Carmo Vasconcelos

Nu no Campo

Joseph Tomanek. -1920

"Despida de Segredos"

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PARA QUÊ?...
Carmo vasconcelos


Para quê ir à fonte e não matar a sede,
para quê ir ao mar e não encher a rede,
para quê passar a ponte e achar uma parede,
para quê estrelas olhar sem poder agarrá-las,
para quê luas sonhar sem poder alcançá-las?...

Para quê?... Para quê?...
Mais vale não te ver, estrelas não olhar,
mais vale te esquecer, luas não sonhar,
melhor não ir à fonte, na sede me quedar,
melhor quebrar a ponte, ficar olhando o mar!


Carmo Vasconcelos

 

PENAS...
Carmo Vasconcelos


Tu e eu, dois passarinhos
zelando pelos seus ninhos
sem podermos juntar penas...

Penas tuas, penas minhas,
penas grandes e pequenas…

Dores, alegrias e mágoas
vão-se afogando sozinhas
cada uma em suas águas...


Carmo Vasconcelos

 

PREMONIÇÃO
Carmo Vasconcelos


Guardo na boca
a Primavera anunciada
dos teus beijos…


Carmo Vasconcelos

 

QUANDO ME DEIXASTE, AMOR...
Carmo Vasconcelos


Quando me deixaste, amor...

O mundo não se moveu…
Na terra… nenhum tremor,
e nem o céu escureceu…
Não houve raiva nem choro,
nem naufragar de tesouro,
nem estrela perdendo o Norte!
A onda à praia voltou
com o mesmo rugido forte
e o Sol não se apagou.

Quando me deixaste, amor...

Não houve guerra nem bombas,
nem fogo cruzando o ar,
nem rosa perdendo a cor…
Não houve folhas caídas,
nem aves tombaram feridas,
nem se ouviu grito de dor!
Continuou verde o mar,
branca a espuma das ondas,
e ainda arrulham as pombas
acasalando ao luar!

Quando me deixaste, amor...

Não sabias quem sou eu!
Eu sou a poeta louca
que uma musa ensandeceu
com seu halo inspirador…
Que canta hinos à vida
porque à dor já se fez mouca,
e pra quem tua partida,
sem beijo nem despedida,
não passou de coisa pouca...
Simplesmente aconteceu!


Carmo Vasconcelos

 

REBENTANDO AS GRADES
Carmo Vasconcelos


Há um tempo
de gaiolas... de prisão,
de sonhos a hibernar
nas teias da escuridão.

Há um tempo
de o amor aprisionar,
de versos a macerar
em noites de solidão.

Há um tempo
de nas voltas da maré,
soltar um grito de fé,
tornar real a ilusão.

Há um tempo
no reverso do sol-posto,
de fazer o Sol brilhar
pôr arco-íris no rosto.

Há um tempo
de o Inverno sepultar,
engaiolar o desgosto
e de Verão se embriagar.

Há um tempo
dos frios da alma esquecer,
desdobrar o coração
e de amor se derreter.

Há um tempo
de o tempo enganar,
relógios abandonar,
guiar-se pelo coração.

Há um tempo
de gaiolas rebentar,
gritar não à escravidão,
abrir asas e voar!


Carmo Vasconcelos

 

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