Carmo Vasconcelos

Nu com Cortinado

 Bernhard Gutmann

"Despida de Segredos"

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RUMO À INCERTEZA
Carmo Vasconcelos


Tu és a minha aventura
aonde rumo insegura
caminhando sobre brasas...
Não sei se és anjo ou carne,
se me angelize ou se encarne,
se vá com pés ou com asas.

Angustiante incerteza!
Não sei se és cama ou mesa,
se és corpo inteiro ou só mão...
Se és paraíso ou inferno,
ou se em ambos me interno,
perdida sem remissão.

Só sei que és minha aventura,
meu oásis de ternura
num deserto de castigo...
Sobre nuvens ou calhaus,
rumando aos céus ou ao caos,
só sei que nela prossigo!


Carmo Vasconcelos

 

SE ESTOU FELIZ?...
Carmo Vasconcelos


Quem o pode dizer
na certeza do que diz?
Talvez, um petiz...

Quem o pode escrever
na lisura da pena?
Talvez, uma alma pequena…

Quem o pode afirmar
de imagem plena?
Talvez, uma virgem serena…

Quem o pode arvorar
fiel à matriz?
Talvez, uma actriz...


Carmo Vasconcelos

 

SEJAM MEUS VERSOS…
Carmo Vasconcelos


Se tudo o que te dei não conseguiu prender-te…
Nem meus olhos, duas fontes de desejo,
nem meu corpo, trémulo e fremente,
nem meus lábios te queimando no meu beijo…
Nem a oferenda sagrada dos meus seios,
nem meus braços te envolvendo qual serpente,
nem meus dedos saciando teus anseios,
nem meus ais te envolvendo em tom gemente...

Se tudo o que te dei não impediu perder-te…
Sejam meus versos mais do que eu capazes
de te espantar, valentes e audazes,
com a nudez d’alma deste meu querer-te…
Sejam meus versos velozes mensageiros
a despertar em ti devaneios adormecidos,
como brisa fresca em arrepios ligeiros
a refrescar-te a memória e os sentidos...

Sejam meus versos gritos d’ alma em pedaços,
fragmentos de um amor feito em estilhaços,
a acordar tua paixão já morta…
Vou pedir ao vento que os deixe à tua porta,
implorar à chuva que os derrame na soleira,
e ao sol ardente que num raio divino,
suavemente os leve à tua cabeceira
como um sonho nos braços de um menino.

Sejam meus versos loucos a mostrar-te
o que perdeste ou eu não soube dar-te…
Seja a minha pena em noites de viagem
a dizer-te como quero de novo ter-te
e a levar-te, talvez, nova coragem…
De volta a este amor que já esqueceste,
sejam meus versos capazes de trazer-te,
sejam meus versos… capazes de lembrar-te!


Carmo Vasconcelos

 

SOMBRAS
Carmo Vasconcelos


Somos sombras, tu e eu,
de dois seres já bem distantes,
mas nestas sombras errantes
inda há luz que se escondeu.

Não seja a sombra tristeza
que escureça a nossa mente,
árvore é sombra igualmente
e há nela tanta beleza.

E o sol quando cansado,
ensombra aqui e além,
mas no mundo há sempre alguém
que é por ele iluminado.

E quando o estio é ardente
e o vento quente fustiga,
é à sombra que se abriga
o caminheiro ao poente.

E como ele... cansada,
é na sombra que se aninha
esta sombra que é a minha
à tua sombra encostada.


Carmo Vasconcelos

 

SONHO AFRICANO
Carmo Vasconcelos


Tingi-me toda de azul,
a tua cor preferida,
e liberta de cansaços,
cabelos soltos ao vento,
leve como um véu de tule
ou pena de ave perdida,
voei no espaço e no tempo.

Perfumada de esperanças,
flores exóticas tatuei
pelo rosto, pelos braços,
e no corpo desenhei
a paisagem africana,
palco de nossas lembranças
e onde cruzámos os passos.

Pus na boca o gosto doce
duma fruta tropical,
e louca por ti chamei
com um grito animal,
como se uma fera fosse
caçando célere e insana
parceiro em cio outonal.

Noctívaga rendilheira
de um amor de filigrana,
fui do sonho a passageira
sem bilhete e sem fronteira,
transpondo a realidade
para aliviar a canseira
que me dá esta saudade.

Saudade… Tanta de ti
que eu encontrei nesse chão,
desse amor, dessa paixão
que deixei quando parti…
E o meu apelo foi tal
que te encontrei tão real
nesse meu sonho sem hora.

E tudo foi como dantes…
Sedução e embaraços,
beijos quentes, hesitantes,
mãos trementes nos abraços.
Sem mentira, sem engano,
foi a verdade de outrora
meu doce sonho africano!


Carmo Vasconcelos

 

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