Carmo Vasconcelos

Nu Deitado Numa "Chaise-Longue"

Gustave Henri Eugene Delhumeau

"Despida de Segredos"

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DESTAS MÃOS DESERTAS
Carmo Vasconcelos


Destas mãos desertas
transpiram cansaços
de noites despertas
por rotas incertas
vazias de abraços.

Destas mãos sozinhas
as linhas cruzadas
gemem ladainhas
quais cantarinhas
de asas quebradas.

São linhas e linhas
na pele gravadas
veredas velhinhas
ruas estreitinhas
cruzes acartadas.

Tua mão aguarela
nas minhas pintou
mais uma ruela
mais uma viela
que o tempo fechou.

E quando moinhas
saudosas me acodem
dessa mão nas minhas
minhas mãos sozinhas
logo para ti fogem.

Carpindo lamentos
paixões deslaçadas
desse e doutros tempos
sepultam momentos
nas linhas traçadas!


Carmo Vasconcelos

 

DISPERSÃO
Carmo Vasconcelos


Sou lança de muitas pontas
adaga de muitos gumes
fogueira de muitos lumes
rosário de muitas contas


Carmo Vasconcelos

 

É TARDE PARA NÓS...
Carmo Vasconcelos


Como rejubilei ao de novo te encontrar!
Pensei, agora sim, estou livre, vou te amar
sem travões, te pagar o que te devo...
E tu… amando o meu louco voltar
te deixaste nos meus beijos te enlear
nem lembrando que hoje estavas preso.

Fui estúpida e culpada, bem o sei,
quando por orgulho e vaidade te deixei,
e outra nos braços te levou...
É tarde, amor, é tarde agora!
que o caprichoso tempo marca a hora
para amar ou não amar quem nos amou.

Mereço por demais a tua ausência,
pois a mim, amor, já não pertences
e dividir-te com outra é carência...
A ter de ti metade não convences,
que iludir-me sempre foi tua tendência…
Perdeste-me, perdi-te... Paciência!

É tarde para nós, não para o amor!
Que esse menino é traquina e sempre jovem,
andorinha que regressa sem temor...
Se não posso ter inteiro o teu calor
grito às minhas veias que ainda podem
a outro amar com todo o meu ardor!


Carmo Vasconcelos

 

ENCONTRO
Carmo Vasconcelos


Tu eras a minha espera
sem o saber, sequer eu…
O momento arquitectado
algures numa outra esfera,
o encontro planeado
por sábios Mestres no céu.

Tocando minha alma fria
surgiste e deste-me a mão,
me adivinhaste perdida…
Alma-gémea em sintonia,
amor de uma outra vida
ou anjo aparição?…

Disfarçado de momento
vestiste o meu pensamento
despiste-me o coração…
Intuindo a minha espera
fizeste-te primavera
e refloriste o meu chão!


Carmo Vasconcelos

 

ERUPÇÃO
Carmo Vasconcelos



Teus olhos dois lagos calmos
parecendo entoar salmos
aos céus azuis seus iguais…
Serenos e repousantes
escondem lavas borbulhantes
querendo evadir-se em caudais.

Que a terra em revolução
deixe irromper o vulcão
que queima as tuas entranhas…
E que enrubesçam os lagos
ante fusões tão estranhas
como água e fogo entre afagos!


Carmo Vasconcelos

 

Livro de Visitas

 

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