"LUAS E MARÉS"

Luar na Praia de Southwold

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BAILANDO COM A CHUVA
Carmo Vasconcelos


Lá fora... cai a chuva indiferente,
dançando nua, gelada e ondulante,
invade-me o seu frio penetrante
e ensopa-se a minha alma lentamente.

Baila com a chuva o meu imaginário,
a valsa de ontem, memórias esquecidas,
rodopiam sonhos, paixões adormecidas,
pecados inconfessos, segredos dum diário.

É um bailado grotesco, alucinante,
vertiginoso, cruel, fantasmagórico,
a um só tempo deprimente e eufórico,
sombras chinesas numa tela esvoaçante.

Lá fora... cai a chuva persistente.
Já mal a ouço, absorta em devaneio,
de alma alagada, mente náufraga, sem freio,
meu corpo enrodilhado e indolente.

Lá fora... pára a chuva de repente!
E um odor a seiva, a pão, terra molhada,
enxuga-me a alma e faz brotar a gargalhada
que devolve à vida o meu corpo já dormente.

Nas asas do vento morno, o passado foge,
do porão da alma eu tranco as escotilhas,
mudo o cenário, troco as sapatilhas,
e volto para o palco, bailarina de hoje!

Carmo Vasconcelos

CABELO BRANCO
Carmo Vasconcelos


Amo o meu cabelo branco!
Nele não vejo saudade
das estações já passadas…
Antes espelham… e tanto,
minhas cumpridas jornadas.

Enquanto mudou seus tons
mudei minha ambiguidade,
fui descobrindo meus dons…
Por que então sentir saudade
dos tempos da mocidade?

Muito agradeço aos pintores
que com enormes desvelos
querem pintar meus cabelos…
Mas tingi-los de outras cores
não desfará meus novelos.

Parecia outra… é verdade!
Mas outra não quero ser…
Gosto de mim, sem vaidade,
cabelo branco é saudade
pra quem não sabe viver.

Cabelos pretos, sedosos,
e de ébano os seus fulgores,
já os tive, meus senhores!
Foram clareando teimosos
entre alegrias e dores.

Os meus cabelos de neve
branquearam meu caminho
fazendo-me ser alguém
que somente ao tempo deve
o deixar de ser ninguém.

Só agora que são brancos
me trazem serenidade
e paz profunda, por fim!
Sua cor não é idade,
idade… é dentro de mim!

Carmo Vasconcelos

CARTA A BOCAGE
Carmo Vasconcelos


Eu que venero a poesia quase entendo
como afogaste na alma a dor tamanha,
na máscara de boémio te escondendo,
iludindo uma plebe assaz tacanha.

Por ser demais sublime tua poesia,
d’estro maior que o seu entendimento,
enxovalhada foi, por heresia,
e enorme se igualou ao teu tormento.

Pudera ter-te ao tempo conhecido,
que afagos mil, de mãe, eu te daria,
e dos teus olhos brilho tão sofrido
com o fulgor dos meus alegraria.

Poeta de talento, pena vasta,
porém de fado gémeo da má sorte,
duma vida que foi pra ti madrasta
piedosa, te salvou a terna morte.

E lá... onde repousas, presente hora,
Vingado da chacota e desse ultraje,
O derradeiro a rir és tu, no agora,
De quem outrora riu de ti, BOCAGE!

Carmo Vasconcelos

DESACERTO
Carmo Vasconcelos


Sou momento que passou
em tempo desacertado
neste relógio atrasado
que nunca mais se acertou.

Esses minutos em mim,
correndo desajustados,
do desacerto cansados,
clamam acerto por fim.

E na rota descontente,
os segundos andarilhos,
por tédio dos lentos trilhos,
recusam-se andar prá frente.

Perdeu-se a escolha apostada
neste relógio que enfrento...
Nele as horas são momento,
e eu sou já hora passada.

Carmo Vasconcelos

DIA DE SÃO VALENTIM
Carmo Vasconcelos


São Valentim no seu trono
protege os enamorados
em dia de festivo amor...
Que Santo será patrono
dos entes abandonados
que só conhecem a dor?

Preciso saber seu nome,
pra lhe fazer orações
pelos que sofrem frio e fome,
e tão de amor despojados,
só vivem enamorados
de impossíveis ambições!

Quero saber onde mora,
para ir lá com devoção
rogar-lhe apenas uma hora
de calorosa afeição
para toda alma que chora
perdida na solidão!

E se eu soubesse o seu dia,
recitava-lhe uma prece
direitinha ao coração!
De joelhos, lhe pediria:
“Torna o Mundo enamorado
de Paz, Justiça e Perdão!”

Carmo Vasconcelos

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