"FÉNIX"

ETERNIZANDO O EFÉMERO

POESIA  CLÁSSICA

 

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POETA, PÁSSARO, MENINO
(Homenagem ao Poeta Ary dos Santos)
Carmo Vasconcelos


A memória não se lava
Do poeta da ousadia
Que a tristeza mascarava
Em versos de rebeldia

Era um cavalo à solta
A palavra que brotava
Duma latente revolta
Pelas mágoas que guardava

Chamas no sangue lhe ardiam
Fogo rubro amargurado
E suas trovas gemiam
Lamentos de dor e fado

Pesada genialidade
Numas asas de voar
Levou-o a eternidade
Para as dores lhe sepultar

Misto de mel e amargura
Poeta, pássaro, menino
É sua pena-bravura
Saudade em nosso destino


Carmo Vasconcelos
18/Janº/2009

PONTOS DE VIDA
Carmo Vasconcelos


Toda a ventura começou numa corrida
Desse audaz gâmeta maduro e lutador,
Para alcançar o justo prémio, e ganhador
Penetrar o óvulo e com ele gerar vida.

Depois, crescer nesse cadinho almofadado,
Leito ondulante, protector e divinal,
Até chegar à rosa aberta do portal
Que há-de ejectá-lo como ser vivo encarnado.

Flor que entontece, fascinante porque agrega
Preciosos dons: o do prazer, e o da realeza
De à luz nos dar, e acrescentar à natureza
A humanidade que a completa e que a navega.

Seus dois botões, erectos, são franca promessa
De fontes pródigas de gozo, mas também,
Do leite puro e maternal que em si contém
O primordial sustento à vida que começa.

Pontos que excitam a tua libido sensória
Porque te levam aos primórdios da memória!


Carmo Vasconcelos
27/Outubro/2010

RUGAS
Carmo Vasconcelos


Em cada ruga houve um caminho percorrido,
Em cada estria outra jornada sem avesso,
Marcas de um tempo irreversível e pregresso,
Fundos sinais de antigo carma já vencido.

Todas afago sem revolta e sem lamentos,
E bendizendo-as me desdobro em oração,
De alma ora leve e apaziguado coração,
Grata e liberta de penhores e tormentos.

Esculturais sulcos divinos a lembrar
Que o purgatório tem morada permanente
Aqui na Terra onde se saldam fatalmente
Dívidas cármicas deixadas por pagar.

Outrora filhas de actos vãos, irreflectidos,
As minhas rugas, mais que contas liquidadas,
São no presente as mães de luz, purificadas,
Destes meus versos, de pecado redimidos.


Carmo Vasconcelos
1/Fevº/2010

SE EU MORRESSE AMANHÃ...
Carmo Vasconcelos


Se eu morresse amanhã, não queira Deus...
Minha alma penaria à toa, sem cessar,
Por não ter, derradeiro, o meu olhar
Pousado no fulgor dos olhos teus.

Se eu morresse amanhã, por curta sina,
Mudo o meu coração no amor que cala,
Para sempre ouvirias minha fala
A cada som ou passo, a cada esquina.

Se eu morresse amanhã, sem tua poesia,
Minha alma à tua quedava aprisionada,
Sem luz para encontrar nova morada,
Perdido o golpe d'asa em agonia.

Se eu morresse amanhã, não queira Deus...
Num raio de sol ou lua, perceberias
Roçar-te o rosto, em ternas estesias,
Meu beijo de partida, em triste adeus!


Carmo Vasconcelos
Novº/2008

SEMÁFORO DO AMOR
Carmo Vasconcelos


Na rota ambígua do amor,
És pisca-pisca, vaivém,
Semáforo tricolor,
Que ora impele ora detém.

Foco verde iluminado,
Dás passagem, campo aberto,
És caminho autorizado
Ao rumar do sonho certo.

Devagar, empalideces,
Amarelado, te impões,
E marcha lenta ofereces
A iludidos corações.

E breve, o vermelho hasteias,
E a fila deixas parada,
Ensimesmada nas teias
Dessa mente emaranhada.

Nessas sedutoras lides,
Semáforo em mutações,
Na vida não te decides,
Camaleão de emoções!


Carmo Vasconcelos
Maio/20/ 2011

 

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