"FÉNIX"

ETERNIZANDO O EFÉMERO

POESIA  CLÁSSICA

 

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ETERNIZANDO O EFÉMERO
Carmo Vasconcelos


Num poema se entrelaçam as palavras,
Palavras evoladas de momentos;
Momentos de incrustados sentimentos,
Sentimentos cavados como em lavras!

Num poema se misturam terra e flor,
Flor que há-de perpetuar a natureza;
Natureza sublime na beleza,
Beleza divinal do Deus Criador!

Num poema se ironiza gozo e riso,
Riso duma comédia transitória;
Transitória impostura duma história,
História de inventado paraíso!

Num poema se congela o triste pranto,
Pranto que petrifica álgida dor;
Dor que se fez tatuagem dum amor,
Amor que se despiu de roto encanto!

Num poema, a chaga fecha-se a cinzel,
Cinzel que dilapida atritos de alma;
Alma que dos eivados breus se acalma,
Se acalma na paz nívea do papel!

Num poema se desvenda a cruz secreta,
Secreta ria do ser que o imo enfatiza;
Enfatiza o ora efémero e eterniza,
Eterniza no verso a aura do Poeta!


Carmo Vasconcelos
17/Setembro/2008

FADO, GUITARRA E SEVERA
(Sextilhas)
Carmo Vasconcelos


Com licor de feitiço me embriagaste,
Em poemas de ínvio fado me enrolaste,
Fui guitarra e Severa apaixonada…
Por ti, tangi as notas mais plangentes,
Saí do tom em delírios deprimentes,
Rompi as cordas da alma lacerada.

Porque bebi do néctar da loucura,
Adorar-te foi trova de aventura,
Nesse fado de engano e de ilusão…
E agora esta guitarra plange rouca,
Do tanto que te quis em vida pouca,
Do pouco que lhe quis teu coração.

E a noite enferma só lhe traz murmúrios
Do que antes foram címbalos de augúrios,
Promissores saltérios de magia...
E a Severa, tristonha, embrulha o xale,
Já não há fado amado que ela embale,
E a guitarra sucumbe em nostalgia.


Carmo Vasconcelos
6/Setº/2010

FARRAPOS
Carmo Vasconcelos


Franjas da aba do sonho
Adornaram por momentos
Os puídos sentimentos
Do meu acordar tristonho.

Teceu nossa mão aberta
Com gestos de rubra cor,
Ternos bordados de amor
Numa paisagem deserta.

Floriram beijos à toa,
Carinhos a meia voz,
Os dois uma só pessoa,
O mundo fora de nós.

E o desejo irrompeu
Em farrapos, desfiado,
Que o tempo desconjugado
Deixou voar rumo ao céu.

O deleite experimentado
Deixou em nós ânsia louca
E um gosto amargo na boca
Plo tecer inacabado.

Farrapos dum mesmo anseio,
Dispersados plo destino,
São hoje meu desatino,
A meada em que me enleio.


Carmo Vasconcelos
28/12/2007

FERVE AO POETA... em décimas
Carmo Vasconcelos
 


Fervem-lhe os sãos direitos esquecidos
Aos homens, às mulheres e às crianças,
Ferve-lhe um amanhã nulo de esp'ranças
Para os pobres viventes desvalidos.
Ferve-lhe, inda, a justiça surda e cega
Que deixa soltos, ímpios e ladrões,
Ferve-lhe a impunidade que lhes lega
E mete os indigentes nas prisões.
– Inocentes se roubam um milhão
Culpados se com fome roubam pão!

Fervem-lhe ao rubro os luxos desmedidos,
Vaidades sem acerto e probidade,
Fervem-lhe os que de tudo desprovidos
Dia-a-dia, são mendigos sem idade.
Fervem-lhe as verdes matas derrubadas
Para servir aos reis da construção,
Ferve-lhe este planeta sem espadas,
Que em fúria se insurge à degradação.
– Ferve-lhe o homem d'agir louco e macabro
Conducente do mundo ao descalabro!


Ferve-lhe, quente, o sangue de poeta,
Gritam-lhe a dor, as letras em cachão,
Ferve-lhe n’alma a mágoa não secreta,
E na mente, a denúncia p’la razão.
Ferve-lhe a compulsão pela justiça
Tomar de vez o rumo rectilíneo,
Ferve-lhe a mão pra actuar na dura liça,
Em resgate da Paz em extermínio.
- Na pena... a garra d’abolir o imundo!
Ao poeta... a força de mudar o Mundo!


Carmo Vasconcelos
Dezº/2008

FLORES E CITRINOS
Carmo Vasconcelos


Uma aguarela anil de flores e citrinos
lembrou-me a vida ajardinada de azedumes...
É sábio o Cosmos... e a nós, meros peregrinos,
não nos é dado a Lei mudar nem seus costumes.

Por aqui vamos a provar fel e doçuras,
aproveitando da jornada os seus sabores
que, se num dia nos mostra apenas amarguras,
noutro, mergulha-nos num rio de mel e amores.

Porque se tudo sabe a doce o enjoo é fatal,
e se a amargura não voltasse em seu momento,
jamais se tinha o contraponto desse sal,
a temperar nossa existência em crescimento.

Como negar o dedo sábio da alternância,
quando do caos surgem arroubos de alegria?...
Vede que igual a natureza, em inconstância,
sempre engravida a noite escura d’alvo dia.

Vede a maré alta que sepulta a baixa-mar,
o divinal calor que amansa o rude frio,
a paz, depois de agre procela se acalmar,
e o mar que faz-se lago, após ondear bravio.

Louvemos essa miscelânea: riso e dor,
façamos nosso aprendizado co'a alternância,
divina Lei do Deus Supremo... que d’amor
pla Humanidade, faz constante essa inconstância!


Carmo Vasconcelos
Junho/2009

 

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