adeptos, cujos membros - os antigos livros declaram - habitam os subúrbios do Céu."

(Manly P. Hall in The Secret Teachings of All Ages.)

 

 

  Christian Rosenkreuz, nome simbólico do fundador da Ordem Rosacruz, nasceu em 1378, na Turíngia, Alemanha, no seio da família aristocrata Von Roesgen Germelshausen.

  A Europa conhecia, então, os horrores das perseguições religiosas que se seguiram à sangrenta cruzada contra os Albigenses. Em 1382, as tropas papais cercaram a residência senhorial dos Germelshausen, considerados hereges por se constar terem sido iniciados nos antigos mistérios germânicos. A resistência oferecida não foi suficiente para deter os sitiantes, que acabaram por conquistar o castelo, massacrar, com requintes de crueldade, todos os seus habitantes, mesmo os servos mais humildes, e destruir todas as construções, não deixando pedra sobre pedra.

  Porém, o jovem Christian  conseguiu escapar, graças ao seu preceptor, um monge que pertencia a um mosteiro situado nas proximidades e onde havia alguns religiosos que, em segredo, seguiam os ideais cátaros; profundo conhecedor da região, o monge iludiu a vigilância dos sitiantes e pôde levar o seu pequeno pupilo para o mosteiro, onde ficou em segurança.

  Foi, pois, num ambiente monástico, austero e duro, que Christian foi criado e pôde desenvolver as suas extraordinárias faculdades, alcançando uma cultura brilhante em todos os domínios, nomeadamente no da filosofia, religião, línguas e literatura clássicas e ciências da natureza. À sua volta formou-se um pequeno grupo de quatro monges, incluindo o seu mestre, que prometeram fazer uma peregrinação ao Santo Sepulcro.

  Assim, em 1393, Christian e os seus companheiros partiram para a Terra Santa, viajando separadamente para não despertar a curiosidade dos atentos e desconfiados agentes da poderosa Inquisição. Em Chipre, o companheiro de Christian faleceu e o jovem, apesar dos seus quinze anos, prosseguiu a viagem sozinho em direcção a Damasco, de onde tencionava partir para Jerusalém. O cansaço, porém, obrigou-o a prolongar a sua estadia nesta cidade, onde conquistou o favor dos turcos com os seus conhecimentos médicos. Tendo ouvido falar dos sábios de Damcar, optou por se dirigir a esta cidade, onde foi acolhido, não como um estrangeiro, mas como alguém há muito esperado e de quem se sabia o nome. Aqui, onde permaneceu de 1394 a 1397, Christian aperfeiçoou o seu conhecimento da língua árabe, tendo traduzido para latim o Livro M , e estudou física e matemática.

  Atravessando o golfo Arábico, chegou ao Egipto e daqui prosseguiu para Fez, onde contactou os elementais, ou espíritos da natureza, que lhe confiaram muitos dos seus segredos. Dois anos depois partiu para Espanha, onde contactou os Alumbrados, ou Iluminados, os quais, embora perfilhassem a mesma ideologia dos primitivos cristãos, acharam os seus pontos de vista excessivamente avançados, pelo que se escusaram a prestar-lhe o apoio necessário ao cumprimento da sua missão.

  Christian decidiu, então, regressar ao seu velho mosteiro da Turíngia, onde encontrou os outros três monges que tinham iniciado a peregrinação à Terra Santa, com os quais estabeleceu o primeiro núcleo da futura Ordem Rosacruz. O trabalho, porém, era excessivo, nomeadamente o da cura de doentes, pelo que houve que escolher novos membros até serem 13, número  que jamais poderia ser ultrapassado. Entretanto, Christian e os seus companheiros erigiram o Templo do Espírito Santo, uma construção etérea, acessível, apenas, aos iniciados, situado não muito longe do velho castelo onde nascera.

  Em 1459 Christian atingiu a cristificação, e em 1484 faleceu.

 

 

Abrindo o Túmulo de Christian Rosenkreutz

 - J. Augustus Knapp -

 

  O seu túmulo, descoberto, apenas, em 1604, era uma estranha construção abobadada, com sete lados, cada um com oito pés de altura e sete de comprimento, iluminada por um sol feito segundo o verdadeiro astro. O acesso fazia-se por uma porta secreta, em cujo topo, curiosamente, se lia "Eu me abrirei dentro de 120 anos". No centro erguia-se um altar cilíndrico com um círculo a servir de bordadura.

  O centro luminoso do teto era dividido em triângulos, as paredes subdivididas em dez campos quadrangulares e o chão subdividido em triângulos. Cada parede ocultava uma porta que escondia um cofre onde se encontravam diversos objectos, nomeadamente os livros, espelhos de múltiplas propriedades, campainhas, lâmpadas acesas, etc.

  O altar escondia uma espessa placa de cobre; ao ser levantada, revelou o corpo de Christian Rosenkreuz perfeitamente intacto e sem o menor vestígio de decomposição, repousando sobre um leito e segurando na mão um pequeno livro, em pergaminho e letras de ouro, o livro T, depois da Bíblia, o nosso tesouro mais precioso.


 

 

As suas encarnações

 

O Cavaleiro Polonês

 - Pintura de Reembrandt, 1655 -

 

   Esse é o retrato do Grande Mestre Rosacruz, o Conde de St. German, que segundo Max Heindel foi uma das últimas encarnações de Christian Rosenkreutz, fundador da Escola de Mistérios do Ocidente, A Verdadeira, Eterna e Invisível Ordem Rosacruz.
   A primeira encarnação conhecida foi como Hiram Abiff, o célebre artífice do Templo de Salomão e que a lenda maçónica diz ter sido o seu verdadeiro construtor; a segunda  foi como Lázaro, o homem de Betânia que Cristo ressuscitou.
   Tendo em vista a sua missão, esteve reencarnado no século XIII durante um curto espaço de tempo, a fim de ser  preparado pelo Colégio dos Doze Sábios, um misterioso repositório de toda a sabedoria do passado e de toda a ciência do seu tempo, a que Goethe faz uma velada alusão em "Die Geheimnisse".
   Depois da criação da Ordem Rosacruz, esteve encarnado algumas vezes, a última das quais nos meados do século     XIX,  princípios do XX, como um Rákóczy, da velha família aristocrata da Hungria.”


(Fonte: Centro Rosacruz Max Heindel, (Minde - Portugal )
 

Carmo Vasconcelos

19/08/2012

                                                                      Para pág. 04

 

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