Carmo Vasconcelos

Nu Reclinado

Francois Boucher

"Despida de Segredos"

pág. 6 de 9  págs

NAS LETRAS CANTADAS
Carmo Vasconcelos


Sei lá quantas vezes
choramos os medos,
escondemos segredos,
moemos revezes,
quietas, caladas...

E é nas madrugadas
que as ondas de mágoas
revoltas, guardadas,
deitamos nas águas
das letras cantadas.


Carmo Vasconcelos

 

NOCTURNO
Carmo Vasconcelos


Entre o despontar de estrelas
e a alternância das marés,
o poema-mel…

Águas belas
que Deus põe a meus pés
e lavam meu batel!


Carmo Vasconcelos

 

NUVEM
Carmo Vasconcelos


Evaporei em nuvem
e encontrei-te…
Asa de cor
numa nesga de céu promissor.

Condensei em chuva
e perdi-te…
Asa eleita
na mortalha das pedras desfeita.


Carmo Vasconcelos

 

O GRITO
Carmo Vasconcelos


O meu silêncio é um grito,
sufocado e aflito,
que uiva encerrado em mim...

Lobo esfaimado e amante
que me implora suplicante
que o deixe gritar por fim.

Mas é um lobo inocente
que quer amar feito gente
delicado e subtil...

Melhor que cale o seu grito,
sufocado e aflito,
que emudeça em seu covil!


Carmo Vasconcelos

 

O QUE QUERO... E O QUE NÃO!
Carmo Vasconcelos


Não quero um amor constante,
quero instante e paixão!

Um instinto animal
na entrega ocasional
que anseia por união.
União não programada
por isso mais desejada,
ansiada por não tida,
proibida, censurada,
vestida cor de emoção,
de preconceito despida.

Quero esse tremer de mão,
esse sussurro ofegante,
esse desejo vibrante
pendente de aquietação.
O pensamento ardente
ansiando teu corpo quente
se entregando quase a medo
perdido em meu enredo
qual Julieta e Romeu.

Tudo volúpia e segredo,
romance ainda não lido,
verso ainda não rimado,
calvário não percorrido,
teu desejo extenuado
dentro em meu corpo vertido.
E nesse suor escorrido,
pegajoso e molhado,
correr meu corpo pelo teu.

Quero chamar-te "querido"
em meu urgente chamado,
por não ter-te sempre ao lado
como um móvel esquecido.
Poder dizer "meu amor"
sussurrando ao teu ouvido,
jamais ver-te arrefecido
por ser eu disco riscado
ou lareira sem calor.

Quero este corpo que arde
pelo meu vício impune,
enraivecer de ciúme
se não chegas ou vens tarde
para meus lábios beijar
com o teu beijo de lume.
Quero expiar meu castigo
na ânsia de estar contigo,
ao ter de por ti esperar.

Quero esse teu corpo-chão,
alma-céu em poesia,
macieza de colchão,
doce cheiro a maresia.
Que importa a cama vazia
se nela ficas latente
na lembrança que não esquece,
na memória viva e quente,
no desejo que me aquece.

Não quero rotas nem metas,
quero esse amor vadio
chorado pelos fadistas,
pintado pelos artistas,
cantado pelos poetas.
Trazendo brilho de estrelas
entrando pelas janelas,
vaticínio de profetas,
acalento e arrepio.

Não quero regras nem leis,
amor firmado em papéis
em rabiscos abstractos
na frieza dos contratos.
Mas ler nesse amor um hino
que gritando o verbo amar,
faça explodir, rebentar,
numa ansiedade cantante,
o meu louco coração!

Não quero um amor constante,
quero instante e paixão!

Carmo Vasconcelos
In Antologia “Terra Lusíada” – ed. Abrali- Julho 2005

 

Livro de Visitas

 

PARA PÁG. SEGUINTE