"LUAS E MARÉS"

Scarborough_ao Luar

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MISCELÂNEA
Carmo Vasconcelos


Alimentos,
pensamentos,
ponho tudo a cozinhar.
Ferve a sopa e a mente,
cozem tempos,
sentimentos,
poemas a fervilhar…

De pronto um arroz invento
com estranho sabor a mar,
e uma carne agridoce
com tempero de sonhar.
Deixo anseios,
sofrimentos,
amores meus a levedar.

Salada verde de esperanças
com travo amargo a lembranças,
escolho para acompanhar.
Alimentos,
pensamentos,
ideias a germinar.

Sobremesas, gentilezas,
rebusco para terminar,
tudo em mesas bem dispostas
com toalhas de luar.
Alimentos,
pensamentos,
Água, Terra, Fogo e Ar…

Miscelânea que cozinho
nesta chama em remoinho
que teima em não se apagar!

Carmo Vasconcelos

NAVIO/ JANGADA
Carmo Vasconcelos


Já fui navio naufragado
por mares de fúria batido,
e entre rochas encalhado
por rota bem adversa...
Ferro novo envelhecido,
madeira nobre submersa!

Sem vigias, amuradas,
ré e proa esfrangalhadas,
mastros soltos à deriva...
Velas rotas, destroçadas,
roda de leme moída,
âncora solta, perdida!

Perdi meu Norte, meu tempo,
e na agonia da espera
este navio naufragado
já nem sabia quem era...
Grande tormenta passou
por este barco que sou!

Mas os ventos de mudança
e areias em movimento
num retorno de bonança...
Trazem à tona o momento
do emergir da esperança
de achar de novo o meu tempo!

Do pouco que então restou
muito farei, pois estou
na viagem apostada...
Já sei de novo quem sou!
O navio… virou jangada,
mas mesmo assim... aí vou!


Carmo Vasconcelos
(In "Geometrias Intemporais", publicado no ano 2000)

NO BALOIÇO
Carmo Vasconcelos


No baloiço da palavra
eu brinco, menina,
e floresço.
Subindo, descendo,
e mesmo caindo,
eu cresço.

E enquanto
meus sonhos processo,
das tranças desfeitas, meus laços,
subidos, descidos,
e mesmo caídos,
eu esqueço!

Carmo Vasconcelos

NOS BRAÇOS DE MORPHEU
Carmo Vasconcelos


Da quentura do meu leito
para os braços de Morpheu,
eu parto voando leve…
Deixo o lógico e o estreito,
o racional e o perfeito,
e nessa viagem breve
vai a outra que sou eu!

E enquanto Morpheu norteia
meu sono e abstracção
na sua louca odisseia…
Eu, imóvel, sem um gesto,
rasgo a imaginação
e elevo a minha visão
pra além do que é manifesto.

E nessa rota plo Espaço
onde o tempo não é nada
e a distância não tem passo
nem rua ou encruzilhada…
Salto obstáculos, barreiras,
sem bitolas nem craveiras,
e meus poderes ultrapasso.

Nesse breve cerrar de olhos
não há medos nem escolhos
limites ou competências…
E nesse céu sem fronteiras
esqueço conveniências,
tabus e rectas maneiras,
sem medir consequências.

Comigo o sono e o sonho,
dois companheiros sem siso,
fazem calar minha mente
e enlouquecem meu juízo…
E eu à solta impunemente,
num, ao porvir me anteponho,
noutro, o passado exorcizo.

Meu corpo posto em repouso,
alma entregue ao imprevisto,
é hora em que tudo ouso…
E é dormindo que insisto
em sorver, voraz, do sonho,
a força que à dor oponho,
as armas com que resisto!


Carmo Vasconcelos
(In “Geometrias Intemporais”, publicado no ano 2000)

O MEU RIO
Carmo Vasconcelos


Obrigada, Senhor, por este rio
de palavras que navego!
Por estas noites sem tédio
em que às palavras me entrego
de corpo e alma sem escusas!
Por esta lava de ideias
que dá calor ao meu frio
e aos meus males remédio…
E pelo cantar de sereias
com que me brindam as musas!

Obrigada, Senhor, por este sonho
que ilumina as madrugadas
cinzentas, pardas e feias!
Plas suas cores que eu disponho
em arco-íris de alvoradas
nas sombras das minhas teias!
E pela tua voz bendita
posta em minha inspiração,
raio de luz na desdita
da minha alma em solidão!

Senhor, bom e omnipotente,
que o bem semeias e lavras
e tudo nos podes dar,
das nossas preces ciente…
Rogo-te mais um presente:
põe teu pé na minha estrada,
condão e pena de fada,
e ajuda-me a transformar
o meu rio de palavras
em poemas feitos mar!

Carmo Vasconcelos

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