"FÉNIX"

ETERNIZANDO O EFÉMERO

POESIA  CLÁSSICA

 

pág. 8 de 12 págs

 
 

Pescador da barca bela/Onde vais pescar com ela/Que é tão bela, /Oh pescador?
Não vês que a última estrela/No céu nublado se vela?/Colhe a vela /Oh pescador!
Deita o lanço com cautela/Que a sereia canta bela...
Mas cautela /Oh pescador!/Não se enrede a rede nela...


"Barca Bela" (Almeida Garrett)




MEU AMOR É PESCADOR
CANTO I E CANTO II
Carmo Vasconcelos



CANTO I


Meu amor é pescador!
Pesca da alma lamentos,
Limos de mágoa e de dor,
Em rede de sofrimentos.

Tombam-lhe perlas de prantos,
Do seu olhar marejado,
Ao relembrar desencantos
Dum mar dantes navegado.

Virgem da Boa-Viagem!
Rasga-lhe a rede-tormentos
E ata-lhe engodo-coragem
Na linha dos pensamentos!

Dá-lhe rede de estesia,
Pra içar do imo o tesouro;
Essa arca da alegria
Que jaz em areias de ouro!

Que ele volte a olhar o mar
Sem sal que na f 'rida doa...
Tendo embevecido o olhar
Numa gaivota que voa!

Meu amor é pescador!
Que venha a ele a viragem,
Que afunde mágoas e dor,
Virgem da Boa-Viagem!



CANTO II


Foi ao mar o meu amor!
E o temporal o turvou...
Onde era um céu viu terror
E, temeroso, atracou.

Onde era azul viu negrume,
E o verde se acinzentou...
Foi como maré de lume
Que a onda branca queimou!

Na sua alucinação,
Viu-se amarrado na teia
Das vozes do coração
Duma amorosa sereia.

Assustou-se, teve medo
Dessa tágide o prender...
E dessa visão de enredo,
Fugiu ao amanhecer.

Não tinha rede a sereia,
Nem anel de cativeiro
Que a navegantes enleia
E apavora um marinheiro.

Cala a sereia seu canto,
Silenciando a doçura...
E de sal se fez o pranto,
Petrificada amargura!

Quebrou-se o encantamento!
Ficou livre o pescador,
Desse pesado tormento
Que era só canto de amor!

Carmo Vasconcelos

MINHA SAUDADE
Carmo Vasconcelos


Minha saudade vibra e tem um nome,
nome de alguém que outrora foi calor,
e hoje queima a saudade desse amor
que em tempos lhe matou a sede e a fome

Era pequeno pão, mas de alimento,
doce sabor nas ínfimas migalhas…
Tinha o aroma inebriante das fornalhas
onde os amantes ardem em tormento.

Mesmo que débil riacho para a sede,
eram tão refrescantes as suas águas,
que nelas se afogavam as mil mágoas
do amor que a vida a mim mal me concede.

Ora minha saudade é esquecimento,
e abafa fome e sede em temperança,
ora é gume ferino como lança
que não mata mas mói no desalento.

Se há momentos que explode em desvario,
outros há que ao dormir logo se acalma,
porque em sonhos revê esse amor d’alma…
Mas sempre acorda imersa no vazio!


Carmo Vasconcelos
26/Maio/08

(
1º Prémio no Concurso Internacional "Doralice Silva"
do Grupo de Poetas Livres (GPL) Novº/2012)

NÃO ME PEÇAS VERSOS
Carmo Vasconcelos


Não me peças versos d'amor à humanidade
Não agora... enquanto a transbordar de ti
Seriam falsas loas nesta ambiguidade
Em que já duvido se vivo ou se morri

Tomaste-me o espaço das mais nobres ideias
Poeta não me chames que o nome não mereço
Todo o verso me surge enrodilhado em teias
É noite, é dia?... Será que ainda permaneço?

Sombra sou de mim – egocêntrica, egoísta
Desdenho e não me importa mais o bem alheio
O meu olhar turvo somente o teu avista
Entre eu e a esfera-mundo só tu de permeio

Das cantadas d’amor que chegam não me agrado
E adulatórios mimos, ingrata, rejeito
Neste semi-viver de luto malfadado
Véu de viúva dum amor vivo no meu peito

Não me peças versos... Das musas quero flores
Para adornar o vão do santo em meu altar
Que se quebrou e me deixou em negras dores
Findo o consolo de aos seus pés m’ajoelhar


Carmo Vasconcelos
25/Julho/ 2008

NOSTALGIAS
Carmo Vasconcelos


Nos galhos verdes pulam os pardais,
e nos rebentos bicam avezinhas,
voltam a casa os gestos paternais,
soltam-se aromas doces das cozinhas.

Repicam sinos as Avé-Marias,
regressam alvas pombas ao pombal,
ouvem-se rezas, carpem nostalgias,
rolam os terços, abre-se o missal.

Já vai o sol deitar-se com a lua,
oscular d’ oiro a sua concha prateada,
hora de anseios e sede de ser tua,
ser como a lua, de beijos inundada.

É noite, é dia?... Pra mim tanto me faz,
já que ao meu leito não vêm mimos teus,
trazer ao nosso amor tempo de paz,
tréguas à luta dos desejos meus.

Não há pra nós, perdidos mendicantes,
a esmola que nos dê como viver
esse êxtase supremo dos amantes
que explodem cios, nas chamas do prazer.


Carmo Vasconcelos
17/Setº/2012

NOVAS DANÇAS
Carmo Vasconcelos


Ai, que sufoco! Me libertem destas eras!
Não quero mais: pianos, sonatas, sinfonias!
Venham modernos sons, das límpidas esferas,
Novos encantos em repostas sinergias!

Cansei da valsa, do violino e do minuete!
Quero rodar o samba, a salsa ou o “fox-trote”,
Descartar a cingida e pesada toalete,
Fora as pudicas rendas e ancas no saiote!

Fartei de luxos, amplos leques e desmaios,
Da adulação da corte e bobos menestréis,
Vista a miséria nas mansardas dos lacaios,
Enquanto os nobres esbanjavam nos bordéis!

Longe de mim, perucas, laços e espartilhos,
Falsa moral, ostentação e mesquinhez...
Que se renove o velho mundo em sons e brilhos,
E em novas danças de igualdade e sensatez!


Carmo Vasconcelos
29/Maio/2009

 

Livro de Visitas

 

PARA PÁG. SEGUINTE