HISTÓRIA

Louis Lagrenée (1725 – 1805, Francês)

 

MEMORANDO DE FOGO
(Poesia Livre II)

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CHEGASTE

Carmo Vasconcelos


Chegaste
para estilhaçar os cristais
da minha segurança...

Carmo Vasconcelos

CIRURGIA URGENTE

Carmo Vasconcelos


Hoje é o dia!
Dia de limpezas cirúrgicas...

Não é sábado
dia de bulícios e poeiras
móveis desarrumados e lenços na cabeça
É domingo
dia dos casados fingirem que se amam
dia de solidão para amantes clandestinos

Hoje é o dia!
Não preciso de escadotes para te alcançar
sei e chego aonde estás!

Acocorado entre os meus hemisférios cerebrais
como ave que choca um ovo de pássaro sem asas
tolhes-me os movimentos e as palavras
perturbas-me a ligação entre os neurónios
E como um tumor antigo
misto de mosto e de fel
fizeste metástases...

Pululas no meu sangue
e alteras-me o ritmo cardíaco
provocando-me palpitações e taquicardia
Salpicas-me as vísceras
de sinais negros de adiamentos consentidos
que me trazem momentos agónicos
E travas-me as articulações
com resíduos calcinados de lágrimas antigas
que me impedem
de ir em frente sem olhar para trás

Mas hoje é o dia!
Numa cirurgia urgente
(autópsia simultânea dos meus sentimentos mortos)
escalpo-me, desventro-me, e removo-te!

Disseco-te e faço o relatório
Curioso!
Não eras maligno nem mortífero
apenas incomodativo!...

Suturo-me com raiva!
Afinal
não valias o domingo desperdiçado!...

Carmo Vasconcelos

CLARIDADES

Carmo Vasconcelos


Rasga-se no cosmos
a hora mágica
Aquietam-se os gestos e os sons
o Universo escuta...
É o tempo divino de colher preces
semear respostas

E nos muros cerrados da tarde
irrompem claridades…
É a magia da hora
a parir encontros
que iluminam desânimos!

Carmo Vasconcelos

DAS MARGENS…

Carmo Vasconcelos


Deixaste a margem do sonho
e emigraste para o outro lado…
Agora
és mais um exilado
na margem da banalidade!

Aí…
Terra nua de surpresas
todos os gestos se repetem
inexoravelmente iguais
na sucessão dos dias e das noites
E na voragem dos calendários vão esfriando
até se tornarem óbvios e insuportáveis

Aí…
Areias onde não poisa o imprevisto
engordarás de tédio e de náusea
à mesa do quotidiano
até sufocares
na estreiteza dos fatos engomados

Aí…
Chão alagado de silêncios
as palavras não têm fragrância de flor
nem sabem a mel
E os amantes dizem “olá, amor”
como quem diz “acho que vai chover…”

Aí…
Céu descolorido de romance
o Sol já não se ruboriza
quando pressente o odor da Lua
que a ele se entrega numa rotina de desencanto
E a estrela polar nem estremece
à passagem do cometa
previsível todos os sábados à noite

Aí…
Lareira de fogos anémicos
o desejo coze em lume brando
Os beijos… Oh! os beijos…
trocam-se a horas certas
com a mesma ligeireza com que se escovam os dentes
E o sexo…
cada vez mais económico
vai dispensando a pouco e pouco
o luxo dos aperitivos

Espreito-te
da margem do sonho…

Aqui…
As palavras desabrocham com aroma de jasmim
e sabem a poema
E quando os amantes dizem “Olá, amor!”
põem nas palavras corpo e alma
embalados em acordes de Chopin

Aqui…
O Sol não se acende todos os dias
mas queima rubro quando desponta…
A Lua…
a Lua é uma deusa
que só se entrega num ritual sagrado
E a estrela polar
rodopia em êxtase se o cometa inesperado a visita

Aqui…
O fogo arde em labaredas
e o desejo ferve e transborda…
Os beijos… Oh! os beijos…
tombam sem hora
como perlas de anis em bocas sedentas
E o sexo, pródigo de iguarias
tem a volúpia de um momento raro
corpo e alma em sincronia
destilando orgasmos cósmicos
em evasão para o Infinito!

Espreito-te
da margem do sonho…

E choro-te!
Pobre emigrante exilado
na margem da banalidade…

Carmo Vasconcelos

DE REPENTE

Carmo Vasconcelos


De repente
mergulhada em bruma
lama sem rumo caída na vereda da ausência

Em rajada de mau vento
meus sonhos amputados
meu sangue coalhado na voragem absoluta

Na mente
um turbilhão, a dúvida irresoluta…
Farsa, comédia, drama,
revolta, dor, ressentimento?
E o ódio enrubescendo em chama!

Porém
nos olhos vazios de espanto
choro de criança era o meu pranto!

Para além do entendimento
de repente… amada
de repente… o nada
de repente… de repente!

Carmo Vasconcelos

 

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