"FÉNIX"

ETERNIZANDO O EFÉMERO

POESIA  CLÁSSICA

 

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“O que assusta é a crescente mecanização da vida”
Dr. Frei António Moser (Teólogo)



A ESPÉCIE ELEITA
Carmo Vasconcelos


Do nosso Deus, Pai Criador, a obra mais perfeita
Divinamente emerge à luz, arquitectada
Na matriz pura, pró milagre designada,
De dar ao mundo o ser humano, a espécie eleita!

- É sangue e carne! - Diz a ciência, assaz teimosa.
- Pura matéria, transformada e natural,
Como é gerado outro qualquer ser animal,
Bastando a cópula instintiva e deleitosa!

- E já nem disso precisamos, na verdade!
(Clamam os sábios, afeiçoados às razões…)
Pois temos novas e eficazes invenções
Que geram vida, dispensando a divindade!

- O fabricar humanos não tem já segredo.
Basta a matéria-prima; os genes na proveta,
E o mais que os místicos proferem é uma treta!
- Retirem vosso Deus do nosso arguto enredo!

E eu só pergunto, vendo as teses que a esses cegam,
Pondo a questão, ingenuamente, aos doutos sábios:
- Mas quem lhes dá a mente e a voz pronta em seus lábios,
E lhes insufla a divina alma que carregam?...


Carmo Vasconcelos
12/ Setº/2010

A ESPERANÇA
(Sextilhas)
Carmo Vasconcelos


Se a saudade nos dói do que perdemos,
tal aguçada dor do amante ausente,
é como um livro aberto p’rá cegueira...
Põe desordem em tudo que fazemos,
a mente amorfa, qual guru dormente,
coração mono, sem eira nem beira.

Mas se uma nova aurora se apresenta,
risonha, tentadora e feiticeira,
clareia-nos da saudade a tal negrura…
E, audaz, a nossa esp’rança logo intenta
vestir-lhe a cor da sorte verdadeira,
passos afoitos, crentes na ventura.

Tantos sonhos gorados à partida…
E tomba a esp’rança em lágrimas prostrada,
sucumbida à dolosa decepção!
Porém… Sábio o mistério desta vida,
impede que ela morra acobardada,
ao florir-lhe de novo o coração!


Carmo Vasconcelos
30/Dezº/2008

A MALDIÇÃO
Carmo Vasconcelos


Era uma peça antiga, de subtil beleza
Inda luziam irisados nos seus tons
Mas só aquele que a olhasse em profundeza
Podia vislumbrar seus preciosos dons

Não era fácil desvendar com nitidez
O traço, a era, a escola a que pertencia
Amálgama de estilos era seu jaez
Num corpo de mulher, um’alma de utopia

Porém, a par do misterioso encantamento
Pesava nela uma lei de condenado
Mais verosímil do que mero embruxamento
Provável carma d’ex-pecado insaldado...

Todos a desejavam pla sua perfeição
Gozar da sua posse era a ânsia exibida
Mas por castigo ou por danada maldição
De pronto a abandonavam após conseguida

E da peça... amargas lágrimas tombavam
Prantos esses que de pátina a recobriam
E enquanto à vista plúmbeos veios alastravam
Argênteos dotes do seu íntimo emergiam

Até que um dia, um velho sábio lhe ditou:
- Cala o pranto inútil que a alma t’arrefeça
Nenhuma maldição a vida te instilou...
Só não baixou ainda a mão que te mereça!


Carmo Vasconcelos
29/Junho/2009

A METAMORFOSE
Carmo Vasconcelos


Desde criança ouvi o vaticínio
Que em dois mil seria o morticínio
De todos nós, na Terra em extinção...
Mas, talvez, pla mudança dos vectores
Que do planeta são os regedores,
A Esfera continua em rotação.


Indubitavelmente, os seus valores
São hoje testemunhos dos horrores,
Perpetrados plos génios da ambição...
Que do espiritual alvo distanciados,
Fazem dos bens venais deuses amados,
A que ajoelham em louca obsessão.


Se auto-destruindo em lutas e chacinas,
Revestem-se de crenças peregrinas,
Em nome de um suposto Deus Maior...
Olvidando que irmãos somos do Cristo,
Que morrendo por nós se fez benquisto,
Filho do mesmo Deus, de insigne Amor!


Mas a metamorfose que requer
Novel tempo do "Ser" e não do "Ter",
Deixou de ser um mito imaginário...
Uma nova Era não é mais opção,
Imposta já se fez! E em transição,
Caminhamos pra Luz da Era de Aquário!


Carmo Vasconcelos
3/Fevº/2011

“Foi o tempo que dedicaste à tua rosa
que fez a tua rosa tão importante”
Saint-Exupéri




A MINHA ROSA
Carmo Vasconcelos


Que estranho mal fez perecer a minha flor,
Se ainda ontem se abria, franca e langorosa?...
Mas pela tarde, e de repente, a tão viçosa
Flor se fechou, murchando débil ao Sol-Pôr...

Sabemos bem que à meiga Lua flores se acolhem,
Pra repousarem do árduo Sol que as animou,
Mas ao romper do dia, a minha se finou...
- Já não tem pétalas que meus dedos desfolhem!

Era ainda jovem, mas fogosa e tão bonita,
Nossa amizade-amor – tal qual paixão primeira!
- Será que deu-lhe água demais a jardineira?
Que de alagada se afogou e ressuscita?...

Dizia ser eu, a fértil terra que a salvou,
Quando em moléstia, quase exangue feneceu
E eu lhe ofertei torrões de amor, e se reergueu,
Porque ao calor desse carinho se entregou!

Não posso crer que para sempre me deixou,
Que a terra amada condenasse à solidão...
E se a esquecê-la me aconselha o coração,
É porque a dor de muito amar o causticou!

Prefiro crer que a minha rosa está dormente,
(Como a princesa que na lenda adormeceu,
Pela maçã que, enfeitiçada, então comeu.)
E que o meu beijo a traz à vida novamente!


Carmo Vasconcelos
15/Maio/2009

 

 

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