"LUAS E MARÉS"

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A UMA ACTRIZ ENTRE UM MILHÃO
Carmo Vasconcelos


Eu te saúdo, mulher de coragem,
que ousaste encetar nova viagem,
malas vazias, mãos cheias de nada…
Deixando para trás a paz apodrecida,
a farsa de bairro mal representada
a que só os cobardes chamam Vida.

Eu te saúdo, actriz, palhaço meu irmão,
que ousaste soprar luas em bolas de sabão
abandonando um palco que contigo não diz…
Que te deste o direito de sonhar e ser criança,
de aspirar outro ar, renovar a tua esperança,
acreditando que podias ser feliz.

Eu te saúdo, actriz entre um milhão,
que ousaste recusar-te à exibição
da peça desgastada e sem interesse…
Que te entregaste de alma e coração
a um novo papel que não esse...
Actriz, sim! Mas nessa peça, não!

Carmo Vasconcelos
1998

AMIGO
Carmo Vasconcelos


Amigo, as minhas mãos são tuas!
Cavalgam no luar das tuas luas,
aquecem no sol que te bafeja…
Navegam no mar das tuas mágoas,
remam contigo por marés e fráguas,
unem-se para orar a Deus que te proteja!

E o meu maior desejo é estar contigo,
és tu que me dás consolo e abrigo,
quando dos meus olhos corre o choro…
Que me aconchegas suave no teu peito,
se, de tristeza e amor insatisfeito,
sofro… e na tristeza me demoro!

Por isso te dou as minhas mãos,
façamos a viagem como irmãos,
de mãos dadas nas pedras do caminho…
E quando a nossa mente desnorteia,
que seja o meu amor tua candeia,
que seja a minha luz o teu carinho!

Carmo Vasconcelos

AO POETA…
Carmo Vasconcelos


Deve amar-se sem pensar
em abarcar seu olhar
onde mora a imensidão…
Sem pretender decifrar
se ele nos ama ou se não.

Pois nem ele próprio sabe
se tem espaço, se em si cabe,
único, um amor profundo…
Em seu peito alberga o mundo,
paixão feita inquietação.

Prosa, rima, abstracção,
ferve-lhe a alma em cachão,
gelam-lhe as mãos longos frios…
Nas ânsias do coração
corre-lhe o sangue em rios.

E corre sem direcção,
sem rumo, na indecisão
de prender-se a uma só voz…
Poeta é rio sem foz,
sem margens sua ilusão.

Poeta só pode amar-se
sem pretender sufocar-se
o ar que em versos respira…
Amando as suas ausências
que prós longes o atira.

Afagando o seu regresso
sem nunca dizer-lhe “peço”
mas seu voltar festejando…
Que ele ao voltar está amando,
pese o amor inconfesso.

Nutrindo-o de imaginário,
dando-lhe a beber o vário,
mesa e cama encantamento…
Saciando-o de eternidade
na loucura de um momento.

Só do hoje lhe servir,
que ele não degusta o porvir
nem os sabores de amanhã…
Poeta sorve a maçã
do agora… pronta a cair.

Deixem que as musas o amem,
das alturas não o chamem,
que as pedras do chão lhe doem…
Do sonho não o acordem,
dêem-lhe penas que voem!

Carmo Vasconcelos

AS MÃOS
Carmo Vasconcelos


Mãos vermelhas, amarelas,
mãos negras ou de brancura,
desiguais na formosura,
corre quente em todas elas
rio de sangue unicolor...
Rubro… na sábia vontade
da mão Divina em amor,
preconizando igualdade.

Porém... na iniquidade,
escolhendo adversidade,
usa o Homem imperfeito
mãos que doem como pedras...
Ferramentas da maldade,
mesmo brancas causam negras
nódoas no corpo e no peito,
estigmas de infelicidade.

Outras, para o bem guiadas,
sua cor, não documento,
se mostrarão incrustadas
de perlas-fraternidade...
Negras, serão claridade,
vermelhas, rubro calor,
brancas, puro pensamento,
amarelas, luz e amor.

Mãos que enrugam de labor,
moem, labutam na terra,
secam ao fogo e no mar,
para o sustento nos dar…
E as que sangram na guerra
para a paz nos sossegar,
e as que velam com alor
pra nossas feridas sarar.

Outras mãos há, mais serenas,
que nasceram pra elevar
nossa alma, nossa mente…
Com a magia das penas,
gestos da cor do sonhar
e dedos feitos voar,
bordam palavras-semente,
espalham poesia plo ar!

Carmo Vasconcelos

AS NOSSAS CRIANÇAS…
Carmo Vasconcelos


São anjos que nos protegem
com suas asas de inocência,
ignorantes de luxúria.
Somos os deuses que elegem,
elas nos pedem prudência,
não admitem incúria.
Que em sua tenra candura,
somos supra sapiência.

São a frescura e leveza
duma fonte de água pura,
que lava da impureza
nossa tendência impura.
São estrelas a brilhar,
macieza de algodão,
a onda branca do mar,
a alma sem contrição.

São alegres passarinhos
que em constante chilrear
alegram nosso pesar.
De delfim são seus carinhos,
sagrados os seus miminhos,
e quando nos dão a mão,
esquentam nossa solidão,
devolvem nosso cantar.

Tão sábia a sua instrução!
Pois nos ensinam a amar
como os anjos… que eles são!

Carmo Vasconcelos

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