Carmo Vasconcelos

Nu Reclinado na Relva

1890 Pierre Auguste  Renoir

"Despida de Segredos"

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MIGALHAS
Carmo Vasconcelos


Queques, bolos e bolachas,
pão de ló, milho, carcaças,
esfanicados em migalhas,
dão-se aos pombos no Rossio.

Eles gostam… Mas eu não!…

Corações, mimos, afectos,
beijos e abraços dilectos,
esfanicados em migalhas,
doam-se aos tolos sem brio.

Eles gostam… Mas eu não!…

Queques, bolos e bolachas,
Corações, mimos, afectos,
pão de ló, milho, carcaças,
beijos e abraços dilectos,
esfanicados em migalhas…

A mim… Não sabem a pão!


Carmo Vasconcelos

 

MINHA POESIA
Carmo Vasconcelos


És a filha que trago na barriga
gerada nem eu sei há quantos anos,
oculta neste ventre que te abriga,
sustida plo cordão dos desenganos.

Semente, grão em mim inseminado,
óvulo fecundado em letargia,
morosa gravidez, parto adiado,
que lentamente dou à luz do dia.

Me alegra que tu vás nascendo aos poucos
com gritos de triunfo em cada dia,
com risos, choros, ou gemidos roucos,
sejam de espanto, dor ou alegria.

Acorda-me do sono que dormi,
liberta-me do sonho-pesadelo,
bebe-me o seio e cantarei pra ti
o que guardei de mais sublime e belo!

Meu bem, meu tesouro, meu unguento,
minha fonte, meu pão, minha utopia,
meu vinho, lenitivo e esquecimento,
meu alento e estrela que me guia!

Carmo Vasconcelos
In Antologia do Cenáculo Literário Marquesa de Valverde/2002.
Veja o vídeo no You Tube (oferta da Poetisa Maria Cristina Garay Andrade)
http://www.youtube.com/watch?v=dr8RoeoLr44

 

MORTE POÉTICA
Carmo Vasconcelos


Vou afogar-te em poemas,
sufocar-te nos esquemas
das vagas do sentimento…
Vou fazer-te esbracejar
até quereres te salvar
do mar do meu pensamento.

E quando já fraco o grito
do teu coração aflito
implorar o meu socorro…
Nas ondas dos meus dilemas,
volto a afogar-te em poemas,
e junta contigo morro!

Carmo Vasconcelos
In 1ª Antologia do Grupo Ecos da Poesia “O Futuro Feito Presente"” – Abril 2005

 

NÃO QUERO MAIS…
Carmo Vasconcelos


Não quero mais ter de olhar
sob o véu da indiferença
a tua exposta traição
nem meu amor enganado...

Não quero mais adornar
de sorrisos mascarados
tua sombra quando passa
nem minha raiva contida...

Não quero mais adoçar
com gestos de circunstância
tua cobarde mentira
nem minha mágoa calada...

Pejarei as minhas ruas
de poetas e artistas
que esmagarão a seus pés
tua imagem… Deus de barro!

E em grandes altifalantes
um samba bem ritmado
calará de vez em mim
tua cantiga… Meu fado!


Carmo Vasconcelos

 

NÃO RECORDES…
Carmo Vasconcelos


Não recordes quem eu era
que essa outra de mim se foi…
Ama esta que assim te espera
que sendo a mesma afinal
hoje se fez desigual
p'lo quanto o tempo destrói.

Beija os meus olhos pisados
sem brilho de tão lavados
pelas lágrimas choradas…
Beija os meus lábios vincados
que guardam gritos calados
pelas queixas não gritadas.

Abraça o meu corpo lasso
deformado p'lo cansaço
de tantas lutas travadas…
E esquece essa que não volta,
que o tempo, cavalo à solta,
n' era remota a deixou.

Olha, amor, dentro de mim,
vê como tanta desdita
me fez muito mais bonita…
Não recordes quem eu era,
qu'esta minha alma o que espera
é que ames esta que eu sou!


Carmo Vasconcelos

 

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