PENELOPE LENDO UMA CARTA DE ODISSEUS

Louis Lagrenée (1725 – 1805, Francês)

 

MEMORANDO DE FOGO
(Poesia Livre II)

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A VIAGEM

Carmo Vasconcelos


Emigro para ti...
Barca antiga de cansaços
levada ao sabor das marés…

Praia ou ilha… Não importa!
Não quero bússola nem mapas
sigo apenas uma luz
que inundou o meu convés
uma estrela
que do alto me murmura:

Vem!...
Não pretendas ouvir o indizível
nem saber a duração da jornada…
Deixa-te embalar pelo canto das sereias
sacia-te dos frutos que emergem ao acaso
bebe das águas turvas de mistério

Vem!...
Não temas tempestades!
Embriaga-te das noites de bonança
perfumadas de incógnitas…
Esquece meridianos e coordenadas
e corta ventos e marés
com teus braços feitos remos
e teus beijos feitos velas

Vem!...
Talvez a praia
não seja mais do que miragem
talvez a ilha
seja um cais de insensatez
talvez te percas, naufragues até...
Mas vem!... Vem!...
Ainda que o desígnio seja apenas a viagem

Carmo Vasconcelos

ALGEMAS DE OIRO
Carmo Vasconcelos


Fecham-se em mim
as tuas mãos...

Algemas de oiro
na mansidão
cerram com elas
ilhas de medos
mares de ciladas...

E os teus dedos
pontas de lume
furam degelos
abrem segredos
nas madrugadas!

Carmo Vasconcelos

ANTES DE TI

Carmo Vasconcelos


Antes de ti
a água era lago
estremecido apenas
por um afago do vento
pelo abortar de uma nuvem
pelo grito de um poema

Lançaste-lhe uma pedra
e o lago
entranhas remexidas
sublimou
o sonho adormecido de ser rio
reencontrar o mar…

Abriu os braços
e correu!

Durante dias e noites
gozou as carícias do sol
banhou-se de lua cheia
cobriu-se de céu estrelado

Mas não encontrou o mar…

Fechou os braços
e correu!

De volta à serenidade de ser lago…

Carmo Vasconcelos

BASTA …

Carmo Vasconcelos


Basta a aragem breve
de uma palavra
para sufocar a vela
que prometia ser luz...

Carmo Vasconcelos

CEGUEIRA

Carmo Vasconcelos


Julgando romper
as cadeias da realidade
arrasto-me em cegueira
para a utopia

E transgredindo
minha própria vigilância
quebro algemas
serro grades, salto o muro…

Para me deter
afinal
ante o arame farpado
da minha retomada lucidez

Carmo Vasconcelos

 

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