"LUAS E MARÉS"

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OS LIVROS
Carmo Vasconcelos


Neles somos registados,
nomeados e datados,
logo depois de nascer.
E deles somos riscados
nessa hora do morrer.

E é um livro a nossa vida,
bem difícil de escrever,
desde a chegada à partida
sorte triste ou divertida
que não é fácil escolher.

Seguindo a palavra escrita,
redentora e bendita,
o padre reza o sermão,
dá ao menino o baptismo
e ao velho a extrema-unção.

Procurando conformismo
nas horas de aflição,
o Santo Livro pegamos
e lendo lendo rezamos
pedindo consolação.

Noutras horas de amargura,
se temos um livro à mão,
vamos juntos à aventura
espairecendo nossa agrura
e alegrando o coração.

Com eles podemos ser,
sábios, poetas, doutores,
homens de leis, professores,
aquilo que se quiser...
Até livres pensadores.

Com eles podemos ser
detectives e burlões,
saltimbancos, visionários,
soldados ou missionários
partindo em grandes missões.

Nos livros tudo alcançamos,
dependendo da viagem…
Sofremos, rimos, choramos,
neles achamos coragem
e tudo o que mais buscamos.

Podemos até achar
bons conselhos e mezinhas
para maleitas curar,
e bruxedos para vizinhas
que tiverem mau falar.

E em manobras fascinantes,
amarrações para amantes
que perderam o calor,
ou métodos mais tocantes
para vencer no amor.

E até os cegos, senhores,
apenas com os seus dedos,
podem ver neles mil cores,
descobrir os seus segredos
e aprender novos valores.

Livros... Nosso ensinamento!
São a palavra do Cristo,
dos homens de pensamento,
e do poeta que, ao tempo,
foi mal aceite ou benquisto.

Com os livros enriquecemos,
somos felizes, crescemos,
e nada pedem em troca.
Na sua morada oca
mora tudo o que queremos.

Calados ficam dormindo
e só espalham seu lampejo,
acordando, refulgindo,
ao clarim de um desejo
que busca saber infindo.

Leais a todo o momento,
da nova era ou antigos,
ao nosso lado no tempo
envelhecem sem lamento,
companheiros e amigos!

Carmo Vasconcelos

PERDOA-ME
Carmo Vasconcelos


Filho largado à distância,
diz-me onde foi que eu errei!
No amor que te não dei
ou na cega tolerância
com que por vezes te amei?

Nas noites que te deixei
entregue à tua inocência,
não sabia que ficavas
sem saber o que fazer
dessa tua independência.

Não sabia que ficavas
perdido num labirinto
de ideias em movimento,
néons, viagens, "confetti",
erva doce e absinto.

Não sabia que ficavas
solitário e desfeito,
voando talvez pró tempo
em que eu a teu contento
te aleitava contra o peito.

Julgando-te homem já feito
eu nada te perguntava
e de ti nada sabia...

Que querias não ter crescido
e se pudesses voltavas
ao colo que te embalava.
Que querias não ter nascido
e se pudesses cortavas
pela raiz o teu destino.
Que ao mesmo tempo ansiavas,
em amarga ambiguidade,
ser homem e ser menino.

E enquanto eu te abandonava
e de ti nada sabia,
tudo em ti acontecia!

Perdoa-me, filho querido,
em tempo não ter sabido
implorar-te que falasses.
Agarrar-te e impedido
que à droga te agarrasses
como um náufrago perdido...

Perdoa, filho meu, não ter sabido!


Carmo Vasconcelos
(Poema feito para o M.E.R.D.A (Movimento Eclético de Reflexão de Dependentes de Afectividade), do qual fui co-fundadora, em 1996.

POETAS
Carmo Vasconcelos
(A Fernando Pessoa)


Poetas nos dizemos, tu e eu.
Mas a Divina Mestria
está para além do que somos.
Nossos versos... Poesia?
São apenas magros gomos
duma iguaria completa.
Gotas breves
dum mar que imortalizou
o verdadeiro Poeta.

Que a dor nunca nos doa
do poeta que não fomos,
do estro que não floriu…
E bendigamos a asa
que ao de leve nos tocou,
poeira que se espargiu
e nós pegámos à toa
quando a “esquina dobrou”
o grande mestre PESSOA!


Carmo Vasconcelos
(Num Jantar de Homenagem ao Poeta, organizado pela Associação Fernando Pessoa no Café Martinho da Arcada, em Lisboa – ano 2003)

PRECARIEDADE
Carmo Vasconcelos


Esta vida é uma passagem,
só uma etapa da viagem
que ruma à finalidade...
Aqui, tudo é transitório,
todo o poder é ilusório,
reina a precariedade!

Toda a fama é passageira,
que se escapa ligeira,
como água foge da mão...
E o que se julga imutável,
tem mudança inevitável
em futura concepção!

Nada se queda no tempo,
nem risada nem lamento,
tudo é uma breve ilusão...
Até o revés sofrido
perderá o seu sentido
face a uma nova emoção!

Como essa guerra dantesca,
infernal e gigantesca,
que tantas vidas ceifou...
Tempo volvido é lembrança
sepultada pla esperança
do povo que ela marcou!

Nesta esfera alucinante,
tudo é móvel, inconstante,
rotação e translação...
E o que ontem cegou o mundo
com o seu brilho profundo,
hoje já é escuridão!

E também nós, desta lida,
pra vida desconhecida
vamos ter transmutação...
Como a estrela mais bela
não passará de uma vela
nos tempos que advirão!

Por que então tanta guerra
por um pedaço de terra,
por que matar nosso irmão?...
Se à terra nós volveremos
e dela nos bastaremos
tornados apenas chão!


Carmo Vasconcelos
(In “Geometrias Intemporais”, publicado no ano 2000)

QUADRA
(Uma quadra juvenil)
Carmo Vasconcelos


Queria saber tudo deste mundo
que tantas vezes na aparência mente...
Por que se ri quem chora lá no fundo?
E por que chora a dor quem a não sente?

Carmo Vasconcelos

Livro de Visitas

 

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