CARMO VASCONCELOS

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«ENTREVISTA À CONFRADE Poetisa Carmo Vasconcelos»
Os Confrades da Poesia | Boletim Nr 51 | Setembro/Outubro / 2012 | 15

http://www.osconfradesdapoesia.com/Confrades51.pdf

 

 

Os Confrades da Poesia – A Carmo Vasconcelos define-se como poetisa?
CV – Quando eu tento definir-me, sempre me perco em indefinições. Uma pessoa definida, é um ser estático que parou na sua rota de evolução. A própria vida é indefinida e cheia de surpresas que nos vão transformando dia-a-dia.
Como poetisa, eu diria que, como todo o poeta, eu trouxe a esta vida as bases, os alicerces, talvez as memórias dum poeta do passado. O edifício vai-se fazendo aos poucos, cimentando, rebocando, aperfeiçoando. Sou um poeta em construção.

OCP – Sente orgulho da sua terra Natal?

CV – A minha terra Natal é Lisboa, parte de um pequeno País, geograficamente, mas grande na sua História ancestral.
País que deu novos mundos ao Mundo, de bravos soldados e marinheiros. País de vates e trovadores, e de uma vasta riqueza histórica e patrimonial. Lisboa, a cidade que me viu nascer e crescer, meu leite e meu berço, meus jardins e meus baloiços, meus primeiros amores. Mais que orgulho, amo o meu país e, adoro a minha cidade.

OCP – Quando começou a escrever e como define a Poesia?

CV – Cedo se manifestou em mim, o amor pelas letras. Quer através da leitura, quer através da escrita que se foi desenvolvendo a par e passo, a um ritmo cadenciado e natural comparável aos ritmos da natureza inerentes a cada ser. Se desenvolvendo oculta e silenciosa a um nível interior, semelhante a um bolbo subterrâneo que só aparece ao nível do olhar quando finalmente está pronto. Ou como o lento e misterioso caminho da crisálida a borboleta que por fim, abre as asas e voa. Ou como o meu pequeno poema: “Para tudo um tempo certo/o momento inadiável/a pétala que cai fatigada/o fruto que tomba maduro/o poema que irrompe/definitivo.”
Respondendo mais objectivamente, comecei a exteriorizar a minha poesia em 1996. Depois que fiquei viúva e me aposentei. Hesitante e incipiente, fui lançando as primeiras pedras do edifício em construção.
Como defino a poesia? - A Poesia é, acima de tudo, um dom que todo o Poeta deve agradecer por possuir. É uma das Belas-Artes que enfeitam o mundo. E como Bela-Arte deve ser tratada. Cada Poeta lhe dará uma definição, consoante o espírito que o move no momento que o inspira. Pode ser uma poesia de ficção e aí o autor mobiliza a sua capacidade de invenção na criação de imagens e sentires imaginados. Por outras vezes, ela irrompe espontânea, fruto de um estado de alma, alegre ou triste, feliz ou desalentado, e aparece como consolo ou desabafo. Se provém dos recantos da memória, pode funcionar como catarse. E temos muito mais definições: Pode ocorrer como uma arma de combate a todas ou qualquer forma de discriminação e injustiça, e outros repúdios de origem moral ou social; também como mensagem de Amor e Paz Universais.

OCP – Acha que a Poesia é um bem Universal?

CV - Por tudo o que disse acima, e o que omiti, a Poesia é, sem dúvida, um precioso Bem Universal.

OCP – Há quem diga que os poetas são loucos ou sonhadores, qual é a sua opinião pessoal?

CV – Bom… Pode haver poetas loucos, e loucos que não são poetas. Não creio nessa afirmativa, pelo menos, como um estado permanente. Pelo contrário, o poeta precisa de toda a lucidez para expressar de forma organizada e coerente a mensagem que deseja formular. Embora possa ter momentos de “transe poético” em que a inspiração flua de forma inusitada e, quiçá, sobrenatural, a trazer-lhe raros momentos de genialidade. Sonhadores? Sim. O Poeta sempre sonha além do racionalmente possível. Sonha com a igualdade, a fraternidade, um mundo sem guerras nem fome, o amor entre os povos e os homens… etc. etc. Sonhos… sonhos…

OCP – Quais os seus autores favoritos?

CV - Desde os clássicos aos contemporâneos, prosadores e poetas, e terminando na literatura de cariz espiritualista e comportamental, são muitos. Mas jamais esqueço, a literatura que marcou a minha adolescência: dos estrangeiros, Stefan Zweig, Emile Zola, Françoise Sagan, Alberto Moravia, Stendhal; dos portugueses, Eça de Queiroz, Almeida Garrett, José Régio, Camões, Antero de Quental, Florbela Espanca, Camilo Pessanha, entre outros. Mais recentemente, Unamondo, Tagore, Kipling, Hermann Hesse, Montaigne...

OCP – Tem obras publicadas ou publica os seus trabalhos em jornais ou revistas?

CV – Tenho apenas um livro de Poesia editado em papel no ano 2000, “Geometrias Intemporais”, e várias publicações em Jornais e Revistas Portuguesas e Antologias Portuguesas e Brasileiras. Enquanto não tinha “descoberto” a Internet, onde só ingressei em 2004, a minha rota poética se fez ao vivo em Associações e Tertúlias poéticas. (De 1996 a 2004).
Hoje, aderindo à modernidade, tenho 16 e-Books editados, incluindo Poesia, Romance e Ensaios, e inúmeras publicações avulso em Jornais, Revistas e Sites na Internet. Entre eles, no Boletim dos Confrades da Poesia.

OCP – Encontra algumas dificuldades em publicar os seus trabalhos?

CV – Publicar em papel deixou de ser para mim uma opção. Os custos praticados pelas editoras são exorbitantes e o resultado não compensa. Depois da euforia do lançamento, os livros adormecem nas prateleiras das livrarias, perdemos-lhes o rasto e, principalmente, não temos feed-back dos leitores.

OCP – Qual a sua opinião sobre a publicação digital (e-books) hoje tão actual?

CV – Como disse acima, já optei por essa modalidade faz tempo. A Internet é hoje a maior fonte de leitura e publicação, quer a nível técnico, didáctico e de imagem, quer a nível recreativo em todos os quadrantes.
Num futuro muito próximo, o digital acabará por enterrar o papel.

OCP – Tem prémios literários?

CV – Sim. Bastantes. Seria fastidioso enumerá-los aqui.

OCP – Tem Blog ou site próprio ou participa em alguns?

CV – Tenho 3 Blogues pessoais e várias páginas em diversos sites e blogues.

OCP – Como define «Amizade»?

CV – A amizade é um substantivo abstracto… Como tal, cada vez menos as amizades são concretas. Mas quando são reais e verdadeiras são para estimar, como um bem raro e precioso. É muito bom ter um amigo/a em quem se pode confiar reciprocamente.

OCP – Como classifica o saber perdoar?

CV – Bom… Depende da falta a perdoar. Há faltas e faltas… Pessoalmente, não perdôo traições e injustiças. E também não sou Cristo para dar a outra face. Nem Deus para perdoar. Não adianta querer parecer “bonzinho”. Há muita hipocrisia nas mensagens públicas que nos chegam quanto ao “dever” de perdoar. Na vida há acções e consequências, e cada um tem de colher o que semeia. Para isso existe uma Lei Universal mais sábia do que nós. A sábia Lei da Compensação ou Karma. É nela que confio e na qual delego esse poder.

OCP – Como classifica o nosso Boletim online em PDF? … Achou cansativo a publicação mensal?

CV – O “nosso” Boletim é mais um valioso meio de difusão de quantos autores se dedicam à palavra escrita. E louvo quem se entrega a esse trabalho de divulgação sem qualquer retribuição, simplesmente por amor à arte e altruísmo cultural. Todos não somos demais para espalhar, difundir, divulgar… e todos os sinónimos possíveis que sirvam para não deixar morrer a Literatura e a Poesia. O mundo precisa cada vez mais de escritores e poetas que sirvam de contraponto e mantenham o equilíbrio, deste nosso mundo tão castigado pelo materialismo. E que esses valores se transmitam às gerações futuras.
A publicação mensal do Boletim é cansativa, principalmente para quem tem o trabalho de o pôr no ar. Só quem se dedica a trabalhos do género, sabe o quanto tem de despender do seu tempo pessoal, do seu descanso, às vezes, até da sua saúde, para levar avante cada publicação. O leitor, de um modo geral, passa os olhos em escassos minutos do que levou dias e noites a elaborar. Esta a principal razão por que concordo com a publicação bimestral.
OCP – Como já residiu em outros países… que diferença nota nos apoios à cultura nomeadamente à poesia, entre esses países e Portugal?
CV – O tempo que residi noutro país, limitou-se a uma passagem breve de 2 anos por Angola que, ao tempo, ainda era Portugal. Não deu para avaliar essa questão.

OCP – Dada a sua experiência que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever?

CV – Que leia, leia muito. Que guarde, anote, não desperdice todas as ideias que lhe pareçam dignas de serem transformadas em mensagens para o Mundo, nas suas várias vertentes: de amor, paz, solidariedade, justiça e denúncia. Que estude a língua mãe profundamente – nada mais inestético do que um poema ou uma prosa com erros linguísticos. Eles desfiguram muitas ideias verdadeiramente geniais. E, sobretudo, que tenha a coragem de não as manter ignoradas.

OCP – O nosso Bem-Haja!


 

 

 

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