Carmo Vasconcelos

Mulher com um papagaio

1865 Jean-Désiré Gustave Courbet

"Despida de Segredos"

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A ROSA
Carmo Vasconcelos


Deste-me hoje uma rosa
rubra, quente e cheirosa…
Jovem botão para abrir,
um odor para definir,
segredos pra desfolhar.

Poisou nela o meu olhar
lembrou-me a cor da paixão…
E num gesto incontido
não pesado nem medido,
voou para ti minha mão.

Logo a rosa esqueci
e a sua verde folhagem,
pois mais verde era a imagem
da esperança vinda de ti
em tua quente mensagem.

Agora sem ti por perto
a tua rosa dengosa
dormindo em mansas águas,
é um oásis no deserto
deste meu antro de mágoas.

Vejo nela tentações
de abraçar o verbo amar,
pois tua rosa cheirosa
é o teu rosto a chamar
minhas novas ilusões.

Vou ofertar-te um jardim
enfeitado de açucenas
e de verdes sem ter fim,
para enterrares tuas penas,
penas de ti e de mim!


Carmo Vasconcelos

 

ALMA SALGADA
Carmo Vasconcelos



As lágrimas que em meu rosto
se derramaram em águas
nesse pranto sem igual...
Não lavaram meu desgosto
nem calaram minhas mágoas...
Abriram sulcos de sal!

Misto de raivas e fugas,
essas lágrimas de então
só cavaram minhas rugas...
Nenhuma delas tem nome!
São como trilhas da fome
como se amor fosse pão.

Como se a pele retraída
de esperar amor em vão,
fosse essa fome engolida
deixando-me a alma salgada
e o corpo terra cansada
que não deseja mais grão!

Mas esta terra cansada
não quer ser terra queimada
e apenas chão se tornar...
Sempre vai estender a mão
não pra pedir, mas pra dar
Amor… como sendo pão!

Carmo Vasconcelos
(In Antologia Poética da Associação Portuguesa de Poetas Ano 1996)

 

 

AMORES VÊM E VÃO
Carmo Vasconcelos


Os amores vêm e vão!

Às vezes são só momentos
dum olvidar de tormentos,
angústias de coração...

São brasas reacendidas
ante carícias esquecidas,
desejos em solidão...

Mas se são puros e certos,
de sentimento repletos,
para sempre ficarão!


Carmo Vasconcelos

 

ASA NEGRA
Carmo Vasconcelos


Vai-te, asa impura e negra de vinganças,
que por pecados meus, inda castigas,
e sem piedade alguma assim me obrigas
a viver só, e apenas de lembranças.

Por que esvaziaste, algoz, a minha taça,
deixando-me hoje aqui morta de sede?
Por que emoção qualquer não me concede
essa asa tua, tão negra, que me enlaça?

Só por beber demais a juventude,
tragada vorazmente e sem rigor
quando me embebedei do seu licor,
agora me condenas à quietude?

Vai-te, asa dura e negra do castigo!
Já que o tudo que, avara, hoje me ofertas
não passa de emoções vagas e incertas.
Deixa que eu sofra a sós... a sós comigo!

Cessa este meu tormento, que é tua glória,
me esquece ou leva-me ao final, contigo,
porque é bastante já teu vil castigo
de eu ser sombra de mim e só memória!


Carmo Vasconcelos

 

DESASSOSSEGO
Carmo Vasconcelos


És do meu sossego
o desacato,
a minha Primavera
não florida,
minha vigília
na noite mal dormida,
meu fracasso
no derradeiro acto.

És do meu pomar
a árvore estéril,
do meu solo
a madre infecunda,
do fruto abortado
a dor profunda,
do meu sonho gorado
o acordar febril.

És o não te ter
estando contigo,
a onda que me cerca
e logo foge,
memória de um passado
que ainda hoje,
é renúncia, desistência
e meu castigo!


Carmo Vasconcelos

 

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