INSPIRAÇÃO POÉTICA

Louis Lagrenée (1725 – 1805, Francês)

 

MEMORANDO DE FOGO
(Poesia Livre II)

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O MEU SILÊNCIO

Carmo Vasconcelos


Dou-te o silêncio
das lâminas frias
embainhadas na voz
Das tempestades latentes
imersas no negrume dos olhos

Dou-te o silêncio
do sangue endoidecido
coalhado nas veias
Dos gestos de pecado
amarrados às mãos

Dou-te o silêncio
dos segredos passionais
acorrentados aos poros
Dos medos secretos
colados à pele

Dou-te o silêncio
da casa virgem
saqueada e deserta
Das catedrais brancas
abandonadas pelos fiéis

Dou-te o silêncio
apenas o silêncio...

Carmo Vasconcelos

O PESCADOR DE PÉROLAS

Carmo Vasconcelos


Náufraga de amor, aceno o meu lenço branco
grito mensagens em garrafas sem rótulo
que espalho por este mar que me rodeia...
Vidros translúcidos para o meu desejo
opacos para os navegantes da materialidade

E vou enfraquecendo nesta ilha solitária
morrendo à míngua, na esperança de um milagre
que me arranque das mãos o desfiado lenço branco
puído de lágrimas e de esperas

Ao largo, vão passando os navegantes
exibindo as suas bolsas carregadas de moedas
gulosos de sexo e concupiscência
julgando vir salvar-me com oiro e noites de lascívia

Num misto de lágrimas e gargalhadas
escondo entre os cabelos secos de palmeira
a já esfarrapada bandeira do meu S.O.S de pureza idealista
para que eles pensem que fui miragem
e não queiram levar-me deste amargo-doce exílio
arrastando-me para a terra da materialidade

Antes morrer virgem de jóias e luxúria
esperando, utópica,
o velho pescador de pérolas, nu, de mãos vazias
que há-de achar-me enterrada nas areias do sonho
e que, ébrio de espanto,
abrirá a minha concha, imune à erosão das marés

Para essa preciosa dádiva de Neptuno
me desnudarei de dogmas e tabus
e serei mente, e serei corpo, e serei alma
exalando odores a nenúfar e canela
na certeza de ser a sua busca iluminada
o tesouro que levará nos braços
para a terra prometida…

Carmo Vasconcelos

O REGRESSO

Carmo Vasconcelos


Calou-se o vulcão!

Trilhando a paisagem enegrecida
minh’alma aos tropeções
regressa ao lar

Vacilante, a casa-corpo está de pé
e no jardim
um canteiro de poemas respira ainda

Mas as lavas de fogo
são agora pedras frias
que me tomaram a cama, a mesa, as cadeiras

Sento-me no chão
olhos perdidos para lá do entendimento…

Carmo Vasconcelos

O RETRATO

Carmo Vasconcelos


Retoco o teu retrato!

Esbato
sombras viciadas nos teus olhos
Suavizo
rictos amargos na tua boca
Adoço de azuis (turquesa, anil, marinho)
a sépia em que habitas
Afago-te a alma

Agora
o teu olhar iluminou-se
sorris
cercam-te as cores do infinito
resplandece a tua aura
Envolve-te enfim a paz do amanhã!

Carmo Vasconcelos

O SINAL

Carmo Vasconcelos


Na orla do deserto
desenham-se ainda
perfis de deuses em postura de espera…
Silhuetas de anjos
que aconselham temperança

Só as tempestades vindouras
farão rolar as areias movediças
pondo a descoberto os tambores
que hão de rufar o sinal
de reerguer
ou soterrar a esperança

Desse tempo sem medida
emergirá o momento definitivo
de mergulhar no oásis
ou renegar os deuses

Carmo Vasconcelos

 

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