Carmo Vasconcelos

 

Mulher Reclinada no Divan

Delacroix – 1825

"Despida de Segredos"

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TE ESPERO , MEU GATO!
Carmo Vasconcelos


Sou a tua gata
num telhado frio,
te espero, me cata,
meu gato vadio!

Sou meiga, me atiça,
dá-me o teu miminho,
me afaga, me eriça
meu pêlo de arminho!

Tens mãos que sobejam,
dedos - pianistas,
nos lábios que beijam
tens dotes artistas!

Dá-me mãos e dedos,
volúpias, carícias,
e eu dou-te segredos,
aromas, delícias!

Pra ti, sedutor,
surpresas desfio,
unhadas de amor,
miados de cio!

Felina te arranho,
te lambo, te cubro,
me arqueio em tamanho
de fêmea ao rubro!

Te levo ao tapete,
rolamos plo chão,
sou o teu ginete,
és o meu leão!


Carmo Vasconcelos

 

TENHO MEDO, MEU AMOR…
Carmo Vasconcelos


Tenho medo, meu amor,
que se desfaça a magia
e se quebre o meu encanto,
que esfrie tanto calor,
emudeça a melodia,
e o riso se torne pranto.

Tenho medo, meu amor,
que por fatal ironia,
este doce encantamento
se esfume noite pró dia,
como asa de condor
levada em golpe de vento.

Tenho medo, meu amor,
que por medo o pensamento
me conduza ao desapego,
e cale o meu sentimento,
pra que eu não mais sinta dor,
frustração, desassossego.

Tenho medo, meu amor,
que presente tão tardio,
me cegue com seu fulgor,
e não passe da miragem
de um oásis fugidio
onde brilha a tua imagem!


Carmo Vasconcelos

 

TUDO ME DÓI
Carmo Vasconcelos


Doem-me as palavras estafadas,
doem-me os silêncios magoados,
doem-me mil beijos estagnados,
doem-me as carícias enjeitadas!

Doem-me os momentos inventados,
dói-me esta ternura aprisionada,
dói-me esta volúpia recalcada,
doem-me estes nervos retesados!

Doem-me os dias desperdiçados,
doem-me as frases-banalidade,
dói-me este erotismo sem idade,
doem-me os meus ais amordaçados!

Dói-me esta paixão descompensada,
dói-me a solidão-vacuidade,
dói-me a imutável realidade,
dói-me o entender tudo e nada!

Doem-me os desejos embotados,
doem-me os meus gestos impossíveis,
doem-me os prazeres inacessíveis,
doem-me os amantes enlaçados!

Dói-me o estar vazia a minha mão,
dói-me esta vivência inacabada,
dói-me a solidão na caminhada,
dói-me a alma, a mente e o coração!


Carmo Vasconcelos

 

 “UM POEMA” ME CHAMASTE
Carmo Vasconcelos


“És tu mesma um Poema!”
me disseste tão galante,
que uma ventura suprema
baixou em mim nesse instante.

Se é assim que tu me vês,
bem te podes orgulhar
de eu ser também obra tua…
Pois só por tanto te amar
minh’alma voando nua
por ti “poema” se fez!

E digas o que disseres,
de certa forma secreta,
tu és também o poeta
do “poema” que sou eu…
Lê então o que quiseres
neste poema que é teu!

Eu só quero que me leias,
poeta que eu sempre li…
Que me absorvas sem peias
até ser sangue de ti
como a obra é do autor…

E que ponhas tanto amor
no poema que teceste,
que ele germine e alcance
a grandeza do romance
que ainda não escreveste!


Carmo Vasconcelos

 

URGÊNCIA
Carmo Vasconcelos


Eu quero as tuas mãos incendiadas,
tua língua me queimando à descoberta,
teu corpo me implorando alvoradas,
tua alma só para mim, nua e deserta!

Eu quero os teus cabelos alagados
do suor que escorrendo me procura,
teus nervos me esperando retesados,
teu sangue fervilhando de loucura!

Eu quero a tua pele a mim colada,
teus dedos me tangendo sem compasso,
teus beijos me varrendo de nortada,
teus músculos me enlaçando feitos aço!

Eu quero ser a força que te anima,
o teu delírio, a tua inspiração,
tua ânsia, tua prosa, tua rima,
eu quero ser a tua obsessão!


Carmo Vasconcelos
In X Antologia Poética da Associação Portuguesa de Poetas Ano 2002

 

 

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