Carmo Vasconcelos

ROMPENDO AMARRAS

POESIA LIVRE

por

Carmo Vasconcelos

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Reggianini Vittorio

A Interrupção

PROJECÇÃO
Carmo Vasconcelos


Meu amor!
Projecto-me para ti, nas legendas que aventuro
em labaredas insensatas de incontida excitação,
fogo que devora as sombras do bosque secreto do meus medos...
Embriagada pelos verdes cintilantes, afasto gnomos e duendes,
arautos em trombetas de perigos iminentes.
Cúmplices, os rumores da noite segredam-me o teu nome,
incitam-me a explorar os labirínticos meandros
que levam à clareira onde te abrigas,
para, extenuada, ir acolher-me no teu peito,
contar-te o meu sonho imaginado...

Meu amor!
Tentas-me qual estrela com o seu brilho inatingível,
como um desafio insano à ordem instalada...
Sigo o piar do mocho nos seus aliciantes recados
que ousam falar-me do teu amor oculto em brumas...
Busco-te nas trilhas enviesadas e perigosas,
mas são trôpegos os passos na escuridão do caminho,
emaranhadas as veredas, ocultas as saídas...
Para abraçar-te, meu amor, restam-me apenas as asas,
rumo à quimera.

Meu amor!
Só voando posso alcançar agora a magia desse encontro,
tomar-te as mãos, deslizar no mistério dos teus olhos,
sorver-te os lábios, pecaminosa como a maçã do paraíso.
Mas é tudo sonho, ilusão e devaneio!...
Rasgue-se nos céus uma aurora luminosa que cesse o voo
e traga ao chão o êxtase etéreo feito grito terreno,
a clamar espírito e carne, gesto e espanto,
na consumação do enlevo adiado;
corpos e almas enlaçados, gozando o avesso do impossível!
Nesse instante, meu amor, caberá a eternidade!

Carmo Vasconcelos

PUDESSE EU SER …
Carmo Vasconcelos

Pudesse eu ser…

A concha onde abrigas
pérolas de palavras inúteis...
O cofre onde ocultas
jóias de pensamentos calados...
A ânfora onde derramas
cristais de lágrimas antigas.

Pudesse eu ser…

Faísca e fogo
na lenha húmida dos teus olhos...
Sol e Lua
na sombra difusa do teu corpo...
Verde e água
na aridez do teu deserto.

Pudesse eu dizer…

Pertenço-te!

Carmo Vasconcelos

 

QUANDO TUDO DORME
Carmo Vasconcelos

Oh! Que noite enorme
quando tudo dorme!
Sento-me no fundo
de mim… e o que ouço?
Que é mágico o mundo!
O fel e o desgosto
risco do papel,
afogo num poço…
No amor e no mel
mergulho o meu rosto!

Bebo na raiz
da árvore frondosa,
vida e temperança.
E como um petiz
furtando uma rosa,
aspiro a inocência,
toco a adolescência,
verde e descuidosa…
Retorno à criança
que fui… tão feliz!

Oh! Que noite linda,
que doçura infinda,
que ternos seus beijos!
Dos tempos da infância
afago os desejos,
sorvo-lhe a fragrância…
Na noite sem escolhos
sou meu imo aceite,
e em terno deleite
fecham-se-me os olhos!

Carmo Vasconcelos

 

RASGUEI…
Carmo Vasconcelos

Rasguei de mim todas as névoas…
Nas vidraças dos meus olhos
chove o néctar da paz!

E em madrugadas de deleite,
palavras brancas como leite,
molham-me os lábios secos de degredos!

E em beijos sábios,
sugam-me da boca
volúpias e segredos!

E a língua alfazema
na noite lilás,
lambe-me o poema!

Carmo Vasconcelos

 

REBELDIA
Carmo Vasconcelos

Cavaleiro, toma tento,
que este cavalo tem vento
pelas narinas a soprar...
Não o queiras sufocar!
De seda são suas crinas,
não as prendas a esquinas...
Não o queiras amarrar!
Que ele dos cascos faz garras
com que rebenta as amarras...
Não o queiras dominar!

Não lhe ponhas rédea curta,
que ele ao teu corpo se furta...
Não o queiras segurar!
Nem lhe coloques viseiras,
que ele foge pelas ladeiras
não querendo saber de nada…
E veloz, à desfilada,
tomado o freio nos dentes,
os seus quadris não mais sentes,
jamais o podes montar!

Carmo Vasconcelos

 

RENÚNCIA
Carmo Vasconcelos

Já não te quero!

Esgotei meu tempo
de borboleta ébria e utopista,
obreira de pirâmides de areia…
Num holocausto expiatório,
queimo as minhas asas,
destruo meu radar,
e renuncio às alturas
das pirâmides da minha imaginação!

Carmo Vasconcelos

 

RIO OU MAR?
Carmo Vasconcelos

Leito, grande leito…
Será de rio?
Ou de mar?...

Sem murmúrios, sem sussurros,
onde repousam lençóis mudos,
brancos de espuma de raivas quietas…
Lisos, sem manchas, sem sorrisos...
Mar Morto!

Leito de ondas geladas,
salgadas, petrificadas...
Mar Antárctico!

Leito onde morrem noites,
desmaiam luas e cios,
para despertarem em bocejos,
gestos nulos, desmanchados...
Rio de Angústias!

Leito de desespero,
onde submergem remos que esbracejam,
mordendo as rendas do desejo...
Rio de Insónias!

Leito, grande leito…
Rio sem margens!
Alto mar!

Carmo Vasconcelos

 

Livro de Visitas

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