"LUAS E MARÉS"

Cena na Costa ao Luar

Robert_Salmon (1845)

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INCÓGNITA
Carmo Vasconcelos


No tempo que viverei
em rota de evolução,
quantas vidas cumprirei
pra alcançar a perfeição?…

Uma vida ou mil vidas?
Quantas delas formarão
as fases desconhecidas
desta secreta adição?…

Sou a soma do que fui,
vivências que desconheço,
sei porém que delas flúi
a vida que hoje mereço!

Sei que sou a diferença
entre o que fui e serei,
mas o futuro é sentença,
parcela que não achei!

Passado na escuridão,
futuro por conhecer,
tornam esta equação
difícil de resolver!

Só sei que as vidas contadas
pela sábia e Suprema Lei,
pelo Divino somadas,
dão o total que não sei…

Carmo Vasconcelos

INSPIRAÇÃO?...
Carmo Vasconcelos


Hoje, depois da merenda,
sem halo de inspiração,
dei-me de pena na mão
querendo fazer um poema.

Medito...
Fazer um poema a quê?
Se tudo já foi dito...
As estrelas, o luar,
as ondas, o céu, o mar,
tudo já...
magistralmente descrito!

Ao amor – o velho mito?
Será que nele acredito?...
Aos velhos e às crianças
que nos estendem a mão?
Para esses não há poema
que valha um naco de pão!

Fazer um poema a quê?
À terra onde nasci?
Se o que me dói é o Mundo
lonjuras que inda não vi!

Hoje…
Meu vazio só sente o nada!

Insisto!
Fazer um poema a quê?
À beleza, à fealdade,
à velhice, à mocidade,
à dor que tomba chorada?
Essas…
puídas de tão descritas,
moídas de tão cantadas,
já se dão por interditas.

Hoje, não! Não há poema!
Nem sequer ao abandono
a que me votam as musas!

Solto lágrimas reclusas,
cerro os dentes,
bato a porta,
só pra me dar a certeza
de que ainda não estou morta!

Carmo Vasconcelos

LOBO DO MAR
Carmo Vasconcelos


Lobo do mar, boca de sal, olhos de céu,
alma indomada, revoltosa como o vento,
seu lar incerto o vasto oceano que escolheu,
seu leito a espuma entre lençóis de firmamento.

Seu pertinaz desejo, sempre o de ir além,
dar alma e voz a um sonho louco de conquista,
ser mais do que um, e não bastar-se deste aquém,
rasgar mil mares doutros mundos que ele avista.

Cada largada, de olhos de água a transbordar,
sangue vadio, coração solto, alma inconstante,
é fome e sede de distância, pra amainar
essa ansiedade que corrói seu peito errante.

E em cada porto uma sereia, taça estonteante,
de corpo lânguido, sabor a doce mosto,
é paz e brasa de lareira confortante,
onde derrete o sal amargo em fogo posto.

Lobo do mar, de pés em terra a contragosto,
é como peixe fora d’ água a estrebuchar;
triste gaivota, presa em grades de desgosto;
asa quebrada que pranteia o perdido voar.

Carmo Vasconcelos

LUZ NA ESCURIDÃO
Carmo Vasconcelos


Nossos erros do passado,
nossas metas incumpridas,
pedem mais caminho andado,
numa, duas, ou mil vidas!

Por nós sermos ignorantes
desta e de outras verdades,
somos cegos caminhantes
neste mundo de vaidades!

De olhos vendados entramos,
às cegas e iludidos,
em portas onde vibramos
pela evasão dos sentidos!

E loucos, não percebemos,
plas tentações atraídos,
que desses falsos terrenos
só sairemos caídos!

É tempo de dizer não!
Busquemos a rota certa
que leva da confusão
à consciência desperta!

Acharemos muitas “velas”
alumiando a estrada,
que luzindo, paralelas,
dão mais luz à caminhada!

Se nos juntarmos a elas,
ressurgirá um clarão…
De muitas pequenas velas
se faz Luz na escuridão!

Carmo Vasconcelos

MINHA RAIZ
Carmo Vasconcelos


Árvore de que descendo, donde provém tua raiz?
De que chão, de que raça, de que distante país?

Eu te interrogo... porque nesta vida
só reconheço nos teus verdes braços
meus pais, meus avós, e seus cansaços…
Nas tuas folhas, como herança recebida,
reconheço os rebentos meus irmãos,
flores abertas fecundadas num abraço
dando frutos espalhados pelo espaço.
E em tua copa frondosa vejo o coração
de uma família enlaçada dando as mãos
aos seus rebentos... que outros rebentos darão.

Mas... teus ramos velhos (a gema, a criação)
donde vieram, quem foram, onde estão?
Quem te plantou pela vez primeira?
Sábio ou mendigo? Rei ou peregrino?
E quem adubou tua madre feiticeira?
Diz-me quem foi e a cor do seu destino!
Se eu, de ti, árvore, só conheço a rama
deixa-me cavar fundo em tua cama
descortinar o berço de teus ocultos ancestrais,
suas eras, seus credos, seus destinos fatais!

Árvore de que descendo, donde provém tua raiz?
De que chão, de que raça, de que distante país?...


Carmo Vasconcelos
(1º. Prémio de Poesia Livre – Jogos Florais da Ordem Rosacruz-AMORC
Ano Rosacruz 3349 – Lisboa-Portugal 1996)

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