"LUAS E MARÉS"

Luar em Azul

 Madison Moore

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A CANÇÃO DA VIDA
Carmo Vasconcelos


Eu canto a cada alvorada
Que à vida me traz de novo,
Canto a alegria de um povo
Que ri de alma atormentada!

Canto o riso da criança
E a sua pura inocência,
Canto a minha irreverência
E a minha eterna esperança!

Canto as searas repletas
E o Sol em cada manhã,
Canto um melhor amanhã
Pra justiças incompletas!

Canto a vida que não pára,
A noite que segue o dia,
Canto até, quem tal diria…
O silêncio que os separa!

Canto os peixes e o mar,
E as fontes de água fria,
Canto esta minha alegria
E o meu desejo de amar!

Canto a deusa poesia,
Meus devaneios risonhos,
Canto a ilusão dos meus sonhos
E a minha doce utopia!

Canto o ter sido nascida,
E o nosso Deus Criador,
Canto o meu profundo amor
Pela dádiva da Vida!

Carmo Vasconcelos

A CORRIDA
Carmo Vasconcelos


A vida o tempo nos leva,
e o tempo nos leva a vida,
que vivemos de corrida
entre a alvorada e a treva!

Do ontem que mal passou,
vem o hoje na peugada,
e o presente é já montada
do futuro que chegou!

Horas, dias, são de menos,
meses, anos, não são nada…
Porque a dimensão da estrada
faz deles muito pequenos!

Tão pequenos quanto nós,
que de um grão de pó viemos,
e que para o pó corremos
nesta corrida veloz!

Carmo Vasconcelos

(Retrato que guardei na memória duma figura típica
que circulava pelo meu velho Chiado)

A DOIDA
Carmo Vasconcelos


Chamam-lhe "a doida" quando passa...

Chapéu desbotado, xaile de seda desfiada,
saia de lamé, sem brilho, esfarrapada,
que um velho alfinete d'ama prende e laça.
Cambaleiam com ela os sapatos já sem saltos
outrora reluzentes de verniz e tacões altos.
Nas magras mãos, as luvas, pardas, rotas,
fazendo acenos de menina rua fora
balanceando uma carteira de abas soltas
que lhe deu uma vez uma Senhora.

Ladram-lhe os cães, riem-se os gaiatos...

As velhas faces, peles caídas, enrugadas,
de um vermelho rançoso inda pintadas
com sobras de bâton achado em rua sinuosa,
descartado, talvez, por qualquer dama duvidosa.
Colar de contas roxas enfiadas num cordel
e na ilharga, amarrotada, uma flor murcha de papel.

"Que vergonha!" , murmuram as Senhoras...

Mas ela, surda, ausente, caminha para a sua festa
transportando consigo tudo o que lhe resta.

Chegada a noite, vem a fria e dura solidão.
Seus olhos cansados e os pés alquebrados
procuram tréguas nas pedras do chão.

Parece um embrulho, um monte de entulho...

Não dorme, delira de febre, trémula de frio,
mas nesse delírio feito de visões pelas madrugadas
revê sua vida, tão rica, pelo mundo estafada.
E em esgares de prazer, solta gargalhadas...
Pois só ela sabe...
Como foi linda, o quanto foi amada!


Carmo Vasconcelos
(
In "Geometrias Intemporais", publicado em Maio/2000)

 

A FEIRA DA VIDA
Carmo Vasconcelos


Ao nascer todos entramos
nesta feira de vaidades
sem ter entrada a pagar…
Com folguedos a fartar
para todas as idades
de imediato pensamos
que o melhor é aproveitar!

Na grande roda que gira
rodamos rindo demais
se pró alto nos atira...
Descuidados de lembrar
que a roda sempre se vira
e podemos aterrar
nalgumas quedas fatais…

E no carrossel alado,
estridente e enviesado,
alegres entontecemos...
Mas se a rifa que escolhemos
pra um belo par sorteado
nos dá um parceiro errado,
nós quase enlouquecemos…

Na bruxa lemos a sina,
escutamos o que diz
e o que a sorte nos destina...
Cremos… se a sina é feliz,
mas se ela augura desgraça
no seu presságio infeliz,
dizemos logo - é trapaça!…

E nos carrinhos de choque
já nos vemos milionários
campeões de grande enfoque...
E como ases visionários
corremos fora de mão
contra sentimentos vários,
pra vencer ao empurrão…

Por vaidade e sem temor,
lambemos algodão doce
de ternas juras de amor...
E tal qual champanhe fosse
sorvemos acres gasosas
de promessas sem valor,
falsas, fúteis e enganosas…

E na casa dos espelhos
os corpos e rostos velhos
falseamos noutra imagem,
ilusão de mocidade...
E nosso ser de verdade
ocultamos na roupagem
ao gosto da sociedade…

Junto ao comboio-fantasma
a negra imagem da morte
dá-nos um medo que pasma...
E nesse terror sem norte,
e sem travão que obedeça,
até esquecemos que a morte
é vida que recomeça…

Por fim, no poço da morte
termina o grande festim
por esta feira tão linda
e sem entrada a pagar…
Só não sabemos ainda
que há sempre um custo a saldar,
que a conta é paga no fim!…

Carmo Vasconcelos

A GLORIOSA ERA DOS DESCOBRIMENTOS
Carmo Vasconcelos


Do mar e seu mistério enamorados,
uns bravos mareantes arrojados
deixaram terra firme e o que era seu…
Partiram temerários à aventura
desafiando vagas em noites de breu,
arrostando o perigo na sua loucura.

Movidos por que forças… Não sabiam!
Rumaram à lonjura, ao infinito,
na ânsia de alargar seu estreito mundo,
certos de que algo novo encontrariam
além, mais longe, mais alto, ou pelo mar fundo…
Que tamanha crença não podia ser um mito!

Outras paragens, outros credos, outros povos,
onde estariam?… Quais as coordenadas?…
Sabiam apenas que parar já não podiam,
sufocar o grande sonho já não conseguiam…
Dar ao velho mundo mundos novos,
trazendo à luz recônditas moradas.

E o sonho imenso, maior que o mar astuto
que se interpunha entre a ânsia e a coragem,
aumentou-lhes a audácia a cada nova viagem
e transformou-lhes a vontade num algoz do medo
que os fez tudo vencer, até o mortal segredo
do monstro Adamastor, medonho e bruto!

Na esperança e na aventura os primeiros,
engoliram fomes, engulhos nas entranhas,
queimaram de febres, maleitas estranhas,
porém… de todos os mais intrépidos e ligeiros,
os nossos portugueses em únicas façanhas
foram da Gloriosa Era os pioneiros!

Foram os heróis, os mártires, os paladinos,
das descobertas além do mar bravio,
da ligação a ignotos mundos o bendito fio
condutor do Homem a diversos mil destinos…
Os eleitos que deram à Pátria a História sem igual
que engrandeceu de glória o nosso Portugal!

Carmo Vasconcelos
1998

Livro de Visitas

 

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