"LUAS E MARÉS"

Chegada no Porto de Palermo com o Luar

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QUANDO CHORAS
Carmo Vasconcelos


Quando choras sem querer,
sem motivos aparentes,
e choras sem perceber
por que sofres e o que sentes
que tanto te faz doer…

O que choras, sem saber,
é o profundo desgosto
das crianças maltratadas,
dos sem-lar não acolhidos,
das raças discriminadas.

É o sofrimento sem rosto
dos pobres desprotegidos,
da miséria envergonhada,
das rameiras e oprimidos.
Tanta vítima calada!…

É o longo fogo posto
do dependente agarrado,
dos carentes de afeição,
do inocente acossado,
dos velhos em solidão.

É do fel o duro gosto
das matas incendiadas,
do mar azul poluído,
das aves envenenadas,
das guerras de ímpio sentido.

Quando choras, sem querer,
sem motivos aparentes,
e sem saber o que sentes…
O que choras, na verdade,
são as dores da Humanidade!

Carmo Vasconcelos

QUANTOS?...
Carmo Vasconcelos


Como fiéis devotos
crentes em dádivas divinas,
meus pensamentos peregrinos
não param de escalar
a montanha sagrada dos sonhos.

Uns, desistem a caminho,
outros, soçobram de cansaço,
alguns regressam sangrando.
Quantos chegarão ao cimo?...
Continuarei sonhando!

Carmo Vasconcelos

TEMPO
Carmo Vasconcelos


Tempo!
Ladrão furtivo, cruel e enganador,
por todos tão temido...
Não passas de um fantasma
montado em tua fama de Senhor!

Porque eu…
Feita haste rebelde, verde de alegria,
fruto silvestre amadurado de doçura,
ignorei-te!
E sem temor, esgueirei-me esquiva
por entre a fina rede do teu crivo
de beleza e juventude raptor.

E tu...
Cego de orgulho em teu poder,
em tua vã supremacia,
nem percebeste…
Que eu...
Parecendo obedecer-te,
na minha fuga te roubei
tua ancestral sabedoria!

Carmo Vasconcelos

UTOPIA
Carmo Vasconcelos


Ai de quem não alberga um ideal
e não sabe atear do fogo a chama,
de quem da vida nada mais reclama
do que a mera verdade temporal.

Ai de quem escorraça a utopia
esvaziando-se de vida aos poucos,
dos que nunca foram chamados loucos
porque não deram azo à fantasia.

Ai de quem não consegue ver estrelas
e em redor tudo o que vê é lama,
de quem por baixo seu olhar derrama
e não aponta ao alto para vê-las.

Ai de quem não consegue vislumbrar
a comédia escondida sob o drama,
de quem nessa cegueira chora e brama
sofrendo as suas penas a dobrar.

Bendito o que abraçando a utopia
ousar distribuir a sua luz…
Pois desse se dirá um certo dia
que mais leve tornou a nossa cruz!

Carmo Vasconcelos

TROVAS À TOA
Carmo Vasconcelos


Dum poeta de primeira,
meteu-se o beijo a caminho,
trazia sabor a vinho
e quentura de lareira.

Senti-lhe os laivos de sal,
do mar que entre nós sorri,
pois na boca o acolhi
pra devolver-lhe outro igual.

Ao mar entreguei meu beijo,
que na espuma o congelou,
e na onda que tardou
conservou-se o meu desejo.

Era gelado ao chegar,
teu calor o derreteu,
e esse meu beijo no teu
jamais consigo olvidar.

Carmo Vasconcelos

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