"FÉNIX"

ETERNIZANDO O EFÉMERO

POESIA  CLÁSSICA

 

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TROVAS DA NOITE
Carmo Vasconcelos


A cabeça rodopia,
Os pés deslizam no chão,
Alça voo meu coração,
E dançamos na estesia!

Só tu mais eu lá no cimo,
O mundo desvaneceu,
Sozinhos somos no céu
Dos teus beijos que vindimo!

Sabe-me a néctar e a mosto
Essa tua boca molhada,
Sou tua fruta desejada,
E tu o vinho que mais gosto!

E quando as luzes se apagam,
Já fechadas as janelas,
No escuro vemos estrelas,
E nossos corpos se afagam!

Dás-me teu trevo do amor,
Rei das flores mais bonitas,
E o meu desejo me excitas,
Cantando um fado menor!

E mais um copo bebemos,
De corpos suados em rima,
Mãos abaixo, mãos acima,
Nessa dança nos perdemos!

Fecha o bar o taberneiro,
Só nós e as pedras da rua,
Em versos miamos à lua,
Como gatos em Janeiro!

E só quando o Sol curioso
Chega a espreitar nosso enlevo,
Vamos desfolhar o trevo
No nosso ninho amoroso!

Depois, aconchegadinhos,
Nosso desejo extenuado,
Virados pró mesmo lado,
Dormimos feitos anjinhos!


Carmo Vasconcelos
Janeiro/2008

VAI, MINHA PENA!
Carmo Vasconcelos


Aqui, em pensamentos solitários,
Por fios ligada ao mundo que me envolve,
Ouço os ais e queixumes, vãos e vários,
E em dores minha pena se revolve.

Seus sofrimentos trazem-me à lembrança
Outras penas por mim atrás penadas,
Logo, da pena exigo uma aliança
Para contar ao mundo as não contadas.

Mas se em tristeza a pego, ela se nega,
Pois outras almas não quer imiscuir
Na dor que me atormenta e me faz cega,
Levando aos meus iguais triste sentir.

Então, a minha pena a pena afasta,
E à doída inspiração se faz escusa,
Que em desabafos negros, só se agasta,
E a ser pena de mágoas se recusa!

Só quando me pressente ébria de amor,
Aos meus dedos se apressa a se ajustar,
E em frenesim se faz meu lavrador,
Para versos de paz então semear.

Porque poeta sou, e ela o sabe,
Não me consente a pena mais penar.
Sarar penas… missão que ao Poeta cabe!
- Vai, minha pena! A Outras consolar!


Carmo Vasconcelos
16/03/2008

VENTO SUDESTE
(Décimas)
Carmo Vasconcelos


Enquanto em seus murmúrios canta a noite,
e, impudica, a lua despe prós amantes
seus ternos raios de luz, acariciantes,
fustiga-me a tua ausência como açoite.
Não há lua nem estrela que me acoite
esta dor da saudade inextinguível,
este insano querer-te, irreprimível;
e espero, em desespero tresloucado,
do vento do sudeste algum recado
perdido na distância inatingível.

Mas o vento que sopra vem do Norte,
dessas paragens, surdas à tua voz,
e assim, o vento oposto deixa a sós
quem triste desespera nesta sorte.
E nessa angústia negra, cor da morte,
sabendo desse amor inacessível,
mas entregue à paixão irrestringível,
ainda peço, num pranto derramado,
do vento do sudeste algum recado,
perdido na distância inatingível.

Sons débeis que me alcançam, chegam vagos,
ambíguos - que me iludem, promissores;
são versos encantando mil amores,
mas que minh'alma toma por afagos.
Do cacho que desejo, escassos bagos,
vinho breve pra sede inexaurível!
Mas... pese, embora, o longe intransponível,
recorro a Deus pra não me ser negado
do vento do sudeste algum recado
perdido na distância inatingível.


Carmo Vasconcelos
20/Fevº/2011

VERSOS INTEMPORAIS
Carmo Vasconcelos

 

Teus versos são perfume de alfazema
cruzando mar e céu, pelo infinito,
e todos superando o já descrito
tal como numa joia a genuína gema.

Falam da vida humana e, assim, da extrema
ventura ou desventura do prescrito
no destino que oculta-se interdito
e é justa lei da mão de Deus, suprema.

Teus versos são de lágrimas e risos,
de sentimentos vários, mas concisos,
de quem domina a pena e as emoções.

E na mente curiosa que os relê
nasce um facho de luz, um não sei quê,
que os faz intemporais aos corações.


Carmo Vasconcelos
Lisboa/Portugal
25/Ago/2013

VOZES DO MAL
Carmo Vasconcelos


Que lava é esta que nos entra pela portada?
Deuses pagãos que uivam cegos de razões
Odiosos ventos, chuva negra, saraivada
Cuspindo lama plas paredes e portões...

Nauseabundos répteis invadem-nos janelas
Jorrando baba imunda n’alvura dos tectos
E até as corujas no horrendo piar delas
Ousam poluir nossos recantos predilectos

Calai, deuses caídos, vossas pragas d’algoz!
Temei a lei de Deus e seu poder indómito
Ou estarão perdidos, rasgada a própria voz
Língua enrodilhada no lamaçal do vómito

Cessem o frenesim corujas agoirentas!
Não vos basta o luto nas penas de castigo?
Não sabem que ao piar vossas queixas nojentas
Perturbam a paz dos nossos céus índigo?

Seres rastejantes, aquietem-se do salto!
Esqueçam o gesto das alturas macular
Deixem voar quem pode... e sabe voar alto
Que é vossa condição pra sempre rastejar


Carmo Vasconcelos
Maio/2009

 

 

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