"FÉNIX"

ETERNIZANDO O EFÉMERO

POESIA  CLÁSSICA

 

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Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais

(Raimundo Correia in "As pombas")


 

AS POMBAS
Carmo Vasconcelos


Era lauto o trigal da tentação
Para as pombas famintas de ternura,
E o meigo semeador dessa fartura,
Deixava as pombas vir comer-lhe à mão.

Mas, tristemente, havia joio entre o trigo,
E as sementes comidas na ganância,
Enganavam as pombas, e a sustância
Concentrava-a o dador no próprio umbigo.

Algumas mais ladinas ao perigo,
Intuíam que o trigal era miragem,
E partiam ruflando asas pela aragem,
Pressentindo do engano o vil castigo.

Mas uma, mais ingénua e dedicada,
Aninhou-se na mão do tratador,
Vendo nos falsos grãos prendas de amor,
E de fome, tombou, por desamada!


Carmo Vasconcelos
Agosto/07/2010

CARAVELA
(Sextilhas)
Carmo Vasconcelos


Qual hediondo pecado ou dura sina
Te fez réu dessa lei que te incrimina
E te condena ao jaez de um deportado?...
Sentença mascarada de ventura,
À busca de um amor imaginado,
E foste caravela à desventura.

Era tão verde o mar da tua esperança,
Alvas velas, maré de alta bonança,
Gaivotas acenaram-te à largada…
Mas eis que as velas logo enrodilharam,
Tremeu o leme, ruiu pronto a amurada,
E as ondas da saudade te inundaram.

O céu desdobrou nimbos de tristeza,
O mar escureceu cheio de incerteza,
Gaivotas debandaram rumo aos ninhos…
No cais... meu lenço acena à escuridão,
Bordados nele estão nossos carinhos,
Molhado, lembra a dor... separação.

Vestida em negro, brancos os cabelos,
Só da lua tenho mimos e desvelos,
Na minha longa espera olhando o mar...
- Não serás outro Dom Sebastião,
Amada caravela hás-de voltar,
Antes que a dor me afogue o coração!


Carmo Vasconcelos
26/ Junho/08

“CARNE VALE” *
Carmo Vasconcelos


Me enlaçaste, demónio mascarado,
Na rubra pantomina exuberante,
E eu de anjinha, no traje etéreo e aluado,
Segui-te numa dança fascinante.

Inventámos um louco carnaval,
Em data desfasada, ambos sem tento,
Que, tal cometa em viagem orbital,
Teve a breve medida de um momento.

Em fogueira de penas nos deitámos,
Traje posto, ajustada a mascarilha,
E cegos de porvires nos queimámos
Nesse lume atiçado de armadilha.

Hoje, extinta a paixão de carnaval,
Semelhante a comédia do burlesco,
Dançam as cinzas um negro ritual,
Em memória do rubro amor dantesco!


*
“Carne Vale” ou “Adeus à Carne”–  origem etimológica da palavra “Carnaval” – Séc.XI


Carmo Vasconcelos
24/Janº/2010

CONSONÂNCIA
Carmo Vasconcelos


Somente a consciência é voz suprema,
E mestra deve ser do coração,
Que ensandecido duela com a razão,
Ferindo-nos co’a espada do dilema.

Esse menino arteiro, irrequieto,
Enleia-nos na rede dos prazeres,
Tentando encarcerar nossos deveres
Sob a mágica cor dum falso tecto.

- Como dói amiúde o dever cumprido
Na elevada busca da paz interna
Pla mão que, revoltada, se faz terna
Em nome do bem como acto assumido!

Mas pra que seja a Paz consolação,
Mister se faz lutar pela consonância!
Nenhum deles clamando em alternância,
Consciência, Razão e Coração!


Carmo Vasconcelos
7/Abril/08

DE NARCISO... A NARCISISTA
Carmo Vasconcelos


Nas lendas de Narciso, a bela flor
Serviu paixões e fúteis leviandades...
Cúmplice foi do rapto por amor
Da adorada Perséfone, por Hades.

Porém, a estória dita, apenas é
Uma das ricas faces mitológicas;
Mas é doutra, a de Ovídio, que vem fé
De renegarmos tais vias analógicas.

Lembre-se a lenda antiga de Narciso!
O jovem que adorando a própria imagem,
De egocêntrico amor, morreu, sem siso,
Havendo os que hoje ainda, tal qual agem!

Se remiram no lago da vaidade,
Julgando-se no Cosmos, sem igual,
Não vendo que no espelho da verdade,
Seu rosto é reflectido de amoral.

Se afogam na água fétida do egoísmo,
Ignorando os iguais, pares e irmãos,
Alheados dum fraterno e são altruísmo,
Carregando em si, péssimos senãos!

Que lhes baixe a luz ígnea do saber
Existir em global humanidade,
A iluminar o anverso do seu Ser,
E a guiá-los à sagrada eternidade!


Carmo Vasconcelos
1 de Outº/2009

 

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