"FÉNIX"

ETERNIZANDO O EFÉMERO

POESIA  CLÁSSICA

 

pág. 3 de 12 págs

 
 

A MINHA TERRA

 com Mote e Glosa da Autora
Carmo Vasconcelos


MOTE
A MINHA TERRA

Nesta Lisboa eu nasci,
e digo de brincadeira:
desta cidade altaneira,
"p'rá terra" nunca parti! *



GLOSA EM DÉCIMAS


Sou alfacinha da gema,
lusitana com vaidade,
pois nasci numa cidade
que se veste de poema.
Cheira a goivos e alfazema,
tem cores de colibri,
no mundo que percorri
não pude ver outra igual.
Por decreto divinal,
NESTA LISBOA EU NASCI.

Vi nela o sagrado rosto
da santa que me deu vida,
e seus olhos à partida
nela fechei com desgosto.
No seu sal e no seu mosto,
cresceu-me a força guerreira
desta gleba justiceira.
Nela ri, nela chorei,
e o primeiro amor beijei,
E DIGO DE BRINCADEIRA

Que sou filha dos sem-terra,
pois nas férias de que gosto,
à terra doutros me encosto,
à beira-mar ou na serra.
Mas cedo a saudade berra
para voltar à soleira;
postar os olhos à beira
das gaivotas em voltejo
no verde ondular do Tejo
DESTA CIDADE ALTANEIRA.

Amo o seu cheiro sem par
e sua luz que me ilumina;
é musa que me fascina,
pois tem vozes de avatar.
É poema de encantar
desde que me conheci
e ao seu fado me cingi.
Porque a quero com amor,
nunca a feri com tal dor,
"PRÁ TERRA" NUNCA PARTI!


*
"Ir p'rá terra" = ir de férias ou partir de vez para a Terra Natal


Carmo Vasconcelos
8 de Janeiro/2008

A PAZ DO POETA
Carmo Vasconcelos


Vive o poeta na angústia permanente
De não ter sábios dons de bruxo ou mago,
Que lhe outorguem poder omnipotente
Pra consertar no mundo tanto estrago!

E num dilema mártir ouve os gritos
Dos que em tortura sofrem mil carências,
Minguando na miséria atroz, aflitos,
Vítimas de brutais incongruências!

E revolta-se o verso escrito a sangue,
E gela-se-lhe a mão pela impotência
De prover a cada alma e corpo exangue,
A humana e natural sobrevivência!

Enquanto houver desprezo, fome e guerra,
Às mãos cruentas dos aios de Satanaz,
Haverá de encrespar-se o mar e a terra,
E há-de lutar o Poeta pela Paz!


Carmo Vasconcelos
19/Fevº/2011

ACÇÃO DE GRAÇAS
NO MEU ANIVERSÁRIO/2010
Carmo Vasconcelos


Ante a manhã radiosa me curvei
O peito arfante, olhar embevecido,
Ido o degrau a mais, atrás vencido,
E a nascitura etapa que ganhei!

Desilusões e abrolhos não lamento,
Em oposto, os bendigo, plo lançado
Crédito escrito a dor, mas alcançado
Num carma evolutivo em incremento.

Que importa as cãs, os passos hesitantes,
O olhar cansado, a cútis já sem brilho?
Se espelham da minha alma o andarilho
À procura de acertos compensantes.

E a cada aniversário conseguido
Levanto as mãos em preces de louvor
Ao nosso Deus supremo que em amor
Me abençoa com o ignoto a ser vivido.

E em festa, rejubilo, agradecida
Pela Divina oferta, e em preces lassas,
Aos Seus sagrados pés ajoelho em graças,
Louvando a feliz dádiva da vida!


Carmo Vasconcelos
27/Maio/2010

AMIGOS
Carmo Vasconcelos



Se lá no topo navegas
e em dinheiro te esfregas
como uma pega na cama…
Se estás montado na fama
e à lisonja te entregas…

Terás amigos, e muitos,
contigo a todo o momento.
Mas se caíres em desgraça,
cairás no esquecimento,
terás amigos fortuitos.

Sozinho vais caminhar
remoendo as tuas dores,
mastigando o teu tormento,
pois já não lhes podes dar
tua fama e seu sustento.

E os teus amigos inúteis,
pobres diabos e fúteis,
com quem tudo partilhaste…
Hoje… de ti esquecidos.
só lembrarão que falhaste!

Carmo Vasconcelos

ARQUIVO
Carmo Vasconcelos


Tanta letra posta ao canto,
Tantos motes, tantos fados…
São agora encarcerados
No arquivo morto de espanto.

Tantas palavras escritas,
Tantas horas de emoção,
Vivem hoje em reclusão
Tal como amantes proscritas.

Tanto enlevo acalentado,
Tanto enlace em poesia,
Odes de fogo e euforia,
Verbo agora amordaçado.

Tanta noite sem cansaço,
Tanto mimo, tanto beijo,
Hoje são findo cortejo
Interditado no passo.

Tanta memória no vão…
Tantos megas, tantos gigas,
Lembram castradas espigas
Nunca chegadas a pão.

Tanta semente lançada,
Tanto regadio de encanto…
E desse lavrado tanto,
Deu campo arado de nada.

Tanta sílaba gritada,
Tanta mágoa no dilema,
Destruíram o poema,
Virou trova amargurada.

Mas ao rodar esse arquivo
E a laje que o sepultou,
Uma lágrima tombou
Ao ver que o cerne está vivo.


Carmo Vasconcelos
11/Setº/2010

 

Livro de Visitas

 

PARA PÁG. SEGUINTE